Enterros clandestinos aumentam em Luanda

Cemitérios clandestinos. Um perigo à segurança e integridade dos cidadãos. (Foto: Pedro Nicodemos)

A distância os separa da zona urbana e, por isso, alguns espaços foram transformados em cemitérios. Há vontade de se organizarem, mas, ainda assim, muitos são os casos de enterros realizados na clandestinidade. É a realidade dos Bitas.

Cemitério do Bita Tanque está cheio e os enterros são feitos noutros locais

Cemitério do Bita Tanque está cheio e os enterros são feitos noutros locais

Na comuna do Bita Progresso, pertencente ao município de Belas, chama a atenção a quantidade de campas que estão entre a unidade de Polícia e a escola Sonho de Maria. O espaço não foi oficialmente consignado como cemitério. Segundo os moradores, as pessoas simplesmente acostumaram-se a realizar enterros naquele terreno que pertence a alguém. Hoje está superlotado. “Nós, quando chegamos aqui no bairro o cemitério já existia”, disse o director da escola, Osvaldo Bernardo. “Sabemos que já não realizam enterros desde 2012, mas, como viram, é um espaço aberto e, infelizmente, as crianças brincam neste terreno. O espaço devia ser vedado, mas não temos ainda o pronunciamento da administração”.

Grande parte dos enterros realizados naquele espaço não foram registados. Por outro lado, e por ser prática comum naquela zona, os moradores do bairro do Cacáti procuram organizar-se. Existe também um cemitério no bairro que surgiu na clandestinidade, mas que, dada as frequentes queixas de enterros em plantações, dos camponeses locais, há três meses os moradores decidiram criar uma comissão de gestão do recinto santo. Mesmo assim, “muita gente aproveita-se da noite para realizar enterros clandestinos”, queixou- se Manuel Gando, indicado como responsável do cemitério do Cacáti. Ele é morador daquele bairro há 33 anos e diz que o cemitério existe desde 1978, mas só há três meses começaram a se organizar e a registar os enterros. “Antes, qualquer um realizava enterros porque muitos não têm condições de transportar o corpo até à cidade e pagar um espaço nos cemitérios oficiais”, disse.

“Eles vêm e enterram no espaço dos camponeses, já que estes constantemente se queixam disto”, acrescentou. Agora que estão organizados, cobram 2000 kz para o enterro dos adultos e 1500 kz as crianças. O espaço é de 100/25m e junto do mesmo há várias áreas de cultivo. “Há indivíduos que desordeiramente enterram no espaço que não abrange o cemitério. Temos ouvido muitas reclamações de camponeses que encontram corpos na sua zona de cultivo”, também queixou-se o morador Cirilo da Silva.

‘Não choram para não serem apanhados’

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Vasco Carlos, comissão de moradores

Nem a presença dos fiscais tem intimidado “os clandestinos”, aliás, de acordo com o responsável, os que enterram às escuras não respeitam os fiscais, alegam que “eles não são nada, porque o cemitério nunca teve administração”. Viera, um dos jovens que trabalha como fiscal do referido cemitério, disse que muitos são os que aparecem à noite, depois de já terem abandonado o posto, para enterrarem os seus entes queridos. “Estacionam o carro, cavam o buraco e não choram para não serem apanhados. Nós ficamos no cemitério até às 19:00h, as pessoas aproveitamse e aparecem depois deste horário”, sublinhou. O cemitério do Cacáti já está com pouco espaço e é tido como o segundo do Bita. O espaço não está vedado e muitos enterros foram realizados ali também sem registo.

Os clandestinos que substituem os oficiais

O terceiro cemitério da zona está no conhecido bairro Bita Tanque. Também é antigo, existe desde 1982 e foi aberto, na altura, quando uma família tinha perdido cinco filhos simultaneamente, segundo o que contam os moradores. Também não é um espaço oficial, a senhora enterrou os filhos e posteriormente todos passaram a realizar funerais no local. “É um espaço que não está registado na administração, temos também recebido reclamações dos camponeses sobre enterros que são realizados junto aos seus terrenos, porque já não há espaço no referido cemitério”, disse Vasco Carlos, coordenador do Bita Tanque. Quando o bairro que coordena estava na jurisdição de Viana, dadas as reclamações que fez chegar a administração, ficaram de disponibilizar um espaço maior para os enterros, mas desde que passou para o município de Belas o processo foi arquivado. “O espaço foi ocupado pelo Ministério do Ambiente. Vedaram-no, apesar de antes terem lá sido realizados enterros. Não sabemos como ficam as famílias que têm os seus entes queridos sepultados naquele espaço, após fazerem as construções que querem fazer”, acrescentou. A grande preocupação está na cedência de algum espaço para continuarem a realizar os funerais, porque fica muito distante, segundo os moradores, saírem do Bita até ao Benfica, por exemplo, para enterrar no cemitério dessa comuna. “Fizemos tais enterros, que muitos chamam de ‘clandestinos’, porque não há outro espaço. Por isso pedimos que o Governo nos ceda um ou crie mesmo cemitério de raiz aqui nos Bitas”, finalizou Vasco Carlos. (opais)

Por: Romão Brandão

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