Albino Malungo: “A Coreia é o que é porque apostou no Homem”

Albino Malungo, embaixador de Angola na Coreia do Sul. (Foto: D.R.)

Como quase todos os seus vizinhos na Ásia do passado, a Coreia também teve a sua estampa de lugarzinho preso às teias do subdesenvolvimento, com juntas de bois arrastando- se por vales e planícies a produzir alimentos. Hoje exporta objectos de desejo disputados no mundo inteiro, puros fetiches como o elegante telemóvel Galaxy da Samsung e os veículos Hyundai em imparável processo de aperfeiçoamento. O PAÍS visitou a capital Seul e a ilha de Jeju, para tentar conhecer um dos tigres asiáticos da moda. Depois, conversou demoradamente com o embaixador de Angola no país, Albino Malungo, para aprofundar o exercício de aprendizagem.

 

albinommmSenhor embaixador, ajude-nos a compreender a Coreia do Sul, que é isso que, afinal, nos fez vir de tão longe. Que país é este, como o vê na sua posição privilegiada de aqui trabalhar já lá vão quatro anos? Podemos começar pelo seu sistema político: como se chega a presidente, a deputado, a ministro?

A Coreia do Sul, oficialmente República da Coreia, é um país soberano localizado na parte sul da península coreana que existe como tal desde 15 Agosto de 1948, em consequência do fim da II Guerra Mundial e da divisão da península. O nome “Coreia” deriva de Goryeo, dinastia que governou a península na Idade Média. A Coreia do Sul tem uma população de 50 milhões de habitantes, sendo Seul a cidade capital. O presidente é o Chefe de Estado e de Governo, eleito por sufrágio universal para um mandato  único de cinco anos.

O Presidente é igualmente o Comandante-em- Chefe das forças armadas, usufrui poderes executivos, nomeia o Primeiro-Ministro e o Conselho de Ministros com o consentimento do Parlamento. A Assembleia Nacional conta a partir de 2012 com 300 assentos distribuídos entre os partidos de acordo com um sistema proporcional ao número de votos. A legislatura Sul-coreana é única meral e os Membros do Parlamento são eleitos para um mandato renovável de quatro anos. Após as eleições de 13 Abril de 2016 o partido no poder (Saenuri) obteve 122 acentos, os partidos da oposição, Partido Minjoo e Partido do Povo, obtiveram 123 e 38 acentos, respectivamente.

Dizem-nos que a Coreia procura ser um exemplo de ética na política, não importa o plano que seja. É verdade que um cidadão que tenha tido alguma reprovação no seu percurso académico nunca chegará a ministro?

Para além da relevância do currículo académico e a conduta pessoal, a opinião pública tem um papel preponderante na nomeação para cargos públicos. O público interessa- se sobremaneira na conduta e exemplos dos titulares dos cargos públicos. Dos vários exemplos que poderíamos citar, recordo o caso de Moon Chang-keuk, proeminente jornalista que tinha sido indigitado paro o cargo de Primeiro-ministro no ano de 2015 e forçado a desistir dada a opinião popular contra tal indicação por declarações que tivera prestado há muitos anos atrás relativamente à colonização japonesa. Podíamos também citar o caso de Lee Wan-gu que teve que renunciar do cargo de Primeiro-ministro dois meses após a sua nomeação por alegações de corrupção em cargo anterior.

5º maior exportador do mundo Peço agora, Senhor embaixador, que olhemos para uma das imagens icónicas deste país, o seu impetuoso progresso que se conquista todos os dias por via sobretudo da tecnologia. A Coreia substituirá o Japão ou já é até mais do que os génios da Toyota, Kawazaki, Canon, Kodak? Um eminente professor universitário dizia-nos há dias, na sede da Korea Foundation, que o Japão é o melhor aluno a imitar o Ocidente mas que a Coreia é o melhor aluno a imitar o Japão e o Ocidente juntos.

