Ferro reforça economia angolana

Diamantino Pedro Azevedo, PCA da Ferrangol (Foto: Angop)

A extracção de minério de ferro no jazigo de Cassinga, no município da Jamba, província da Huíla, Angola, retoma, provavelmente, dentro de um ano.

O anúncio foi feito à agência noticiosa angolana Angop, na última sexta-feira em Luanda, pelo presidente do Conselho de Administração da Empresa de Ferro de Angola (Ferrangol), Diamantino Pedro de Azevedo.

Lançada no preciso momento em que Angola busca sérias alternativas ao petróleo, a notícia confirma que, mesmo que  a diversificação económica em Angola não passe, ainda, de miragem, em vários sectores, ela ganha corpo e faz encarar o futuro com optimismo, no caso mineiro.

Chipindo na exploração do ferro. (Foto: Angop)
Chipindo na exploração do ferro.
(Foto: Angop)

Diamantino de Azevedo, um engenheiro de minas e homem certo no lugar que ocupa há bastante tempo, fez a revelação à agência Angop um dia depois que as comissões Económica e de Economia Real do Conselho de Ministros apreciaram e recomendaram a aprovação do Plano de Reestruturação do Projecto Mineiro-Siderúrgico de Cassinga (PMSC), no município da Jamba, província da Huíla.

Logo que o PMSC seja definitivamente aprovado, o que passará pela assinatura do respectivo Decreto Presidencial, o passo seguinte será a criação de uma nova sociedade, que substituirá a extinta Angola Exploration Mining Ressources (AEMR).

A Ferrangol, cujo objecto social compreende os minérios ferros e os não-ferrosos, bem como os metais preciosos e as terras raras, subscreverá o capital social da nova sociedade mineira, ao lado de operadores privados, num exemplo típico das parcerias público-privadas incentivadas pelo Estado angolano.

A retoma da exploração de minério de ferro em Cassinga resulta de uma série de acções que se desenvolveram a partir de 2010, altura em que foi aprovado o programa de desenvolvimento mineiro de Cassinga, na Huíla, e Cassala-Quitungo, no Cuanza Norte.

O programa foi desenvolvido até 2013, altura em que se iniciou a sua revisão, num processo que ditou a extinção da Angola Exploration Mining Ressources (AEMR), então consórcio responsável pelas operações de prospecção, comparticipado pelo Governo, através da Ferrangol, em parceria com empresas privadas.

Entre 2013 e 2015, foi revisto o programa. O processo culminou com a aprovação, em Dezembro do ano passado, de um novo figurino para a sua condução, cujo ponto central consistiu na separação de Cassinga e Cassala-Quitungo.

À luz dessa separação, segundo Diamantino de Azevedo, em Cassala-Quitungo serão desenvolvidos três projectos de prospecção, designadamente de ferro, manganês e ouro.

Programa de Cassinga tem três metas

O gestor detalha que o Programa de Reestruturação do Projecto Mineiro-Siderúrgico de Cassinga tem três metas, designadamente o curto, médio e longo prazos.

O início da exploração do minério de ferro, dentro de um ano, é a meta de curto prazo. Falta apenas que sejam ultrapassados alguns condicionalismos relacionados com o Caminho-de-Ferro de Moçâmedes (CFM) e o terminal mineraleiro do Saco-Mar, na cidade do Namibe.

É que o escoamento do produto para o porto de exportação é uma componente tão importante quanto a sua exploração e beneficiamento.

Em relação a esses condicionalismos, já foram dados alguns passos, como a aquisição do equipamento para o apetrechamento do terminal de exportação.

Zona de exploração mineira. (Foto: D.R.)
Zona de exploração mineira.
(Foto: D.R.)

O material, de acordo com Diamantino de Azevedo, apenas aguarda pela sua transportação para o país. De igual modo, foi já adquirido o equipamento para a montagem da própria mina.

Quanto aos números, para a primeira fase, Diamantino de Azevedo situa as previsões num volume de 1.8 mil milhões de toneladas anuais de concentrado de minério de ferro a extrair de Cassinga.

A manutenção ou o aumento desse nível dependerá muito do comportamento dos preços do produto no mercado internacional.

O previsto volume de extracção representa muitíssimo pouco, se comparado com os 5.5 mil milhões de toneladas de 1974, ano pico registado na história da indústria.

