Victor Aleixo: “Vivemos numa sociedade do medo e da bajulação”

(Foto: Lito Canhongolo)

Jornalista há mais de 40 anos e empresário do ramo da comunicação social, Victor Aleixo é um dos principais analistas políticos da praça mediática angolana. Frontal, como sempre, defende uma maior abertura no MPLA, sobretudo nesta fase em que se aproxima o Congresso. Prefere as autarquias à criação das comissões de moradores e acredita que o problema que se vive na CASA-CE resume-se a uma luta de cargos. Antes, nesta primeira parte da entrevista que concedeu a OPAÍS e à Rádio Mais, critica a apatia que se vive ao nível da sociedade civil, que transformou Angola num território onde imperam o medo e a bajulação

OP_92759_09355Victor Aleixo da Costa Nunes, 57 anos de idade, é administrador da empresa ETNIA Comunicação, jornalista, analista político e uma figura muito conhecida da Comunicação Social no país. Está tudo certo?

Não sabia que até a minha idade tinha sido escrutinada (risos). Mas é verdade, tenho 57 anos de idade, nasci no dia 17 de Agosto de 1958, sou do signo leão. De resto, tudo corresponde. Sou jornalista há mais de 40 anos, comecei na Rádio Eclésia, na altura em que funcionava naquela rampa do Palácio. Estive no Rádio Clube de Angola, ali onde é hoje a Rádio Escola e depois fui ao Jornal de Angola, onde fiz todo o meu percurso.

Por força de pressão das pessoas que estavam na Comunicação Social saí do Jornal de Angola e fui parar à Angop. Estive lá durante algum tempo, num departamento que deixa saudades. Há dias, em Lisboa, com um colega que também estava connosco, chamo “Mário Chocolate”, que agora é ministro conselheiro na nossa embaixada na CPLP lembramo-nos disso.

Era o chamado órgão ideológico da Angop, porque naquela altura a comunicação social era toda controlada pelo Departamento de Informação e Propaganda (DIP) do partido. Todos os editoriais teriam que ser feitos neste chamado departamento ideológico. O excesso de zelo era tão grande que nem todos os jornalistas tinham acesso a este órgão ideológico. Enfim…

Hoje é mais conhecido como analista político. Que assuntos gostaria de abordar inicialmente?

Vamos falar de tudo.

Então comecemos pela política. Pode ser?

OP_92754_7d480Pode.

Depois das eleições de 2012, vencidas pelo MPLA, considerava que havia um certo “descontentamento empacotado” no seio dos angolanos. O que se passa hoje ?

Continuo a dizer que, infelizmente, temos uma sociedade metida entre o medo e a bajulação. Algumas pessoas têm medo de dizer exactamente o que sentem e as outras, se calhar mais espertas, procuram encontrar uma certa bajulação, de forma que consigam nadar entre os sectores do poder.

Isso tem sido drástico para o país, porque hoje verificamos que faz falta uma sociedade civil actuante, para que a classe política começasse a ter um maior sentido de responsabilidade para com o público eleitor e a própria sociedade. Se deixássemos de ser covardes e pressionássemos mais, se calhar muitos dos problemas que hoje vivemos poderiam ser ultrapassados.

Como podemos encarar a pressão que vem sendo feita por determinados grupos da sociedade, entre os quais o autoproclamado Movimento dos Jovens Revolucionários, o Observatório Político e Social de Angola e outras organizações não-governamentais como a OPEN Society?

Eu acho que tem que haver uma maior sincronia e não se deixar influenciar, digamos, por algumas forças do exterior. Também é verdade que o próprio país criou alguns apetites de forças exteriores que em algumas circunstâncias pressionam mesmo alguns grupos descontentes, para, se calhar, de forma atabalhoada tentarem fazer sentir um certo descontentamento. O que estou a dizer – e vivemos num tempo em que tínhamos algumas associações já com alguma verticalidade, como a Associação Cívica de Angola – é que os angolanos deveriam debater muito mais os seus próprios problemas. E debater os seus próprios problemas não significa, se calhar, ir ao 1º de Maio para dizer que estamos descontentes.