correaUm dos factores mais importantes do rápido desenvolvimento da Coreia do Sul foi a adopção a partir dos anos 60 de uma política estratégica direccionada à formação de quadros e a exportação de tecnologias e produtos manufacturados. Com um PIB per capita estimado em USD $36.700 (2015), a Coreia do Sul é hoje a 4ª maior economia da Ásia e a 11ª maior economia do mundo. A Coreia do Sul, país da Samsung, LG, Hyundai e Kia, destaca-se mundialmente na construção naval, indústria automóvel, energia nuclear e em vários sectores da ciência e tecnologia. Importa ressaltar igualmente que a Coreia do Sul foi em 2014 o 5º maior exportador ($535.500.000.000) e o 7º maior importador ($542.900.000.000) do mundo. Assumo que poderá ser défice informativo nosso mas o certo é que quando se fala das grandes marcas e do grande poder empresarial da Coreia é da Samsung e da Hyundai que nos lembramos de imediato.

Nesta viagem ficámos, no entanto, a conhecer a POSCO, um gigante da indústria do aço, que aposto que boa parte dos leitores angolanos também não saiba que firma é esta. Que peso tem a POSCO no tabuleiro da alta finança coreana, no raking dos grandes impérios industriais até do mundo? A POSCO foi fundada em 1968, fruto de uma parceria público-privada, com vista a responder às necessidades da indústria automobilística e a de construção naval. É actualmente a 4ª maior produtora de aço a nível mundial, com uma média de produção anual de 41.9 milhões de toneladas de aço. Os sul-coreanos consideram a POSCO um símbolo de orgulho nacional e pedra fundamental no desenvolvimento industrial do país. A POSCO faz parte dos 5 maiores grupos empresariais da Coreia do Sul, popularmente Chaebols.

Angola beneficia da existência deste colosso das estruturas em ferro que é a POSCO?

Já se faz sentir a presença da POSCO no nosso país com a sua participação no projecto CLOV FPSO. Trata-se da quarta iniciativa em águas profundas no Bloco 17, localizado na bacia do Baixo Congo, com capacidade de produção de 160 mil barris/dia. Neste projecto, a presença da POSCO acentua-se particularmente na construção da estrutura flutuante. Mantivemos recentemente um encontro de trabalho com o PCI da POSCO, Oh- Joon Kwon, que manifestou grande interesse em reforçar a presença da empresa em Angola e participar de outros projectos em áreas de interesse mútuo.

Não é intenção nossa nesta conversa sufocar os leitores com números da cooperação económica entre Luanda e Seul, sendo que interessa-nos mais obter, com a sua ajuda, uma panorâmica geral da Coreia, isto é, ficarmos a saber um pouco mais sobre o país económico, o país social, o país político. Ainda assim, que peso representa a Coreia na balança do relacionamento com Angola, comparado por exemplo com outros parceiros importantes também asiáticos, como o Japão, Singapura, a Malásia, o Vietname e, claro está, a estratégica China?

Desde o estabelecimento das relações diplomáticas em 1992, Angola e a Coreia do Sul têm desenvolvido parcerias económicas mutuamente vantajosas através da implementação de projectos nos mais variados domínios. As relações entre os dois países foram reforçadas em Fevereiro de 2001, com a visita oficial a Seul do Presidente José Eduardo dos Santos. Os instrumentos legais entre os dois países se enquadram no âmbito do Acordo Geral de Cooperação Económica e Técnico-científica, assinado a 2 de Julho de 1993. Temos mantido vários encontros de concertação com a parte sul-coreana, visando a realização em breve da terceira reunião da Comissão Mista, onde será analisado e aprovado o Acordo sobre a Promoção e Protecção Recíproca de Investimentos, um instrumento bastante requerido pelo sector empresarial.

