Toni: “Vitória copiou? Quando Jesus iniciou a carreira também foi ver Cruyff treinar”

(Foto: D.R.)

Toni era o capitão da equipa que conquistou pela última vez o tricampeonato há 39 anos. Elogia as apostas do presidente Luís Filipe Vieira para esta época e destaca Rui Vitória, um dos responsáveis pelo sucesso, vincando a capacidade de liderança, humildade e carácter do treinador

Como viveu a festa do tricampeonato conquistado pelo Benfica?

Quando se chegou à última jornada a depender apenas de si, tudo se conjugava para o Benfica conquistar o tricampeonato. Acabou por ser a equipa mais regular e por isso venceu o campeonato. Os adeptos foram, como sempre, muito importantes, mas este ano ainda mais, pois foram determinantes na comunhão e na cumplicidade com a equipa.

É então um campeão justo?

O campeão é sempre justo e neste caso há vários fatores que o sustentam. Houve um começo de época que representou o pior momento e que potenciou o surgimento dos mais céticos, mas era ainda o primeiro terço do campeonato e havia espaço para recuperar, mas não há que esconder que foi um início desastroso, sobretudo com as derrotas com o rival. É o jogo de Braga que começa a inverter toda a situação e lança a equipa para uma recuperação notável, durante a qual há só o empate com o U. Madeira e a derrota com o FC Porto, naquele que poderá ter sido o melhor jogo da época. Não podemos apenas olhar para os últimos jogos, nos quais o Benfica não apresentou tanta qualidade, mas exibiu o crer, a raça e a vontade que ajudaram a chegar ao título. O Benfica não ganhou só pela sorte por ter havido exibições cinzentas e vitórias tangenciais nos últimos jogos. Era injusto não olhar para a época toda e para os bons jogos que a equipa fez.

Quem é o responsável por essa recuperação?

O Rui Vitória, sem precisar de se pôr em bicos de pés, tem um grande quinhão na forma como chega ao título. Ele recebeu uma equipa bicampeã, com um trabalho desenvolvido nos últimos anos e depois deu o seu cunho pessoal, que demorou algum tempo, como é normal. Além disso, mostrou uma grande capacidade de liderança, humildade e carácter que foram transmitidos aos jogadores.

Mas Jorge Jesus, após o jogo de Braga, deu a entender que Rui Vitória copiou o seu trabalho no Benfica. Concorda?

Olhe, em relação a isso, o Rui Vitória deu uma grande resposta após o jogo. O que eu sei é que houve várias trocas de palavras dos intervenientes e declarações desse género de Jorge Jesus e de outras pessoas, e foram várias ao longo da época. Mas isso fez que os jogadores do Benfica se unissem ainda mais para alcançarem o tricampeonato. Agora, tenho a certeza de que a classe dos treinadores não partilha daquilo que foram as palavras de Jesus. E é após o jogo do Sporting em Setúbal, respondendo a uma pergunta mal formulada, que Jesus acaba por descer a patamares muito baixos. Mas atenção, a qualidade técnica de Jorge Jesus é inquestionável, mas os outros também mostram qualidade e dão o seu cunho pessoal. Ele chega ao Sporting e apanha já trabalho feito por Jesualdo Ferreira, que devido às circunstâncias apostou nos miúdos, e também por Leonardo Jardim e Marco Silva. Todos desenvolveram trabalhos de qualidade, que depois Jesus deu o seu cunho. E tanto assim foi que em janeiro refez o setor defensivo.

O trabalho de Rui Vitória não é, então, uma cópia?

Aos poucos, Rui Vitória foi introduzindo as suas ideias. Claro que não é uma cópia, senão andava muita gente a plagiar-se uns aos outros, pois todos os treinadores conhecem bem os princípios básicos para os cinco momentos do jogo e, hoje em dia, existem meios e ferramentas para todos melhorarem cada vez mais. Até nos distritais, apesar das limitações de meios, existe qualidade no treino. Quando Jorge Jesus começou a sua carreira também foi ver o Johan Cruyff treinar, andou pela Europa para ver como se trabalhava. Eu tenho uma boa relação com Jesus e estou grato pelo que deu ao Benfica, respeito a sua qualidade, mas isso não lhe dá o direito de amesquinhar os outros colegas de profissão. Sei que ele vive para o futebol 24 horas por dia, mas para muitos outros essa também é a forma de viver a profissão.

Deduzo que considera que Rui Vitória é o principal responsável pela conquista do título. É isso?

Há duas pessoas que ficam muito ligadas ao sucesso: o presidente Luís Filipe Vieira e o treinador Rui Vitória, fruto das decisões que tomaram. Se o Benfica tivesse perdido o campeonato, o presidente seria o principal responsável, pois iriam dizer que tinha feito as escolhas e as apostas erradas. O Rui Vitória diz que os jogadores foram os obreiros e distribuiu também os louros pelos adeptos, mas ele sabe bem qual foi o seu quinhão de responsabilidade no sucesso, como aliás todos os outros treinadores que foram campeões souberam e não sentiram necessidade de apregoá-lo.

E no campo, quem se destacou?

Se dissermos que é no golo que uma equipa se revela, Jonas e Mitroglou tiveram uma época fantástica, mas houve ainda Raúl Jiménez que, quando entrou, foi decisivo. Mas o olhar diferente do presidente e do treinador para a formação também merece destaque, pois foi um trabalho que trouxe à tona jogadores que revelaram a sua qualidade, como são os casos de Ederson Moraes, Renato Sanches, Lindelöf, Gonçalo Guedes e Nélson Semedo.

Neste campeonato houve luta até ao final, acha que foi o melhor dos últimos anos?

Tradicionalmente o campeonato é dominado pelos três grandes e as assimetrias continuam enormes em relação aos outros clubes. E o número de pontos conquistados pelos dois primeiros não indica grande equilíbrio. É verdade que há algum tempo não havia um duelo entre Benfica e Sporting até final, mas há algum tempo até se adivinhava uma luta a três, só que o FC Porto foi arredado prematuramente da discussão. Na descida houve emoção até final e a luta pela Europa foi também até à última. Nesse aspeto da emoção foi um bom campeonato o que, com as limitações financeiras dos clubes portugueses, a competição até teve um nível bastante aceitável para um país de 10 milhões de habitantes e sem os recursos de outros campeonatos.

Em 2016-17, o grande desafio do Benfica é chegar ao tetracampeonato, algo que nunca conseguiu. Acredita que é possível?

Eu, como jogador, estive duas vezes à porta do tetra, mas naquele tempo em ano de Campeonato do Mundo não conseguíamos ganhar. Primeiro foi para o Sporting e depois para o FC Porto. Este será mais um desafio para o Benfica, mas o FC Porto vai procurar maior estabilidade para regressar aos títulos, por isso acho que irá continuar a apostar forte, mas de forma mais racional para se juntar aos rivais. O Sporting, se não perder jogadores, estará mais forte e irá apresentar um futebol de qualidade. O Benfica já perdeu um jogador, o Renato Sanches, mas a aposta será sempre o campeonato. O que espero são intervenções verbais mais moderadas e a olhar para a promoção do futebol.

Mas acredita no tetra?

Acreditar faz parte dos adeptos. Será um campeonato tremendo, o caminho será longo e difícil. Além disso há que contar sempre com os adversários. Tenho a certeza de que o Benfica fará o seu trabalho de scouting para manter a qualidade do plantel e assim ter mais hipóteses de ganhar. O treinador Rui Vitória entrará na nova época com um melhor conhecimento dos jogadores e do clube e, por certo, alguns erros não voltarão a ser cometidos. (dn)

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