Temos que ter mais regras, existir este espaço e a própria sociedade política compreender a existência destes factos. Isto é que não acontece e aí está aquilo que disse há bocadinho: vamos tendo uma sociedade do medo e da bajulação. As pessoas ficam com medo, porque senão vão sendo conotadas, ter problemas na própria vida pessoal e profissional.

A bajulação vai ganhando espaço. Às vezes, não acredito que isso seja algo institucionalizado, porque continuo dizendo que vivemos um período de muito excesso de zelo, mas as pessoas acomodam-se entre não dizer e ver até aonde isso vai. Repare que em qualquer sítio onde estivermos, cinco minutos depois da conversa arrancar, tudo descamba para o mesmo sítio. Que futuro para este país? Como é que o país está? Toda a gente reconhece que este país está mal.

A não permissão das manifestações não faz com que a imagem do Executivo de Luanda e de outras províncias fique ainda mais chamuscada?

Vai continuar a ser porque o trabalho de casa, infelizmente, continua a ser mal feito para quem é poder. As pessoas que estão no poder ainda não cultivaram o princípio da gestão participativa. Há tempos estava num sítio e duas pessoas com uma certa idade falavam daquilo que foi baptizado como “Lagoa do Coelho”. Havia duas ou três pessoas mais velhas que estavam a dar uma opinião que, se as pessoas que são poder quisessem ouvir, de certeza poderiam encontrar pistas para a solução.

O grande problema é que, investidas de poder, as pessoas que estão lá em cima envaidecem-se e pensam que já não podem receber ou ouvir conselhos de ninguém. Ninguém tem ideias preconcebidas, acabadas e os primeiros que devem cultivar a política de gestão participativa é quem está no poder. Ainda ontem ouvi aquela explicação do ministro da Construção, mas eu preferia que ele ficasse calado.

Porquê?

OP_92740_ef0d8Não foi convincente. Era mais prático fazer um comunicado a explicar melhor, porque ele até parecia estar mal preparado e via-se que estava nervoso. Acaba-se por dar um trunfo à própria Oposição. É preciso ter muito cuidado. Já dizia o falecido António Jacinto que “falar é profissão”. Há muita gente que pode ter muitas ideias mas não sabe exprimir-se publicamente. Muitos dos nossos dirigentes habituaram-se a não ter esta responsabilidade de falar. Agora, quando são colocados diante de um microfone, às vezes atrapalham-se e as ideias não saem correctas. Via-se que o ministro estava a ler e não precisaria de fazer aquele papel.

Os órgãos de concertação social criados não resolvem o problema da gestão participativa? Ou prefere o alargamento destes órgãos?

Eu sou… Aliás, é uma questão global. Vejamos a história do nosso país: sofremos várias transformações, houve muitos quadros que se foram embora, muitos quadros da administração pública continuaram aqui e outros foram para a actividade privada. Mas muitos deles têm conhecimento que, se soubéssemos aproveitá-los, muitos dos problemas que estamos a viver seriam resolvidos.

Em tempos, dizia-me um senhor que esta questão do PLANAGEO era importante, porque trabalhou nesta questão e é um homem ligado à área mineira, mas há já um estudo que os portugueses tinham. Porquê que não fomos recuperar o estudo?

É esta questão de podermos alargar a base e não ficamos muito … Não há nada que proíba os órgãos do poder constituído de terem a capacidade de sempre que possível tentarem encetar diálogo com outras sensibilidades, para não serem atropelados depois com decisões que não são cumpridas.

Refere-se a que tipo de decisões?

