Minha terra tem calheiros, onde cantam os jucás: a febre do Temer poeta do Twitter

Michel Temer durante reinauguração do Ministério da Cultura (Adriano Machado Reuters)

Há 11 dias, veio à luz – descendente da melhor verve do gênero satírico e na mesma data em que teve início o Governo interino de Michel Temer – o perfil de Twitter @temerpoeta, que brinca com as aspirações líricas do presidente interino. Nesse tempo, da escolha do logotipo do Governo aos últimos capítulos da Lava Jato, foram necessários apenas 47 tuítes, uma média de pouco mais de quatro por dia, para que fossem acumulados cerca de 25 mil seguidores. “Amo ver o Michelzinho/ rolando contente na grama,/ escolhendo um logotipo/ colorindo um pentagrama”, fez sucesso a ironizar a declaração do marqueteiro do Governo de que foi o filho do peemedebista, de 7 anos, que deu a palavra final sobre a marca da gestão.

Se a primeira peça escrita de Temer a circular por todo o território nacional foi a famosa carta de 2015 – em que, ainda vice-presidente, ele reclamava do relacionamento que tinha com Dilma Rousseff –; alguns anos antes, em 2012, já havia debutado no mundo das letras com seu livro de poemas Anônima Intimidade. Como na internet a zoeira nunca acaba, conforme Temer foi aparecendo cada vez mais no noticiário, sua ousadia literária virou piada.

Os versos de Embarque, “Embarquei na tua nau/ Sem rumo. Eu e tu./ Tu, porque não sabias/ Para onde querias ir/ Eu, porque já tomei muitos rumos/ Sem chegar a lugar nenhum”, foram eleitos, rapidamente, como os preferidos da internet. Para muita gente, eles explicavam perfeitamente a relação conflituosa entre ele e a presidenta afastada. O site que gera automaticamente (embaralhando as próprias rimas de Temer) poemas foi o próximo degrau da zoeira antes do funcionário público, Daniel Ramos, 25 anos, dar início ao perfil do Twitter.

Graduado em engenharia elétrica, Ramos é, ele próprio, poeta. “No tempo livre, escrevo músicas, poemas e edito, com outros dois parceiros, uma revista independente de poesia, chamada Caroço”, conta. Os poemas do presidente interino, contudo, dificilmente teriam lugar em sua publicação, já que ele classifica os arroubos líricos de Temer como “bobos” e “fraquinhos”.

A ideia de criar o perfil, conta, surgiu depois que um amigo disse que o usuário @temerpoeta ainda estava livre na rede social. Desde então, ele tem publicado diariamente versinhos originais ou paródias de poemas e músicas famosas, como Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, e Refazenda, de Gilberto Gil. Agora, dois assuntos podem ser considerados verdadeiros trending topics do perfil. O primeiro são as paródias do dia a dia. O segundo, mais insólito e bem ao gosto nonsense da internet, é a bizarra fama de satanista do presidente interino.

Sim. Isso mesmo. Você não leu errado e caso ainda não saiba, há um boato que diz que Temer é um adorador do diabo. “É uma coisa com a qual as pessoas já estavam fazendo piadas, então aproveitei para os poemas. Mas não sei dizer se faz com que tenham mais sucesso que os outros”, diz Ramos. Humildade. Quando o tinhoso é incluído na brincadeira, os compartilhamentos atingem números astronômicos. Pegue os versinhos abaixo como exemplo. Uma mísera menção a satanás e o resultado? 6.800 retuítadas.

Que Temer não fique ofendido com a brincadeira (pelo menos não com a parte dos poemas), ele não é o primeiro político a ser alvo de perfis satíricos. É verdade, alguns são mais elogiosos, como o Dilma Bolada, outros mais detratores, como o Aécio de Papelão. Mas Ramos deixa claro que não é partidário de nenhum Governo, não gosta de como o processo de impeachment aconteceu, mas não levanta a voz por alguma legenda específica. Aliás, o nome “Michael Termer Poeta”, com foi batizado o @temerpoeta, é escolhido para, justamente, deixar claro que tudo não passa de uma sátira, uma brincadeira.

E o que podemos esperar do futuro do perfil? Em primeiro lugar, alto nível de publicações, já que Ramos diz “não aceitar qualquer sugestão” para não floodar a timeline de ninguém. Em segundo, vida longa, porque, segundo ele, os chistes poéticos continuarão enquanto houver seguidores. E esse número, como já deu para perceber, não para de crescer. Abaixo você lê uma seleção temática escolhida pelo autor e pelo EL PAÍS dos melhores versinhos. Divirta-se. (EL PAIS)

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