‘O Rei’, do Maracanã a Hollywood

(EL PAIS)

Édson Arantes do Nascimento, ou simplesmente Pelé, é uma referência viva do futebol mundial. O astro brasileiro marcou mais de 1.200 gols em sua carreira de 21 anos. Estreou aos 15 anos de idade com a camisa do Santos, time onde permaneceu por 18 anos e pelo qual levantou duas Copas Libertadores, dois Mundiais de Clubes e uma Recopa Intercontinental, além de vários campeonatos no Brasil. Em 1958, aos 17 anos, deslumbrou o mundo do futebol vestido com a camisa da seleção brasileira, a quem deu naquele ano seu primeiro título mundial. Toda lenda tem um começo, e é isso que pretendem contar Jeff e Michael Zimbalist em Pelé – O Nascimento de uma Lenda: como se transformou em mito o jogador apelidado de O Rei.

O filme, rodado no Brasil e em inglês, teve pré-estreia no Festival de Cinema de Tribeca em abril e acaba de ser lançado este mês em telas norte-americanas. Michael Zimbalist explica que ele e seu irmão quiseram se concentrar em um filme que pudesse alcançar um público amplo, tendo como foco as origens do Pelé e mostrando como ele começou como uma criança que ganhava a vida engraxando sapatos. “Foi um período em que ele foi forçado a amadurecer, enquanto o Brasil também amadurecia nos anos 1950. Isso nos deu a oportunidade de contar não só o nascimento de uma lenda, mas de uma identidade nacional”, explica em entrevista por telefone.

O longa-metragem é baseado em muitos textos escritos sobre a vida de Pelé durante aquela época, lembra Zimbalist, além das próprias experiências contadas pelo jogador. Conta que o primeiro encontro com O Rei foi em Londres em 2012, durante os Jogos Olímpicos. Essa reunião com o astro brasileiro, que também é produtor executivo do filme, foi uma oportunidade para inúmeras perguntas. Essa conversa, “e muitas outras”, não só os permitiu entrar em primeira mão nos fatos, mas também captar o sentimento de quando o jogador estava em campo, acrescenta o também co-roteirista. “Pelé nos disse como se sentia, do ponto de vista da serenidade e da invencibilidade que recaía sobre ele dentro da área. Queríamos ver como levar para a tela toda a recriação dos momentos em que ele jogava futebol. Queríamos representá-lo de uma forma que não tinha sido feita antes”, diz o co-diretor.

Os irmãos Zimbalist, oriundos de Massachusetts, nos Estados Unidos, tinham consciência ao iniciar esse projeto que, quando se trata de referências — seja na arte, na ciência, na política ou no esporte — é difícil fazer uma representação que consiga agradar a todos. O co-roteirista cita as palavras do zagueiro italiano Tarcisio Burgnich, encarregado de marcar Pelé na final da Copa de 1970, para ilustrar a dificuldade de levar a vida do tricampeão mundial para as telas: “Antes do jogo, eu disse a mim mesmo: ‘Ele é de carne e osso, como todo mundo’. Mas eu estava errado”.
“Essa bela forma de jogar”

Um dos desafios, de acordo com Michael Zimbalist, foi encontrar uma maneira de representar “essa bela forma de jogar”. Sabiam que o ex-jogador do Santos é muito conhecido, e que não só tinham de encontrar jovens que se parecessem com ele em suas características físicas, mas também “que fossem capazes de abraçar o seu espírito, carisma e que pudessem representar essa maneira mágica de jogar”, afirma.

Os atores Leonardo Carvalho (esquerda) e Kevin de Paula, que interpretam Pelé, ao lado do astro. (Twitter @Pele)
Os atores Leonardo Carvalho (esquerda) e Kevin de Paula, que interpretam Pelé, ao lado do astro. (Twitter @Pele)

A escolha dos atores que representariam Pelé nas duas idades foi uma tarefa difícil, admite Zimbalist. Depois de centenas de audições, os jovens brasileiros Leonardo Carvalho e Kevin de Paula foram escolhidos para representar o jogador de futebol com 9 e 17 anos, respectivamente. “Ambos fizeram um trabalho fenomenal, nenhum tinha atuado antes, mas mostraram habilidade real nas audições e encararam o desafio de aprender uma língua que não conheciam. Estamos orgulhosos do que eles conseguiram”, diz Zimbalist.

O próprio Pelé disse à Variety que “os dois jovens atores que me interpretam serão verdadeiras estrelas, já que demonstraram suas habilidades tanto na tela como no campo”. A data de estreia do filme na América Latina ainda não foi confirmada, mas os irmãos Zimbalist esperam uma “boa resposta”. O co-diretor diz que a experiência de filmar no Brasil e contar a história de Pelé foi “uma honra” para ele e o irmão. “O filme pode ser considerado como uma carta de amor para o Brasil. Tem a ver com Pelé, mas também celebra a cultura brasileira e uma parte de sua história, essa mesma história e cultura que eu e meu irmão nos apaixonamos com o passar dos anos”, acrescenta.

Michael e Jeff Zimbalist têm experiência em documentários esportivos para a emissora ESPN, e também filmaram Os Dois Escobares, uma produção sobre a relação entre o futebol e o tráfico de drogas na Colômbia. Os dois vivem e trabalham há vários anos na América Latina. O interesse em contar essas histórias, segundo Michael Zimbalist, é que elas podem transcender para além do campo.

O co-roteirista afirma que, junto com seu irmão, esperam que essas histórias possam ser transpostas para além das paredes dos estádios e que tenham um significado cultural e social. Com Pelé – O Nascimento de uma Lenda tentaram refletir o paralelismo das adversidades enfrentadas pelo ex-jogador brasileiro e o próprio país naquela época, antes de ganhar a Copa do Mundo pela primeira vez. “A grande importância que essa vitória teve para a cultura brasileira, para nós significou uma história que não foi apenas de um jogador, mas o nascimento de uma identidade nacional, especialmente após a derrota para o Uruguai em 1950, o chamado Maracanazo, e como, após o período Pelé, mudou a forma como o Brasil passou a ser visto pelos olhos do mundo”, finaliza. (EL PAIS)

por Andrés Rodríguez

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA