Espião português apanhado a vender segredos da NATO

(Foto: D.R.)

António Costa acompanhou a situação, pois teve de levantar o segredo de Estado durante a investigação. A CIA apoiou a PJ.

O terramoto que atingiu as secretas portuguesas, com a detenção em flagrante, em Itália, de um espião do SIS (Serviços de Informações de Segurança) a vender documentos sensíveis à Rússia, ainda agora está a começar. A análise dos documentos apreendidos pode levar a novas pistas.

O secretismo e o sigilo que envolveram a operação não permitiram que fossem feitas todas as pesquisas, para evitar fugas. A partir de agora, novas investigações mais aprofundadas vão apurar os reais danos causados. Entre os documentos apreendidos estarão matérias classificadas relacionadas com organizações internacionais a que Portugal pertence, como a Nato e a UE.

Segundo comunicados emitidos na segunda-feira à tarde pela PJ e peça Procuradoria-Geral da República, o espião, cujo nome foi divulgado pelo Expresso (Frederico Carvalhão Gil) é suspeito dos crimes de espionagem, corrupção e violação de segredo de Estado (ver caixa). Foi preso quando passava documentos a um agente das secretas russas, supostamente da SVR, o serviço de espionagem herdeiro do KGB, onde trabalhou o atual presidente Vladimir Putin. O espião russo foi também detido.

O primeiro-ministro António Costa terá acompanhado esta situação, pois teria obrigatoriamente que ser consultado para que autorizasse o levantamento do segredo de Estado relativamente aos documentos apreendidos pela Judiciária, para que possa servir de prova no inquérito criminal.

Ao que o DN apurou a investigação foi acompanhada por autoridades de outros países, entre as quais se destacou a CIA. As secretas externas norte-americanas seguem a dinâmica externa do seu congénere russo, o SVR, o qual têm em permanente monitorização. Diariamente os serviços de informações portugueses recebem dos países aliados, entre os quais o EUA, e da NATO, diversa informação relacionada com as ameaças de segurança, as estratégias de defesa da Aliança, seus recursos humanos e bélicos, nomes de suspeitos terroristas … são alguns exemplos dos conteúdos do material. Frederico Carvalhão Gil era um analista que podia ter acesso a grande parte desta informação.

O que vendeu aos russos ao certo, está por apurar, mas a verdade é que a espionagem para SVR durava há vários meses e esse pode ser um sinal que aos documentos que passava eram do interesse de Putin. A dimensão dos “estragos” só será percecionada depois de serem analisados os documentos que estão agora na posse dos investigadores da PJ .

Outra situação a ter em conta, e que será também avaliada pelos dirigentes das secretas portuguesas em conjunto com a PJ e com o Ministério Público, é se não houve fugas relativamente a espiões portugueses, colegas de Carvalhão Gil, vulnerabilizando a sua segurança.

Foi uma das operações mais sensíveis, discretas e complexas levada a cabo pelo Ministério Público e pela Polícia Judiciária (PJ). O tiro de partida para esta operação, a fazer lembrar os tempos da “Guerra Fria”, foi dado pelo próprio chefe máximo das secretas portuguesas, Júlio Pereira, quando pediu à Procuradoria-Geral da República que investigasse, quando as suspeitas em relação a Carvalhão Gil começaram a ser evidentes.

Amadeu Guerra, o diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), delegou nos dois procuradores com mais experiência em matérias de terrorismo e contraespionagem, João Melo e Vítor Magalhães. Quem executou a investigação foi a UNCT, dirigida por Luís Neves, que mandou a Itália inspetores seus para apoiarem a polícia italiana nesta operação internacional.

Um café em Roma

Vigilâncias, escutas, seguimentos, que duraram vários meses (a investigação terá sido iniciada em outubro/novembro) levaram ao culminar da designada operação “Top Secret”, este fim de semana em Roma. No sábado, quando estava acompanhado do agente russo, num discreto café de um hotel , junto ao rio Tibre, foi surpreendido pelos polícias italianos. Não ofereceu resistência e passou o fim de semana na prisão até ser ouvido, segunda-feira, em tribunal. A ambos foi decretada a prisão preventiva e aguarda-se a extradição, pelo menos do português, para Portugal. Carvalhão Gil entrou para o SIS no final dos anos 80 e frequentou o segundo curso das secretas, sendo um dos quadros mais antigos. Tem 57 anos e passou por vários departamentos, entre os quais o de contraespionagem e de contraterrorismo. É licenciado em filosofia e tem um mestrado relacionado com a religião. Na sua página do Facebook partilha publicamente fotografias suas e não esconde a sua simpatia pelos países da antiga União Soviética. Há links da Russia e da Georgia, por exemplo.

Nos serviços era conhecido pelo seu tom crítico o que lhe tinha causado o seu afastamento de cargos de grande responsabilidade. O ex-diretor do SIS Rui Pereira ( e ex-ministro da Administração Interna), chegou mesmo a afastá-lo do cargo de diretor de área do SIS, tendo sido a última vez que ocupou um lugar de chefia. (dn)

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