Por exemplo, não esquecemos que quando Higino Carneiro era coordenador da Comissão de Gestão Administrativa de Luanda determinou que em 30 dias tinha que se pintar um prédio. Se tivesse contactado pessoas, ele nunca faria aquilo. Mas não contente com isso, veio a questão do lixo.

Anunciou publicamente uma decisão que ainda não tinha consultado outros membros do Governo e acabou por ser o Presidente da República a reconhecer que os valores que tinham sido estabelecidos não eram os mais práticos. Vocês próprios publicaram uma entrevista brilhante de uma pessoa que trabalhou na ELISAL que nunca foi consultado nem tido ou achado. É aí que estou a dizer que é preciso que se abranja o diálogo, que não se mutile aquelas capacidades e vontades para contribuírem para o desenvolvimento do país.

Quais são as sensibilidades que faltam nestes órgãos de consultas?

Aquele técnico cujas ideias achei louváveis no domínio da limpeza da cidade, podia ser consultado. Como ele, quantos existem aqui neste país, com vontade de contribuir e não têm esta oportunidade? É só andarmos aí na rua e vamos ver.

É errado pensarmos que só quando houver autarquias é que se vai melhorar também alguns princípios de gestão?

As pessoas reclamam por autarquias porque acreditam que isto pode ser um caminho, depois, de se experimentarem todos os outros. Porque nas autarquias vamos verificar que os órgãos serão eleitos. Quando és eleito assumes algumas responsabilidades, porque tens que cumprir essa vontade das pessoas que depositaram o seu voto.

Repare que, até porque já não é pecado dizer isso, durante muito tempo nós verificamos que ao nível das estruturas municipais e comunais, a maioria das pessoas que foram escolhidas e desempenharam estes cargos nem vinham sequer com um background de administração e os seus conceitos. Vinham das estruturas da Segurança.

Já não se pode esconder que a maior parte dos administradores e comissários eram indivíduos que estavam ligados às estruturas da Segurança. Portanto, sabiam fazer tudo menos dirigir e aperceberem-se da dinâmica do funcionamento administrativo no sítio que desenvolviam.

Felizmente, isso começa a ser mudado. Daí é que muita gente pensa que as autarquias podem ser um caminho para se mudar aquele percurso que até agora tem sido feito.

Qual é a opinião que tem da discussão em torno das comissões de moradores?

Porque é que vamos criar mais estruturas?

Faz ou não sentido criar-se as comissões de moradores?

Não faz sentido nenhum.

Porquê?

Não ficou muito bem claro como é que estas comissões de moradores seriam constituídas. Se seriam as pessoas nomeadas ou eleitas pelo conjunto dos sítios onde iriam exercer as suas funções. De toda a forma, como vivemos nesta sociedade, como dizia há bocadinho, de muito medo e muita bajulação, o mais prático é fazer as coisas transparentes, que seria podermos avançar para as autarquias desde que os processos sejam rectilíneos e limpos. Vai-se eleger quem a comunidade entende que deve fazer um melhor serviço. Não vamos estar aqui a criar mais pesos e estruturas, mais títulos, para depois não funcionarem.

O ministro do Território, Bornito de Sousa disse, num encontro realizado recentemente com jornalistas e fazedores de opinião, que os moradores entre si vão definir quem dirige a comissão de moradores e que os custos viriam das quotas dos próprios moradores.

OP_92739_1ed08Mas isso é o trabalho que está previsto que seja feito pelas próprias autarquias. Porque é que a gente vai complicar? Se não temos espaço para fazer neste momento as autarquias, temos condições para criar as comissões de moradores? Porquê?

O país está preparado para ir às autarquias, tendo em conta que seriam sustentada pelos próprios habitantes?

Aqui contradiz-se. Se as comissões se vão… o que será, no fundo o que as autarquias hão-de fazer, acho que é uma questão de se arriscar. Isso de dizer que não temos a cultura do imposto é muito relativo. Não temos a cultura porque o próprio sistema que tínhamos criado é que queria ser pai, filho e espírito santo de tudo!