O preço de referência de uma tonelada de minério com o teor de ferro de 62 porcento, colocada num porto chinês, na modalidade CIF (custo, imposto e frete) é cotado, actualmente, em 62 dólares.

O minério é qualificado a partir do teor de ferro que contém. Assim, até aos 35 porcento, a qualidade é baixa, embora possa ser comercializado, desde que submetido a um tratamento adequado e mais exigente. Com 40 porcento, o produto é considerado de média qualidade, enquanto será boa na faixa de 62 porcento.

Aos preços praticados hoje no mercado internacional de minério de ferro, Angola poderá embolsar anualmente pouco mais de 111 milhões de dólares de receita bruta, na primeira fase, na eventualidade de que as previsões do índice de produção se concretizem.

Seria um bom começo, mesmo que o mercado internacional de minério de ferro e de aço seja “muito competitivo”, como o admite o presidente do Conselho de Administração da Ferrangol, Diamantino de Azevedo.

Além dos simples cifrões, a primeira fase do relançamento da exploração do minério de ferro em Cassinga tem previsão de criar 800 empregos directos, ao que se somam muitos outros indirectos, através de negócios de apoio à actividade ou de beneficiamento das comunidades, no âmbito da responsabilidade social do projecto.

A produção em si não gera muitos empregos, na medida em que assenta mais na especialização e no uso de maquinaria industrial.

Mesmo assim, é positiva a participação deste segmento da economia nacional na empregabilidade e sustento das comunidades angolanas no interior do país.

Para o médio prazo, está prevista a entrada em operação do jazigo de Cateruca, igualmente na Jamba, com um potencial de reservas provadas de 400 milhões de minério de ferro.

Este jazigo carece ainda de mais estudos. Existe já um estudo de pré-viabilidade, que culminará num outro de viabilidade, num horizonte temporal de dois a três anos.

As projecções de exploração da mina apontam para um volume anual de 10 milhões de toneladas de peletes, minério beneficiado que se apresenta em forma de pequenas esferas, o que o torna facilmente manuseável no momento de acondicionamento para ser exportado.

Para a fase de longo prazo, está prevista a entrada em operação de outros jazigos mineiros primários e secundários que abundam na região da Jamba.

Prospecção estendeu-se a outras áreas

Os trabalhos de prospecção e sondagens geológicas, em busca do minério de ferro, não se limitaram ao município da Jamba, na Huíla. Estenderam-se a Cassala-Quitungo, no Cuanza Norte, onde existem recursos calculados em 270 milhões de toneladas.

Na comuna do Cutato, município do Cuchi, província do Cuando Cubango, está em vias de se iniciar a produção de ferro gusa, um produto intermédio entre o minério de ferro e o aço, resultante do beneficiamento do primeiro.

Nessa localidade, será implantado o Projecto Mineiro-Siderúrgico do Cuchi, a cargo da Companhia Siderúrgica do Cuchi.

Programado está o início imediato da produção de ferro gusa, num volume inicial previsto de oito mil toneladas, até ao final deste ano, para chegar as 96 mil, em 2017. A empreitada deverá arrancar com 1.713 trabalhadores angolanos e 30 estrangeiros.

GeoAngol reforça acção da actividade mineira

No rol de toda a actividade já desenvolvida, destaque recai sobre o surgimento em cena, em Dezembro do ano passado, da empresa público-privada angolana GeoAngol.

Esta, que surgiu de uma ideia maturada desde 2006, reforçou grandemente a actividade mineira em Angola, segundo o presidente do Conselho de Administração da Ferrangol, Diamantino Pedro de Azevedo.

Comparticipada em 40 porcento pela própria estatal Ferrangol, a GeoAngol é uma empresa de prestação de serviços laboratoriais e sondagem geológica.

Está instalada no Pólo Industrial de Viana, em Luanda, e representou um investimento da ordem de 13 milhões de dólares.

O seu surgimento no mercado interno significou um passo gigante, na medida em que algumas das análises anteriormente encomendadas no estrangeiro, a custos elevadíssimos, hoje são efectuadas no país, a custos mais razoáveis, sublinhou o gestor.