Nos últimos anos a Sonangol e a DSME desenvolveram vários negócios no domínio da construção naval e equipamento para a indústria petrolífera. Os maiores navios de transporte de petróleo e gás do mundo são angolanos fabricados por empresas sul-coreanas. A construtora Namkwang, associada a entidades angolanas, construiu vários empreendimentos na cidade de Luanda com destaque para o Centro de Convenções de Talatona, o hotel HCTA e outros. A Hyundai Motors e a Kia Motors me parecem estar a liderar o nosso mercado automóvel, assim como a Samsung e a LG lideram o mercado de electrónicos. Recebemos regularmente empresários e políticos sul-coreanos interessados no reforço da amizade e cooperação, aumento do volume de negócios com a participação no processo de diversificação da economia angolana.

Parece-lhe que estamos suficientemente próximos um do outro ou sente que haverá mais Coreia por explorar, por aproveitar, da parte de Angola, que tem a urgência do seu desenvolvimento e, naturalmente, necessidade de actuar em mercados diversificados? Temos jovens angolanos a aprenderem no sistema de ensino coreano, que nos foi apresentado como um dos investimentos de ponta do país e tem permitido avançar como vai avançando?

A Embaixada tem excelentes relações com as 50 universidades enquadradas no Programa de Bolsas de Estudo do Governo Coreano (KGSP). Este programa visa aprovisionar bolsas a estudantes provenientes de países em desenvolvimento, cobrindo 100% das despesas durante o período de formação. De igual modo, temos recebido de instituições de ensino superior e formação profissional muitas solicitações de recomendação de estudantes devidamente qualificados a candidatarem-se à admissão e atribuição de bolsas de estudo, o que justifica o crescente número de estudantes angolanos na Coreia do Sul.

No final do ano lectivo transacto fui convidado a participar da cerimónia de graduação em algumas universidades e pude constatar que o nível de aproveitamento dos nossos estudantes tem sido bastante positivo, particularmente na área da engenharia arquitectónica e da engenharia de informação e telecomunicação. Fruto de uma parceria entre a Embaixada e a Universidade de Dankook foi constituído o Centro de Estudos Angolanos junto daquela instituição que para a publicação regular de obras técnico- científicas sobre o nosso país e promover a atribuição de bolsas de estudo e a parceria com congéneres nacionais.

Ainda sobre a educação e o ensino: pode dizer-se que a Coreia é uma versão replicada ou melhorada do potente Japão, que não tendo riqueza do subsolo, apostou na formação do seu povo com critérios de excelência e os resultados estão aí à vista de todos, é a segunda potência económica do planeta. A Coreia do Sul também não tem minérios, não tem o potencial de recursos que têm outros, nem petróleo, nem gás, nem ouro nem diamantes. É um digno caso de estudo a Coreia, acha?

Acredito que sim tendo em conta os resultados alcançados. Com uma taxa de alfabetização na ordem dos 99.9%, cerca de 80% dos jovens a frequentar uma das 347 universidades existentes no país e mais de 97% dos estudantes concluindo o ensino médio anualmente, a Coreia do Sul ocupa a 1ª posição no ranking mundial de sistema de educação. O governo sul-coreano prioriza a constante modernização do sistema de ensino e a investigação cientifica, alocando ao sector da educação aproximadamente 7% (USD $11.3 biliões) do Orçamento Geral do Estado.

O processo de reunificação é longo e bastante complexo

maquimDizem-nos que em dias de provas e de exames, as ruas que passam próximo dos estabelecimentos de ensino são fechadas para que nenhum ruído interfira na concentração daquelas cabeças ocupadas a pensar. É mesmo assim como acontece?

Isto acontece particularmente na segunda quinta-feira de Novembro, dia em que os estudantes fazem o Exame de Habilidade Escolar (CSAT). Trata-se de um exame de aptidão padronizado para ingresso em universidades sul-coreanas. O CSAT é conhecido internacionalmente pela sua extrema organização e rigorosidade. O governo adopta medidas excepcionais para não perturbar os mais de 630 mil candidatos. Entre estas medidas está a suspensão de voos, os serviços públicos abrem uma hora mais tarde e um grande contingente policial organiza o trânsito para reduzir o congestionamento. O nível de aptidão determinado pelo resultado do exame é primordial ao acesso às melhores universidades que por sua vez garantem um bom futuro profissional e até mesmo um bom casamento.