Mas, dentro desta cultura, hoje vemos que o cidadão consciente já paga o imposto, desde a luz, o carro. Portanto, não vamos muito por aí, até porque esta sociedade, no fundo, precisará permanentemente de um grande trabalho de educação cívica. As pessoas têm que estar preparadas para aceitar que têm direitos e deveres.

E isso é uma responsabilidade que cabe aos poderes instituídos, aos órgãos de comunicação social permanentemente. E tem que ser feito. Não vamos dizer que antes de chegar às autarquias temos que quebrar mais uma etapa e esta etapa é a comissão de moradores. Se calhar, num passado recente, nos bairros existiram as comissões de moradores e sabemos como elas se diluíram, vamos trabalhar para uma organização mais eficiente e mais pura.

Fazem sentido as desconfianças que alguns círculos da sociedade têm de que o surgimento das comissões de moradores é uma fuga às autarquias?

As pessoas são livres de pensar assim, até porque nunca houve um pronunciamento claro, a explicar com cabeça, tronco e membros do porquê que não avançamos pelas autarquias.

Pensa da mesma maneira?

Eu acho que sim. Acho que está-se a cometer um grande erro em não se avançar com as autarquias. Deve haver a coragem de se delinear tempos, prazos e podermos avançar em termos de soluções eficazes que possam contribuir para o melhoramento da vida deste país.

Continua com o mesmo raciocínio de que os ‘governadores em Angola não têm poder nenhum” e que o poder está demasiado centralizado?

Continuo e subscrevo tudo o que for neste sentido. O país continua excessivamente centralizado. Vou-lhe dar só um exemplo. Há cerca de dois ou três anos, um governador provincial veio a Luanda para ter com um chefe das Finanças por causa de uma verba par a inauguração de uma escola. Ele aí já se subalterniza.

O governador provincial, nomeado pelo Presidente da República, tem de vir a Luanda baixar-se diante de um chefe de departamento para receber dinheiro e fazer a inauguração da escola. Não dá!

O que é preciso fazer é dar responsabilidade aos governadores. Eles têm que definir os seus planos de trabalho, os seus orçamentos, a inspecção tem que ser activa e punir-se quem não cumpre. Agora, o governador está a governar uma província, é o representante do Chefe de Estado e não tem dinheiro nem para reparar uma casa de banho, salve a expressão, evidentemente que não está lá a fazer nada. Nós vamos verificar que a excessiva centralização que existe permite que Luanda hoje esteja abarrotada de pessoas.

Eu vivi muito tempo numa província, embora tenha sido no tempo colonial, mas contava as vezes que vinha a Luanda. Porque na província onde vivia estavam criadas as condições, desde o jornal que me chegava a horas até ao hospital que tinha.

Por isso, ficava ali. Se nós conseguirmos libertar e dar essa liberdade de acção aos governadores, se calhar eles se sentirão muito à-vontade de recrutarem quadros. Por exemplo, estamos a construir tantas centralidades: quem são as pessoas que vão viver na centralidade da Lunda-Norte, por exemplo, um empreendimento que fizemos de custo médio-alto?

Os governadores têm que ter essa liberdade para conseguirem levar jovens quadros formados, porque temos aqui muitos naturais da Lunda e se calhar vivem cá como quadros formados, e noutras condições eles rapidamente avançariam para a sua província.

Já teve contacto com a carta escrita há dias pelo governador de Benguela, Isaac dos Anjos?

Já li.

O que achou do conteúdo da mesma?

Isaac dos Anjos é um dirigente corajoso, jovem, que tem um espírito aguerrido e é combativo. Recordo-me que quando ele foi para a província, porque Benguela é minha província, onde cresci, apesar de eu ter nascido em Luanda, disse-lhe que Benguela era uma província muito complicada. Há muitos interesses que ali se confluem. Ontem li um texto do José Kaliengue que dizia praticamente isso e em poucas palavras o que é Benguela. É uma província muito complicada e o Isaac não teve a ginástica para entender e poder jogar com aquilo.