Terminal mineraleiro de Saco-Mar

O terminal mineraleiro de Saco-Mar é uma peça fundamental para a exportação do minério de ferro e derivados produzidos na região da Jamba, na província da Huíla.

Infra-estrutura de apoio ao projecto mineiro de Cassinga, o terminal permitiu ao país, antes da independência, exportar anualmente mais de três milhões de toneladas de ferro saído das minas do município da Jamba.

Actualmente inoperante, a infra-estrutura deve ser entregue à Ferrangol e aos seus parceiros, em cumprimento de um Decreto Presidencial. O processo está em curso.

Quando tiver início a exportação de minério de ferro, abrir-se-á um mercado privilegiado para a China, curiosa e simultaneamente o maior produtor e importador mundial do produto.

Por essa sua dupla condição, a China tem uma palavra decisiva na fixação do preço de referência do minério de ferro nos mercados internacionais.

Diamantino de Azevedo diz que poderão aparecer outros países, com alguma actividade siderúrgica, interessados em comprar o minério de ferro originário de Angola, mas o gigante asiático é, seguramente, o primeiro candidato.
EXPLORAÇÃO DO OURO ARRANCA EM 2018 NA HUÍLA
A exploração industrial de ouro em Angola deve arrancar, pela primeira vez, em 2018, nas minas de Mpopo, comuna de Chamutete, município da Jamba, província da Huíla.

O presidente do Conselho de Administração da Ferrangol, Diamantino de Azevedo, confirmou à Angop que a empreitada será levada a cabo pela Sociedade de Metais Preciosos de Angola (Somepa), uma empresa público-privada de capitais totalmente angolanos, incluindo da própria Ferrangol.

Diamantino de Azevedo aludiu à conclusão dos trabalhos de prospecção e à elaboração dos estudos de viabilidade e de impacto ambiental, passos imprescindíveis ao arranque da exploração.

Enquanto aguarda pela licença de exploração, o que poderá acontecer ainda este ano, a Somepa está a criar as condições técnicas e humanas para iniciar a operação.

“Estamos em crer que, do ponto de vista cronológico e tendo em conta, também, que o preço do ouro conhece, neste momento, uma relativa estabilidade, é possível o cumprimento desse prazo”, garantiu Diamantino de Azevedo.

Na fase mais avançada, a exploração de ouro nas minas de Mpopo criará 200 novos postos de trabalho.

Existem igualmente notícias de ocorrências de ouro no Chipindo, também na Huíla, onde a prospecção está ser conduzida pela empresa angolana Lafech.

Ainda em relação ao ouro, está em curso a preparação da documentação para a autorização da prospecção de cinco projectos na província de Cabinda. Em preparação estão, igualmente, projectos de prospecção do ouro nas províncias do Cuanza Norte e Moxico.

Outros projectos

No segmento do cobre ganham relevância os projectos de prospecção em curso nas províncias do Cuanza Sul e Cuando Cubango.

O do Cuanza Sul deve arrancar com a produção a curto prazo, enquanto no do Cuando Cubango prosseguem os acertos para parcerias.

Quanto a projectos de prospecção de terras raras, Longonjo, na província do Huambo, aparece na primeira linha, numa parceria entre empresas privadas angolanas e uma australiana.

Ao nível do manganês, está em curso o alinhamento de parcerias para dois projectos no Cuanza Norte.

Igualmente, na mesma província, segue em diante o projecto de ferro da Cerca, uma parceria com um grupo chinês.

ANGOLA POSSUI ENORME POTENCIAL MINERALÓGICO
As enormes potencialidades mineralógicas do subsolo angolano apenas são conhecidas parcialmente.

O levantamento geológico e mineralógico em curso, no quadro da operação Planageo, conduzido pelo Ministério da Geologia e Minas e cujo término está programado para 2018, seguramente trará mais informação.

Além do diamante, o território angolano é depositário de metais ferrosos (ferro, manganês, titânio, crómio), metais não ferrosos ou de base (cobre, chumbo, zinco, volfrâmio, estanho, níquel, cobalto), metais raros (lítio, nióbio, tântalo), metais nobres (ouro, prata, platina) e, ainda, terras raras, de utilidade nas telecomunicações.

O trabalho de prospecção geológica é bastante complexo. Nem sempre o que se procura se encontra com facilidade. Ao mesmo tempo, a operação é bastante onerosa e envolve um risco elevado.

