Noite de núpcias – como os noivos não contam

(Thinkstock)

A festa acaba. Os convidados se despedem dos noivos. Homens de gravata esgarçada e camisa aberta, excessivamente amorosos por causa do álcool. Mulheres equilibrando salto, bolsa e bem-casados nas mãos. Levanto aquela renda toda, de brancura impecável, mandando beijos para a elegância de horas atrás. Acho graça dos meus pés encardidos depois de “encerar” o chão da pista de dança ao lado das pessoas mais especiais da minha vida. Meu marido também está exausto, suado, ligeiramente bêbado e anestesiado de tanta alegria. Minha mãe me arrasta para um canto: “Filha, vem cá que eu te ajudo a tirar o vestido. Seu marido não terá condições de fazer isso sozinho no hotel…”. A sogra querendo facilitar a fo… do genro, vejam vocês. Ah, é, depois de passar um dia inteiro entre preparativos e fortes emoções ainda tem a noite de núpcias. Que tesâ… Só que não.

Entre as gerações passadas, era comum que os pombinhos partissem o bolo e partissem da festa correndo para ter a “primeira vez”. Hoje, como a maioria das noivas não é mais virgem, a ansiedade está em curtir o evento até o último gole de cachaça disponível. Conheço histórias de noivos que foram do buffet para a glicose do hospital e outros que vomitaram no “enfim, sós”. A cena que comentei aconteceu em abril de 2012. Contrariei minha mãe dizendo que queria “causar” no lobby do hotel fantasiada de noiva. Sim, eu sou meio espalhafatosa. E, pô, não se casa toda semana! Eu esperava aplausos, fotos, cumprimentos. Encontrei um recepcionista sonolento que sequer me parabenizou pelo casamento enquanto assinava o check in. Achei de uma insensibilidade… Mandei o marido engolir aquele sorrisinho no canto dos lábios e emendei algo como “Ha-ha. Agora você vai ter que me carregar até a suite”. Ele me carregou. Trôpego, com o romantismo de quem carrega sacos de batata.

“Amor, preciso de um banho. Aguenta aí”, ele me disse, depois de me depositar na cama. Tive a estúpida ideia de tentar arrancar sozinha aquele vestido justo, estilo sereia. Queria que ele me encontrasse com a camisola bafônica que ganhei no chá de lingerie. Rolei de um lado para o outro na tentativa de me desenvencilhar daquelas camadas todas de tecido, fiz alongamentos impensáveis para ver se ele saía por cima ou por baixo… Nada. Desisti: “Ah, dane-se também, viu! Me come há anos, talvez essa embalagem dificílima seja um desafio excitante pra ele”. Quando ele apareceu cheiroso e fresquinho, eu já estava mal-humorada com os mais de 50 botões laterais que desciam das axilas aos quadris. Felipe fez cara de “deixa comigo, vai ser molezinha”.

Tentou, tentou, tentou. “Molezinho vai ficar o seu pau depois dessa demora toda”, pensei comigo. Juro que ele precisou pegar uma PINÇA para tirar a alça que envolvia cada botão. Não sei dizer ao certo quanto tempo se passou até que eu, finalmente, estivesse despida. Talvez uma hora? Não calculei porque dormi. Com uns milhares de grampos na cabeça, embaraçados ao cabelo duro de laquê. Despertei com marido me sugerindo entrar debaixo das cobertas. Foi então que eu percebi: havia um quilo de arroz entre os seios, dentro do umbigo, grudado na virilha. Caímos na gargalhada. Case-se com alguém que seja capaz de rir muito com você em todo tipo de situação. Saí da chuveirada ainda com resquícios da maquiagem, beijei-lhe a boca e apaguei no peito dele. O primeiro som que ouvi pela manhã foi o estourar de uma rolha de champagne. Era ele, que havia perdido a “noite”, mas não desistira das “núpcias”. (YAHOO)

Nathalia Ziemkiewicz

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria.

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