Apesar de ter um espírito muito combativo, pensou que facilmente poderia debelar aquele ímpeto agressivo de alguns grupos que entendem que são os melhores e eles é que devem dirigir Benguela. Vamos ver agora, como ele dizia, até aonde é que a corda estica.

OP_92740_ef0d8Estamos a poucos dias do início das conferências provinciais do MPLA, onde Benguela parece ser o caso mais flagrante, onde o governador terá sido coagido no sentido de não avançar com uma candidatura. Como é que está a acompanhar este processo?

Não é só Benguela. Sei que ainda há algumas províncias onde já se ensaiam outras candidaturas. Eu acho que aí seria um primeiro passo para o MPLA se libertar mais, se democratizar mais. Essa era a altura de se poder medir o nível de aceitação dos quadros que até hoje dirigiram a província. Benguela deu nas vistas por causa disso. Repare que Isaac está no Governo de Benguela há dois ou três anos.

Em três anos, veja quantas pessoas já se apontou para Benguela, desde o próprio ‘Jú’ Martins que é o acompanhante do Bureau Político para a província. Falou-se do Ângelo (Tavares), que é o ministro do Interior, há dias ouvi falar do Borges e até do Leonel. Agora fala-se da Ângela Bragança e já se falou que o (Adérito) Areias poderia ser uma solução.

Benguela é uma coisa complicada. O que se está a pedir agora em Benguela é algo que já aconteceu antes. Sabe que houve aquela problemática entre o Dumilde Rangel e o Zeca Moreno. Em última instância teve-se que arranjar uma solução: o Rangel ficou e o Moreno teve que vir aqui para Viana.

Infelizmente, o MPLA gosta de gerir as coisas assim, levar até ao fim e na última semana arranja uma solução. Não se sabe se o Isaac vai continuar ou não, ou se vai continuar e vigiado por um 1º secretário. Não há coragem. Se há partido que devia ser mais ousado do ponto de vista da democracia interna é o MPLA. Se calhar até, por estar há muito tempo no poder, acomoda-se muito nisso.

Acredita que o Congresso do MPLA, no próximo mês de Agosto, venha a ser pacífico?

Não há nada que justifique que não possa ser pacífico. Isto reforça aquilo que disse há bocadinho, que o MPLA continua a não ser muito ousado em termos de mudança. Repare que na altura em que o presidente Eduardo dos Santos anunciou que em 2018 sairia, neste mesmo dia o comunicado do Comité Central do MPLA dizia que o presidente será o candidato único deles. Dois ou três meses depois, vieram dizer que estavam abertas as candidaturas. Não é muito coerente com a linha da democracia que se pretende.

O comunicado terá limitado alguns militantes a concorrem?

O primeiro comunicado, sim. A partir do momento em que a direcção central do partido diz que o actual presidente continua a ser o escolhido, é o candidato deles, vais dizer aos outros que vocês têm dois meses para apresentarem uma candidatura, tem que ter tantos membros e representações em cada província? Fica de facto complicado.

Eu acho que há um excesso de zelo ou uma preocupação exagerada de se desagradar o líder. Pelo pouco que conhecemos, o líder é uma pessoa de diálogo, tudo prova que não impõe decisões. Agora, as pessoas é que ficam com receio de tentarem soluções. E com esse receio de se apresentarem soluções, nós ficamos numa espécie de banho-maria.

O anúncio do Presidente José Eduardo dos Santos de que se vai retirar da vida política em 2018 remete-nos apenas para o campo das intenções ou acredita que vá mesmo para a reforma política, se assim podemos considerar?

Eu acredito que o Presidente esteja com esta intenção de tão rapidamente largar o poder. Agora, o cenário que criou é que fica um bocado complicado.

