Nem todos os hispânicos são contra Trump

(REUTERS)

Proposta do pré-candidato republicano de construir um muro ao longo da fronteira entre EUA e México causa revolta entre os latinos. Mas nem todos se sentem ofendidos.

O Texas não é exactamente conhecido por sua diversidade, uma reputação que não faz jus ao segundo maior estado americano – tanto em superfície quanto em população. Ele tem uma composição multi-cultural, que certamente tende a ser mais hispânica quanto mais perto se estiver da fronteira mexicana.

Essa fronteira tem estado na mira do provável candidato republicano à Casa Branca. Donald Trump causou burburinho com slogans provocadores, dizendo que, como presidente, construirá um muro de protecção ao longo da fronteira e que o México é que vai pagar por ele.

No entanto, nem todos os moradores da cidade texana de Corpus Christi, localizada a cerca de 160 quilômetros ao norte da fronteira e com uma população predominantemente hispânica, consideram ofensivas essas observações, especialmente entre as gerações mais jovens.

“Quero saber: o mundo está rindo de nós? O que a Europa pensa sobre as eleições americanas?”, indagou o morador Bob Montez, apontando para a mais cobertura eleitoral na TV de um restaurante mexicano, uma taqueria. “O processo todo está ficando embaraçoso. E não é só Trump.”

Chavões e aparências

Montez, de 45 anos, trabalha como administrador sénior numa faculdade local e viveu a maior parte de sua vida em Corpus Christi, que se auto-denomina “a cidade efervescente à beira-mar”. Tanto ele quanto sua esposa Melinda, uma massagista terapêutica, são cidadãos americanos de quarta geração.

Eles dizem que tanto honram sua tradição mexicana quanto têm orgulho de serem americanos. Neste dia, por exemplo, celebram o Cinco de Maio, que comemora uma vitória militar mexicana do século 19, mas que se tornou uma desculpa para homenagear a cultura mexicano-americana nos EUA – com tacos, margueritas e questionáveis bandas Mariachi, um popular género musical mexicano.

“Eu não posso dizer que gosto de Trump, mas também não posso dizer que gosto de Hillary”, afirmou Bob Montez, virando-se em direcção à esposa. “Eu não sou muito politizada, mas parece que tudo é apenas entretenimento. É como uma corrida de cavalos. E sei que não deveria ser assim”, acrescentou Melinda, de 35 anos. “Tudo o que dizem é para amedrontar as pessoas. E isso funciona. Trump me assusta.”

O chocante Trump

A ideia de que a campanha presidencial está transcorrendo cada vez mais como um espectáculo é apoiada também por outros residentes hispânicos de Corpus Christi. Javier Urias, diretor de operações na Associação Cristã de Moços (ACM)local, disse que muitos comentários de Trump são imaturos, mas sublinhou que essa pode ser a razão pela qual o pré-candidato republicano conseguiu chamar a atenção de tantas pessoas.

“Ele apenas está dizendo coisas que muitas pessoas não se atrevem a dizer, e isso o torna diferente de qualquer outro candidato. Ele não é um político de carreira, e é isso que o torna atraente para os eleitores”, teorizou Urias, de 35 anos. Ele disse ainda que Trump não é o seu candidato republicano favorito.

“Muitas pessoas neste país estão cansadas de dinastias. Elas não querem outro Clinton. Não querem outro Bush. Os eleitores já manifestaram isso no campo republicano, expulsando Jeb Bush para fora da corrida logo no início. E o mesmo está acontecendo com os democratas: por que você acha que Bernie Sanders representa uma ameaça tão grande para a candidatura de Clinton?”

Apesar de não gostar da ideia de dinastias, Urias concorda que o próprio Trump é herdeiro de um império. “Sim, sabemos que ele é um bilionário que nasceu em berço de ouro, mas o que não sabemos é o que esperar de Trump se ele chegar à Casa Branca. Mas muita gente está morrendo de vontade de descobrir.”

Em cima do muro

Bob Montez mostrou ser da mesma opinião e disse que deve votar em Trump só para ver como ele “vai fazer as coisas de forma diferente”. Os comentários de Trump sobre construir um muro ao longo da fronteira entre os EUA e o México parecem não ter importância para Montez. “Ele só está dizendo isso para obter uma reacção”, reflectiu.

“Somos americanos acima de tudo”, afirmou Urias. “Temos orgulho de nossas raízes e honramos essa tradição, mas há uma forma legal de entrar neste país, e muitas pessoas respeitam esse processo e se tornam parte do sistema. Não é justo com elas e não é justo com outros americanos que pessoas que não respeitem as leis não sejam punidas. Os EUA são uma república, o que significa que somos governados pela lei.”

“Todos os nossos familiares estão aqui. Eles já se encontram aqui há gerações. Esta é a única forma de vida que conhecemos. Eu nunca estive nas cidades mexicanas de fronteira. Então por que deveríamos ter uma opinião diferente da dos outros sobre imigrantes ilegais do México?”, indagou Melinda Montez. “Quero dizer, sinto muito por eles, mas não vou às urnas preocupada com os problemas dos imigrantes.”

Voto em temas, não em partidos

O seu marido, Bob Montez, disse não haver algo como “o voto hispânico” – apesar de vários prognósticos afirmarem que a eleição poderá ser influenciada pelo voto dos latinos.

“As pessoas não devem esperar que a população mexicana ou hispânica tenha um comportamento particular nestas eleições. Alguns votam nos democratas, outros nos republicanos, e muitos estão simplesmente indecisos. Alguns das gerações mais velhas podem estar muito preocupados com essas questões, mas a maioria das pessoas só quer que os próximos quatro anos sejam melhor que os quatro anteriores”, afirmou Bob Montez.

Balançando a cabeça em anuência, Javier Urias disse achar que mesmo uma separação por gerações pode ser uma forma antiquada de olhar para esta eleição. “Observando Trump, vê-se alguém que é liberal dentro dos padrões republicanos. Ele até costumava ser democrata, e poderia atrair muitos votos se concorresse como candidato independente. Não creio que nossas eleições continuem girando em torno de questões e pontos de vista meramente partidários”, afirmou. “Na verdade, quem olhar para Trump e Clinton vai encontrar pontos de consenso.”

Esses pontos de consenso podem ser difíceis de identificar à medida que as campanhas eleitorais ficam mais agressivas e os candidatos se concentram em apresentar sua personalidade pública e em polir sua imagem em vez de destacar problemas que vão atacar caso assumam a presidência. Bob Montez disse acreditar que isso acontece porque, no fundo, não são os eleitores que escolhem o presidente.

“Com tudo dependendo do colégio eleitoral e as primárias transcorrem como eventos partidários, aqueles que realmente conseguem escolher o presidente são alguns poucos e poderosos”, explicou Montez. “Para que haja voto directo para presidente, há muito a ser revisto”, concordou Javier Urias.

“Mas, mais uma vez, os EUA não são uma democracia como os países europeus. Somos uma república com separação de poderes. Assim, no frigir dos ovos, quem chega à presidência não é tão importante quanto aquele que consegue aprovar uma lei no Congresso. E as pessoas parecem se esquecer disso”, concluiu Urias. (DW)

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