Têm vindo para cá, de Angola, quadros de topo da Administração para estudarem o sucesso económico que é a Coreia? Não sente que isso seja fundamental para nós?

Um considerável número de quadros técnicos nacionais participa regularmente de acções de formação no domínio da saúde, educação, agricultura, ciência e tecnologia, etc. A transferência do conhecimento e da tecnologia é um dos grandes interesses do Estado Angolano no seu relacionamento com a Coreia do Sul. A Embaixada dedica particular atenção neste sentido pelo que não poupa esforços nos contactos e actividades com instituições como a KOICA (Agência Coreana para a Cooperação Internacional), o KDI (Instituto de Desenvolvimento da Coreia o KIST (Instituto Coreano de Ciência e Tecnologia) e o Movimento Saemaul.

Queremos que os coreanos estejam na Filda 2016 Tem a percepção de que os coreanos estão virados para o estreitamento das relações comerciais, científicas e de outra natureza apontadas para a ideia de se fazer avançar Angola na direcção do progresso ou serão, também eles, um curioso caso de prudência e “vamos ver” como acontece com o Japão?Por outras palavras: sente entusiasmo nos investidores coreanos quando o tema é tentar sorte em Angola, partir para Angola, estender a acção para Angola?

Tenho participado em muitos fóruns de negócios e investimentos, e é notável o interesse das empresas sul-coreanas em expandir as suas actividades ao mercado angolano, principalmente na exploração de recursos naturais, agricultura e construção de infra-estruturas. Estamos a criar as condições para que uma missão empresarial da FKI (Federação das Indústrias da Coreia) se desloque a Luanda durante a FILDA 2016, para melhor conhecimento do mercado e contacto directo com potenciais parceiros nacionais. Regularmente emitimos vistos para empresários que pesquisam o mercado angolano. O Grupo Interburgo, de origem coreana, nos parece continuar a destacar-se na produção pesqueira. Consideramos urgente a aprovação do Acordo sobre a Promoção e Protecção Recíproca de Investimentos e recomendamos a isenção de vistos para maior movimentação dos empresários empresários de ambas as partes.

Não há alternativa à reunificação Mudança de página: há setenta anos que a Coreia tenta voltar a ser a nação única que era antes do fim da II Guerra Mundial, que transformou a península em dois países, ainda por cima com uma hostilidade visível e que já teve uma guerra pelo meio, de 1950 a 1953. Como observador, como pessoa que aqui vive e acompanha de perto as movimentações políticas e diplomáticas, quão perto ou longe nos encontraremos da reunificação?

O processo de reunificação é longo e bastante complexo. Os dois países continuam tecnicamente em guerra, visto que a Guerra da Coreia (1950-1953) terminou com um armistício e nunca foi assinado um acordo de paz. O constante clima de tensão na península tem causado muitas das vezes graves incidentes. Recentemente, o governo sul-coreano ordenou, de forma unilateral, a suspensão das operações do Complexo Industrial de Gaeseong (projecto conjunto localizado em território norte-coreano), como represália aos testes nucleares e ao lançamento de mísseis de longo alcance pela Coreia do Norte.

No ano passado, houve uma grande expectativa em torno da celebração do 70º aniversário da libertação da península coreana do domínio colonial japonês. Alguns analistas expressaram esperança que a celebração levasse a uma maior aproximação, porém os esforços para a organização de cerimónias conjuntas não prosperaram. A Coreia do Norte nega-se a abandonar o seu programa nuclear e falar de reconciliação enquanto Seul não suspender os seus exercícios militares com os Estados Unidos da América, que mantém 28.500 efectivos no território sulcoreano. A comunidade internacional e o Conselho de Segurança da ONU têm imposto sanções à Coreia do Norte no sentido de desencorajar o seu programa de armamento nuclear e abraçar o caminho do diálogo para a pacificação.