Teremos uma solução sul-africana em que a meio do mandato o vice-presidente assuma os destinos do país?

Vamos por partes: o nosso processo eleitoral diz que as eleições vão ser em 2017. Se quiséssemos evitar especulações, o Presidente diria que em 2017 já não seria o candidato do MPLA. Também é preciso pensar – e escrevi há tempos isso- que há preocupações que se justificam.

O tempo longo que o Presidente Eduardo dos Santos está no poder obriga a que ele tenha de saber fazer a sua retirada. Agora, o que constatamos agora, se quisermos dizer que as eleições vão ser em 2017, é que o Presidente ainda não fez este trabalho de casa. Daí que muita gente pense que o Presidente possa vir a ser levado pela vontade dos militantes a fazer mais um mandato. Não duvido que se possa caminhar para isso.

Acredita seriamente neste cenário?

É possível. Não será bom para a imagem dele, mas é possível.

‘O problema na CASA-CE são os cargos e lugares para deputados’

A CASA-CE pode mergulhar numa crise pelo facto de Alexandre Sebastião André, líder do PADDA, não concordar com a passagem desta coligação a partido político. É o prenúncio de mais desentendimentos que possam surgir na formação liderada por Abel Chivukuvuku?

OP_92736_a7a34Primeiro, vamos dizer que as coligações podem manter-se, não têm que necessariamente transformar-se em partidos políticos. Nas outras democracias criam-se coligações para processos eleitorais e depois desfazem-se. Aliás, vemos muito isso. Aqui estamos a forçar muito a barra da criação de um partido político, onde pegamos no exemplo da CASA.

Mas a CASA-CE é um conjunto de cacos que se reuniu para ser transformado num partido. Cada um veio com mentalidade diferente. Repare que o grosso maior que compõe a CASA-CE até veio de um partido maior e já estruturado que é a UNITA; como o Chivukuvuku e outros que ele levou.

Os outros partidos que o Abel buscou foi mais para encontrar o quórum para se poder legalizar, porque no fundo o PAJOCA praticamente não existia.

O outro do PRS tinha sido expulso e não tinha partido nenhum. Todos eles, o Manuel Fernandes, praticamente que já não se conhecia. A CASA-CE veio dar um sopro a estes partidos para poderem se reerguer. É verdade que depois de reerguidos ganham forças e podem exigir um bocadinho mais.

Então, qual é o problema que se vive neste momento?

O grande problema que se coloca no seio da CASA-CE é como transformado em partido político se poderá fazer a lista daqueles que poderão compor a estrutura dirigente do partido, os que poderão estar em cima ou em baixo na lista dos candidatos a deputados. Este é o grande dilema.

É apenas uma questão de cargos?

É uma questão de cargos. A UNITA viveu isso. O nosso colega Makuta Nkondo viveu esse problema. Ele disse numa entrevista que ‘me enganaram, porque me meteram numa posição onde sabiam que à partida não seria deputado’. Portanto, a questão da CASA-CE é mais um problema de cargos. Quem vai ficar no primeiro, segundo, terceiro e no quarto.

Quer fazer de uma eventual composição caso a CASA-CE passe a partido político?

Transformando-se em partido político, só muito dificilmente Abel Chivukuvuku não será o presidente da CASA-CE. De certeza absoluta, numa configuração de dois vice-presidentes. Se se avança com um vice-presidente, o ‘Miau’ é de certeza absoluta o candidato.

Candidato natural?

…Sim. Até não só por causa do brainner que tem do próprio país.

Sabe que, na verdade, o ‘Miau’ é o arquitecto da constituição da CASA-CE?

Sim, sim, sim. O ‘Miau’ conhece os cantos do MPLA, trabalhou nas estruturas do Governo e sabe como é que se cosem as regras do jogo. Depois, pai de Catete e ele nasceu na Huíla. Ele consegue criar um élan que pode ser determinante para agrupar muita gente em torno da CASA-CE. Aliás, muita gente da CASA-CE acredita que o cenário maior seja este o de só existir um vice-presidente. Para os outros fica um bocadinho complicado.

O Alexandre André, vaidoso por excelência, não quer perder o título de vice-presidente da CASA-CE. O Lindo Bernardo Tito também poderá. Agora, isto pode ser grave para não se encontrar uma coesão no seio da coligação e reflectir-se nos resultados. Outras forças políticas quererão aproveitar estes resultados e eles têm que ter em mente esta questão. O desempenho que se acredita que a CASA-CE venha a ter melhor do que na vez passada não passe de uma intenção.

Isaías Samakuva esteve na Europa e nos últimos dias desdobrou-se em várias entrevistas, em Portugal, tendo até avançado que se vai retirar depois de 2017. A UNITA já encontrou a estabilidade depois do último congresso?

A UNITA, comparado com o seu inimigo de estimação – o MPLA -, deu alguns passos mais corajosos na sua própria democratização. Isso deu-lhe uma certa ‘endurance’ para poder ultrapassar alguns momentos difíceis que passou. Alguns, naturalmente, que possam não ser muito indiferente a uma acção do seu próprio inimigo de estimação. A UNITA é uma força sólida e não podemos ignorar que é mesmo das maiores forças políticas angolanas.

“O partido no poder aparece sempre como o mais privilegiado por falta de alternativas na Oposição’. É uma frase sua feita há algum tempo. Até 2017 ainda poderemos pensar desta forma?

O MPLA vai continuar a ser o partido privilegiado para poder ganhar as eleições. Isso é natural. Aliás, sobretudo em África, mais se cultiva este princípio. Quem está no poder procura o cenário para ganhar. Agora, o que tem havido é uma falta de estratégia em termos de oposição. Se conseguisse impedir que o MPLA tivesse maioria absoluta folgada… seria bom fazer alianças.

Tivemos o caso na Venezuela onde se conseguiu amordaçar o excesso de poder que o partido de Hugo Chavez – agora de Nicolas Maduro- tinha. Mas é neste cenário onde encontramos praticamente uma Oposição sem grandes alternativas no tocante a alianças, o MPLA continua a ser o partido com mais possibilidades de vir a ganhar as eleições.

Mas, deixe-me dizer com toda a honestidade, porque já o fiz uma vez e fui mal interpretado – e acredito que agora também possa vir a ser -, se nós quisermos uma maior democracia para este país, seria importante que se o MPLA ganhar as próximas eleições não fosse por maioria absoluta. Isso coarcta o poder de discussão que as sociedades pretendem.

Vimos isso em Cabo Verde. Os caboverdianos do PAICV aprenderam muito depois de terem perdido as primeiras eleições. Ganharam uma maior autoestima, um maior sentido de alianças entre eles, que hoje aqui os angolanos do MPLA não têm. Vamos dizê-lo com toda a honestidade, o MPLA é um partido que tem muitos problemas internamente, desde a inveja e as perseguições.

Não é preciso ir muito longe, basta olharmos para o caso do Isaac dos Anjos que se está a confrontar com colegas do próprio partido. Isso é consequência daquilo que dizemos: ou ficamos do lado do medo ou do lado da bajulação.

No caso de o MPLA vencer sem uma maioria absoluta, seria por mérito da Oposição ou por causa da degradação das condições socio económicas?

Mais por isso. Já nas últimas eleições verificamos que o grande vencedor foi a abstenção. Nada diz que nas eleições de 2017 a abstenção venha a ser novamente o grande vencedor. São cartões vermelhos que se dão fundamentalmente aos partidos que são líderes, neste caso o MPLA e a UNITA, que são os maiores partidos com implantação e estrutura no panorama político nacional. (opais)

Por: Dani Costa e Mariano Quissola

 

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