Papa Wemba: A alma de «Maria Valencia» que expira em Abidjan

(D.R.)

Não tenhamos dúvidas. Papa Wemba continuará ser lembrado e relembrado pelo público angolano. Sobretudo sempre que for tocada «Maria Valencia», seu hit de 1992, cujo videoclip figura entre peças de temática cultural africana regularmente apresentadas em programas especializados da Televisão Pública de Angola, e não só. Hoje em dia, no vórtice da revolução multimédia, esse e outros clips do também cognominado «Rei da Rumba Congolesa» estão aí a mão de semear, ao toque de um simples clic, a pulular os mais variados canais da Internet, entre os quais o icónico YouTube.

(VIDEO) Maria Valencia

No vídeo da «Maria Valencia», Papa Wemba aparece-nos a contracenar com dois de seus vários pupilos sucessivamente arregimentados ao seu redor, ao longo duma profusa e excelente carreira de mais de quarenta anos. Um deles, Reddy Amisi, é também muito conhecido por cá, entre os aficionados da Rumba Congolesa moderna.

Canção de rara beleza tanto melódica quanto simbólica, «Maria Valencia» arrasta-nos todos, melómanos proselitados ou meros e neutrais admiradores da arte musical de Wemba prós recessos da mente e do espírito, territórios da confluência quase que contranatura entre o sagrado e profano, eivada que está – à altura do sincretismo que enforma a realidade, a mundividência, o imaginário, enfim a criatividade do «Homo bantus» – de resquícios de culto mariano agravados de laivos de exaltação à sensualidade congénita da Mulher.

Ele interpreta, ou melhor, representa «Maria Valencia» numa linguagem poética e vernacularmente impecável; postura estética por si de resto adoptada em quase toda sua obra musical: «Tu és Maria, a mãe do Jesus santificado / Ave-Maria, (caminhando), teus pés não deixam peugadas» … «Os homens falam montes de coisas sobre ti/ Dizem uns que és o sol da manhã; para outros, tu és o sol ao entardecer», «A tua maneira de ser Maria Valencia, o teu sorriso, o teu falar, o teu gingar, Maria Valencia…!».

(VIDEO) PAPA WEMBA YOLELE

Shungu Wembadio Pene Kikumba, de seu nome completo, nasceu no hinterland da República Democrática do Congo, ex-Zaíre, precisamente na circunscrição rural de Sankuru no Kasai Oriental, e pertencia à tribo minoritária dos Batetela, da qual foi também originário Patrice Emmery Lumumba, primeiro-ministro na altura da proclamação da independência, a 30 de Junho de 1960.

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É costume entre os Batetelas, tribo inteligente e bastante industriosa, preceder dos prefixos «Apá» e «Amá» os nomes dos parentes, consoante forem homem ou mulher. É assim que, por exemplo, à Ana chamem «Amá-Ana», e ao André «Apá-André», isto independentemente da idade da pessoa.

É provável, que ao desembarcar no meio artístico musical altamente competitivo da grande cidade de Kinshasa aos vinte e poucos anos, em finais da década de 60, o jovem Wembadio tenha se socorrido desse expediente tradicional para cunhar o nome artístico que lhe propulsaria para o nicho do estrelato no seu Congo natal, em África e no Mundo – Papa Wemba! Importa dizer que ao contrário da maioria de seus colegas de origem urbana, no Zaiko Langa-Langa e Isifi Lokolé, conjuntos onde fez o tirocínio da vida artística, Papa Wemba trazia nas costas uma rica bagagem cultural tradicional e sócio-linguística – o Kitetela foi a sua língua materna, da qual nunca se divorciaria, mesmo já estando nas escadarias ascendentes da World Music.

Foi esta herança, aliada aos laços fortemente afectivos que forjou com a mãe, a cuja memoria dedicaria sempre o sucesso da sua carreira musical, que o levaria ao arrojo de fundar o Viva la Musica em 1977, marco inegável na historiografia da música congolesa, autêntica escola da qual nasceriam novas tendências musicais como o Quartier Latin de Koffi Olomidé, o Victoria Elleyson do King Kester Emeneya, a vaga Wengé de Werrason e J.B. Mpiana, as virtuosidades dum Fally Ipupa e quejandos. Na verdade, Papa Wemba foi de facto um mestre-escola.

O salto pra World Music dá-se em inícios dos anos 80, ao mesmo tempo que aprimorava a sua cátedra de Sumo-sacerdote da SAPE, acrónimo da Sociedade Anónima das Pessoas Elegantes – a «religião Kitendi», ou seja a religião dos farrapos, como orgulhosamente afirmam. Consagrado a nível mundial, transforma-se em gestor de uma agenda que lhe levou ao longo dos anos para os quatro cantos do mundo.

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Coisa que fazia não por dinheiro, mas por paixão da arte e amor das pessoas a quem ele se propusera entreter. Papa Wemba era acima de tudo um «entertainer» como se diz em Inglês. E por via desse ofício se tornara um Peregrino, ciente de que – ossos de ofício – nessa profissão de homem do palco nunca haviam de lhe conceder reforma. Ouçamos seu clamor premonitório noutro seu hit de 1992, intitulado exactamente «Le Voyageur»:

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«Ai de mim o viajante / Os pensamentos não me deixam em paz / Jó, dá-me um copo de água pra repousar o coração (…) «Sempre que subo a escada do avião / Meus pensamentos voltam para minha família / Na esperança de que no regresso / possa enfim vê-la de novo reunida à volta duma mesa», «Alegria e felicidade pelo menos uma vez ao ano / Porque este meu ofício aqui não tem direito à pensão.» E assim aconteceu.

Não voltou a ter reunião familiar ao redor da mesa, nem se deu ao luxo de se reformar. Tombaste ó heróico soldado, tu, da Rumba o exímio rouxinol, naquele fatídico palco, à hora que se inspiram os poetas, na madrugada de um domingo em Abidjan. «Ekumani, que ton âme repose em paix»! (OPAIS)

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