Seja no recente Forum Jeju 2016, que tivemos o privilégio de acompanhar como convidados, seja nos lugares para onde fomos encaminhados para perceber melhor a Coreia, o tema da reunificação é, claramente, a mais importante das agendas da política actual por cá. Todos falaram do assunto com uma preocupação impossível de disfarçar, do Primeiro Ministro, Hwang Kyo-Ahn ao Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, que é antes de tudo um filho da Coreia, logo portanto interessadíssimo na paz e na estabilidade do seu país, da península coreana. Muito honestamente, como é que olha para este delicadíssimo pendente da Guerra Fria?

Acredito que o status quo na península seja uma situação temporária na história da Coreia, e que o final, digamos assim, será a reunificação. Diria que a vontade política das Seis Partes (Coreia do Sul, Coreia do Norte, China, Estados Unidos da América, Rússia e Japão) e a retomada das negociações são factores determinantes para a reunificação que embora um tanto distante, acredito ser inevitável.

Embora a linha de segurança que protege o limite territorial entre as duas Coreias seja considerada a zona fronteiriça mais militarizada do mundo, os dois países representam basicamente um só povo que compartilha a mesma cultura, a mesma língua, a mesma etnia e o mesmo desejo de tornar realidade a reunificação da península. Olhando para as resoluções das Nações Unidas e todas as questões geopolíticas, a problemática deixou de ser um assunto puramente dos coreanos e passou a ser da comunidade internacional, tendo em conta a sua implicação na paz e estabilidade regional. Este pendente da Guerra Fria, como diz, será resolvido com o suporte da comunidade internacional, particularmente do Sistema das Nações Unidas.

Os coreanos pedem ajuda à comunidade diplomática que trabalha em Seul? Sabemos que é o vice decano dos embaixadores de África na Coreia do Sul. Tem podido dizer o que acha que pode vir a ser o caminho para se sair deste impasse?

A Coreia do Sul é um país interessantíssimo para qualquer diplomata tendo em conta a sua história, o seu exemplar processo de desenvolvimento e a abertura do seu governo para troca de informação e experiências, particularmente no âmbito da pacificação e reunificação da península coreana. Tenho podido transmitir a minha opinião nos mais diversos contactos diplomáticos e muito recentemente entreguei uma mensagem de Sua Excelência Engenheiro José Eduardo dos Santos, Presidente da República, à sua homóloga sul-coreana, Sua Excelência Park Geun-hye, onde destaca a posição do governo angolano relativamente à paz e unificação da península coreana.

A percepção com que ficou o grupo de jornalistas do mundo inteiro convidado a visitar a Coreia para a conhecer melhor é a de que podem começar a faltar ideias frescas num dossier que se arrasta por várias décadas. Pediram-nos num briefing organizado sobre o tema que, um a um, disséssemos o que pensávamos que poderia ser uma forma de se resolver o problema. Foi um exercício interessante. Um mongol, e sem qualquer inconfidência, foi logo por uma solução à Genghis Khan: avançar por Pyongyang adentro e à “batatada”, resolver o assunto de uma vez. É óbvio que os nossos interlocutores limitaram-se a franzir a testa, a situação é muito mais complexa e não são os rambos desta vida a resolve- la aos tiros e pontapés. Nós explicamos-lhes com paciência como foi acabar com o nosso longo conflito fratricida dispensando a mediação internacional e passando ao entendimento directo. Os interesses da mediação podem muitas vezes funcionar como obstáculos sério ao progresso do diálogo. E aqui os Estados Unidos e a China, medianeiros no processo, não se podem ver como grande exemplo de neutralidade. A América apoia abertamente a Coreia do Sul e a China lida com uma espécie de aliança fraternal com o Norte. Enfim… o desgaste parece tão evidente que outro colega, um jornalista das Honduras, perguntou aos interlocutores se estavam mesmo certos de que o povo da Coreia quer mesmo a reunificação, se já não estará habituado, de parte a parte, a viver um sem o outro. Questão concreta Senhor Embaixador: estamos num beco sem saída?

