Amazónia: Fim do desmatamento não salvará a floresta amazônica

Desmatamento pode reduzir pela metade a biodiversidade de uma floresta. (Foto: JOS BARLOW)

Corte seletivo e incêndios reduzem a biodiversidade tanto quanto se as árvores fossem arrancadas.

Para salvar o que resta das florestas tropicais não basta acabar com o desmatamento.  Uma análise da situação da floresta amazônica mostra que outras interferências humanas, como o corte seletivo, os incêndios e a pressão da pecuária e da agricultura provocam tanto dano quanto se a floresta deixasse de existir.

O desmatamento zero e, inclusive, o reflorestamento têm marcado a agenda de organizações de meio ambiente durante décadas. Em países como o Brasil, as autoridades assumiram metas e, com exceção dos últimos dois anos, a destruição da floresta amazônica vinha sendo reduzida neste século. Mas tanto esforço pode estar mascarando um problema ainda maior: as florestas tropicais perdem biodiversidade à medida que os humanos se aproximam.

Um amplo grupo de pesquisadores britânicos, norte-americanos e brasileiros analisou o estado de saúde de várias zonas arborizadas do Estado brasileiro do Pará, que abriga um quarto da floresta amazônica, incluindo a maior porção do leito do rio Amazonas. Os pesquisadores compararam o grau de biodiversidade de localizações ainda quase intactas com o de outras afetadas por vários tipos de ações humanas, como o corte, a agricultura e a pecuária ou os incêndios.

A derrubada e os incêndios reduzem pela metade a biodiversidade, ainda que as florestas conservem 80% de suas árvores.

A pesquisa, publicada na Nature,  mostra que inclusive aquelas florestas que conservam 80% de suas árvores perderam até a metade da biodiversidade que possuem as florestas com menos presença humana.

O percentual apontado como ponto de referência não foi escolhido aleatoriamente: a legislação brasileira exige que os proprietários de terras conservem ao menos 80% da superfície ocupada por árvores.

Para determinar o valor da perda de biodiversidade, os pesquisadores analisaram a presença e a densidade de 1.500 espécies vegetais, outras 460 de aves e 150 de insetos em 175 localizações das regiões de Santarém e Paragominas. Na maioria (143) se pratica o corte seletivo e há rastro de outras interferências humanas. As trinta restantes eram florestas com pouca ou nenhuma presença humana.

Os autores do estudo afirmam que a flora e a fauna das florestas tropicais são adaptadas às condições de uma densa cobertura florestal e têm uma escassa experiência evolutiva frente à propagação de fenómenos perturbadores.

Além do corte dentro da floresta, outras atividades humanas nos arredores, como a agricultura e a pecuária, desprotegem as áreas ao redor das selvas, provocando exposição ao vento e à seca, quando não a incêndios.

Ampliando seus resultados para todo o Estado do Pará, a perda de biodiversidade equivaleria ao desmatamento de entre 92.000 e 139.000 Km2. A estimativa mais modesta iguala a extensão desmatada em toda a floresta amazónica na última década.

O papagaio guaruba é uma das espécies mais ameaçadas das selvas de Pará. (Foto: D.R.)
O papagaio guaruba é uma das espécies mais ameaçadas das selvas de Pará.
(Foto: D.R.)

A pesquisa mostra também que a deterioração da saúde da floresta tropical agrava os problemas de espécies que já estão em uma situação mais complicada.

Assim explica o ornitologista da Universidade de Cornell (Estados Unidos) e coautor do trabalho, Alexander Lees: “Normalmente as espécies tropicais têm nichos ecológicos reduzidos e são muito especializadas. O fogo e/ou a derrubada causam mudanças fundamentais na estrutura florestal, reduzindo a biomassa e a cobertura das árvores e alterando o microclima do leito da floresta”.

As florestas do Pará, por exemplo, abrigam 10% das espécies de aves do planeta e muitas só podem sobreviver lá. “Os esforços para reduzir o desmatamento são vitais, mas não bastam”, afirma Joice Ferreira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura.

“Ainda que as políticas para frear o desmatamento no Brasil tenham sido muito exitosas, não bastam para proteger nossos ecossistemas florestais”, acrescenta.

O problema é que a legislação se concentrou na quantidade mais do que na qualidade, no número de árvores em vez da variedade e saúde.

Além disso, as ferramentas de controle de desmatamento não servem para detectar e frear as outras interferências humanas: “A cada ano grandes porções de floresta são queimadas ou derrubadas ilegalmente”, diz Ferreira. Para ela, só uma ação urgente e que aponte contra todas as interferências humanas poderia dar uma oportunidade real à floresta amazónica. (ELPAIS)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA