Jovem que fugiu do Boko Haram fala sobre o cativeiro

Christina Ijabla passou dois anos detida pelos terroristas (DW)

Por quase dois anos, Christina Ijabla foi mantida refém pelo grupo radical islâmico Boko Haram, até que conseguiu fugir. Em entrevista exclusiva para a DW, ela conta como era a vida em poder dos terroristas.

Christina Ijabla foi mantida em cativeiro pelo Boko Haram por quase dois anos. Os radicais islâmicos invadiram a sua cidade, Madagali, no nordeste da Nigéria. Ela foi forçada a se casar e violentada. Há um mês, Ijabla conseguiu escapar e vive agora com o tio, onde espera pelo nascimento do filho concebido em cativeiro. Desde que escapou do Boko Haram, em Abril, ela ainda não recebeu qualquer assistência do governo nigeriano. A reportagem da DW esteve com Ijabla, que contou sobre o período em que foi obrigada a viver com grupo radical islâmico.

DW: O que você lembra do dia em que foi raptada?

Christina Ijabla: Eu me lembro que ouvi tiros e todo mundo começou a fugir. Era o caos, cada um por si. De repente, cinco homens apareceram na nossa frente. Eles perguntaram por que estávamos correndo. Dissemos que estávamos tentando fugir do combate. Aí, eles simplesmente disseram: vocês não vão a lugar algum. Nós suplicamos para que nos deixassem ir, mas eles não tiveram pena. Eles nos levaram para uma casa em Madagali, onde nos aprisionaram.

Após a eleição do presidente Muhammadu Buhari, há um ano, militares nigerianos reconquistaram vastas áreas no nordeste da Nigéria que estavam sob controle do Boko Haram, inclusive Madagali. Isso teve algum efeito sobre seus raptores?

Há cerca de um ano, os combatentes em Madagali nos levaram para a floresta de Sambisa [bastião do Boko Haram, perto da fronteira com os Camarões]. Foi uma caminhada de quatro dias. Eles tentavam o tempo todo nos forçar a casar com eles. Nós nos negávamos, e eles se tornavam ainda mais violentos. Eles diziam que nos matariam e matariam a nossa família, e que tinham controle total sobre nós. Até que vendaram uma das meninas, uma de nós, e atiraram nela na nossa frente. Então fizemos o que eles pediram. Desde aquele dia, os combatentes vinham geralmente à noite, para fazer sexo. Quase não os víamos durante o dia. E se resistíamos, eles batiam em nós.

O que mais você pode nos dizer sobre a vida na floresta de Sambisa?

Tínhamos que dormir sob as árvores, não havia casas. Eles cercavam áreas para acampamentos com arbustos espinhosos. Existem vários acampamentos pequenos, onde mulheres e crianças são forçadas a viver. Ouvi dizer que são mais de 2 mil. Guardas garantem que ninguém escape. Eles contam as pessoas de manhã e à noite. Só havia milho para comer, nada de carne ou temperos.

Acredita-se que as mais de 200 meninas de Chibok, raptadas há dois anos, estão sendo mantidas em Sambisa. O que você sabe sobre elas?

Elas viviam bem do nosso lado, em um lugar chamado Kago. Nós as vimos uma vez, quando foram obrigadas a ler o Alcorão em voz alta sob uma árvore. Mas eles disseram para não nos aproximarmos. Elas tinham tratamento especial. Algumas tiveram de casar com comandantes do Boko Haram, mas, pelo que pude ver, a maioria das garotas ainda estava em grupo.

E todas ainda estão vivas?

Antes elas estiveram presas em Gwoza [antigo bastião dos militantes islâmicos que foi retomado pelo exército nigeriano]. Três das meninas foram mortas – eu acredito que por acidente – durante uma ataque aéreo das forças armadas nigerianas. As outras, pelo que sei, continuam vivas.

Você ouviu alguma coisa sobre Abubakar Shekau, o líder do Boko Haram?

Eu ouvi falar dele, mas nunca o vi pessoalmente. Lembro de uma sexta-feira, quando todos os combatentes foram chamados para ouvi-lo. Ele disse para ninguém se deixar abater pelas últimas retomadas de território do exército nigeriano. Também falou que os combatentes deveriam levar mais mulheres e crianças para a floresta, porque assim estariam cumprindo a vontade de Deus. Sei disso porque eles distribuíram gravações do discurso.

Pelo discurso de resistência, parece que o Boko Haram está encurralado.

O exército nigeriano está fazendo incursões cada vez mais profundas na floresta de Sambisa. Eles destruíram muitas bases do Boko Haram, onde eles guardavam comida, armas e veículos. Eu vi muitos combatentes mortos, inclusive corpos de comandantes, suas esposas e crianças. Eu ouvi que Shekau está tentando negociar com o governo a possibilidade de libertar as meninas de Chibok.

É verdade que as mulheres sofrem discriminação ao retornar para suas comunidades depois de serem mantidas em cativeiro pelo Boko Haram?

Sim, as pessoas ficam com medo de nós. Você só pode realmente contar com a sua família. Mas os soldados [do exército nigeriano] me trataram bem. Enquanto eu ainda estava em fuga, eu contei para eles o que aconteceu comigo. Eles cuidaram de mim e até me deram algum dinheiro. Os militares perguntaram para as outras meninas que estavam comigo sobre as condições na floresta de Sambisa.

A situação das meninas de Chibok tem sido manchete internacional nos últimos dois anos. Por outro lado, casos como o seu e de muitas outras mulheres e têm recebido bem menos atenção. Você acha isso injusto?

Eu acharia bom se o mundo falasse mais sobre nós e mais pessoas soubessem da nossa situação. Há tantas que ainda estão em cativeiro. E gostaria também que o nosso governo entendesse que precisa nos assistir. Nós também precisamos de ajuda. (DW)

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