Como disse anteriormente, a reunificação coreana não pertence somente aos coreanos, mas sim ao mundo inteiro tendo em conta o seu reflexo na paz e estabilidade internacional. Não há solução militar para este caso, o povo coreano sofreu muito, deve ser encorajada a desnuclearização, pacificação, diálogo e cooperação. Eu acredito que o diálogo é a solução para uma unificação e pacificação sustentável.

Ban Ki-moon Presidente? Última questão, e está relacionada com a política interna coreana, talvez por isso mesmo não se sinta muito confortável. O mandato único de cinco anos da Presidente Park Geun-hye termina em 2018 e há uma curiosidade enorme em se saber se o actual Secretário-Geral das Nações Unidas, que até lá estará livre da função, perfila-se como candidato. O que é que se comenta pelos corredores da política em Seul?

Tenho ouvido muitos comentários do género embora o Sr. Ban Ki-moon não tenha confirmado a intenção de concorrer, mas pode ter oferecido, recentemente, uma pista nesse sentido, ao dizer que vai reflectir no que deve fazer “como cidadão sul-coreano” após deixar a Organização das Nações Unidas. A sua última deslocação à Coreia do Sul tem levantado especulações em torno de uma possível preparação de candidatura à presidência do país. É uma pessoa que conheço, com uma capacidade e sabedoria reconhecida internacionalmente, goza de boa aceitação interna mas não sei se 2017 será o melhor momento para candidatar- se à presidência da República.

O Senhor Ban Ki-moon tem mais sete meses à frente da ONU, precisa continuar a concentração em assuntos globais urgentes, para além do facto de que, conforme meu conhecimento, existe uma resolução da ONU aprovada na Assembleia Geral de 1946 que restringe os Secretários- Gerais de assumir posições governamentais logo após a cessação dos seus mandatos. Entre os ex-secretários-Gerais da ONU, até agora, dois disputaram a presidência dos seus países de origem, mas as candidaturas deles ocorreram apenas quatro anos depois de terem saído da organização internacional. Mas se a referida resolução já não estiver em vigor e se Ban Ki-moon se interessar, tenho a certeza que as eleições presidenciais contarão com um candidato à altura de suceder à Presidente Park Geun-hye na liderança deste grande país.

Senhor embaixador, o diário O PAÍS agradece-lhe esta extensa conversa e o facto de nos ter ajudado a conhecer um pouco mais a República da Coreia, uma nação sem dúvidas bastante interessante de se lhe seguir o percurso. Em 1960, constava da lista dos países mais pobres do mundo, em 2016 é a 11ª economia mundial, com perspectivas de galgar degraus de um modo espectacular. Tudo isto em 56 anos. É obra, concorda?

Sim, concordo. A aposta na formação de recursos humanos como sua principal riqueza foi a base do desenvolvimento da Coreia que temos hoje. O governo de facto priorizou desde o início o sector da educação e ciência e investiu de forma extraordinária. Essa aposta resultou na formação de engenheiros e operários altamente qualificados e necessários para desenvolver uma base manufactureira sobre a qual a economia pudesse florescer. Durante o mandato do Presidente Park Chung-Hee (1961-1979), foi implementado um grande programa de desenvolvimento industrial, que alçou a economia sul-coreana ao seu patamar actual. Um destaque especial do programa do governo do Presidente Park, foi o Saemaul Undong, um programa de desenvolvimento comunitário que promoveu a integração e extinguiu a pobreza sobretudo no seio das comunidades rurais. Importa igualmente realçar que neste período os sul-coreanos demonstraram um grande espírito de superação da crise económica, viabilizando assim o rápido desenvolvimento do país. (OPAIS)

 

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