De igual modo, é um processo bastante dinâmico. O volume de reservas provadas numa determinada altura poderá alterar-se com novos estudos.

Mesmo sem ter chegado à produção, a Ferrangol empreendeu um enorme esforço, a partir de 2006, trabalho que pode ser ilustrado com 70 mil metros de sondagens na concessão de Cassinga.

No caso da Huíla, os resultados apontam para recursos totais de Cassinga da ordem de 1.2 mil milhões de toneladas de minério de ferro, enquanto as reservas provadas estão fixadas em 512 milhões de toneladas.

Nesse total, estão incluídos os 400 milhões de toneladas do jazigo de Cateruca.

Estão ainda dadas como provadas as reservas de 35 milhões de  toneladas, distribuídas por pequenos  jazigos, também em território huilano.

Na área de Cassala-Quitungo, na província do Cuanza Norte, os recursos existentes atingem 267 milhões de toneladas de minério de ferro e cinco milhões de toneladas de manganês.

USO DO FERRO EM ANGOLA TEM UMA HISTÓRIA MILENAR
Não se sabe, com precisão, quando é que os antigos habitantes que povoaram o actual território angolano tiveram conhecimento do minério de ferro e o colocaram ao serviço da sua sobrevivência.

Se assim é, não deixa margem para dúvidas que são centenares ou mesmo milenares as notícias da utilização de instrumentos e armas de fabrico artesanal nesse espaço geográfico, realidade histórica que se ilustra com a existência de vestígios de fundições e artefactos desses remotos tempos.

Na segunda metade do século 20, foram desenvolvidas, em Angola, as primeiras actividades de exploração do minério de ferro nas áreas de Cuima (Huambo) e Cassinga (Huíla), sob a responsabilidade da Companhia Mineira do Lobito (CML), fundada em 1929.

Em simultâneo, a Companhia do Manganês de Angola (CMA), fundada no mesmo ano, desenvolvia a actividade de extracção de um outro metal, desta feita o manganês, na região de Cassala-Quitungo (Cuanza Norte).

A extracção de ferro conquistou peso na economia angolana a partir de 1960 e atingiu o pico em 1974. A actividade entra em declínio em 1975, devido ao clima de guerra que se instaurou em Angola.

No conjunto das indústrias extractivas, a extracção do minério de ferro chegou a ocupar a terceira posição, depois do petróleo e dos diamantes.

Após a paralisação da exploração das minas de ferro no Cuima, na província do Huambo, o grosso do minério de ferro passou a ser extraído no município da Jamba, província da Huíla, mais propriamente nos depósitos de Cassinga e Chamutete. Em Malanje, a matéria-prima era extraída nos montes Saia e Tumbi.

Dados da Ferrangol precisam que, entre Agosto de 1967 e Agosto de 1975, foram transportados pelo Caminho-de-Ferro de Moçâmedes (CFM) cerca de 40 milhões de toneladas de concentrado de ferro de Cassinga, numa média anual de cinco milhões de toneladas.

O ano de 1974 marcou o pico da actividade, com um recorde de 5,5 milhões de toneladas.

Em Agosto de 1975, com a eclosão do conflito armado no país, foram suspensas as operações de produção e transporte de concentrado de minério de ferro.

A persistência e a intensificação da guerra ditou a paralisação total da actividade. A Companhia Mineira do Lobito (CML) foi extinta em Dezembro de 1979, depois de ter sido intervencionada e nacionalizada.

A 4 de Maio de 1981, é criada a Empresa Nacional de Ferro de Angola (Ferrangol), cujo objecto social ampliado é a exploração de todos os minérios de que Angola é depositária, à excepção dos diamantes.

A nova empresa herdou os activos e passivos da Companhia Mineira do Lobito (CML) e da Companhia de Manganês de Angola (CMA).

Hoje, Cassinga representa uma concessão. Cassala-Quitungo, na província do Cuanza Norte, outra, na qual está prevista a montegem de projectos de exploração de ferro, manganês e ouro.

Entre 1981 e 1986, a angolana Ferrangol e a austríaca Austromineral tentaram relançar a actividade das minas de ferro de Cassinga, na província da Huíla, mas a produção nunca chegou a arrancar, devido à guerra. (angop)

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