Debate sobre Brexit confunde eleitores britânicos

Rivais no referendo: ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, e primeiro-ministro britânico, David Cameron (PA)

Previsões catastróficas dominam campanhas pró e contra a permanência do Reino Unido na UE, a um mês do referendo. Forma como políticos conduzem debate contribui para aumentar incerteza na população.

Países fazem planos de contingência para todos os tipos de emergências, incluindo terrorismo, crises financeiras e desastres naturais. Mas, até recentemente, o governo britânico declarava com convicção que não iria colocar qualquer plano em acção caso a população opte, no dia 23 de Junho, pela saída do Reino Unido da União Europeia.

Embora o Ministério da Fazenda britânico finalmente tenha admitido no início deste mês que se apressa em avaliar o risco de uma eventual volatilidade do mercado financeiro no caso da vitória do voto pela saída, tem havido pouca discussão sobre como o Reino Unido iria renegociar o seu lugar na UE caso o Brexit não ocorra.

Em vez disso, as primeiras seis semanas de campanha formal foram marcadas por incessantes previsões catastróficas de ambos os lados do debate.

Os eleitores britânicos foram advertidos de implicações financeiras e sociais terríveis, caso o país continue ou saia do bloco de 28 membros – algo que muitos eleitores reclamam de ter levado a uma grande confusão. Por exemplo, há a previsão de que milhões de novos migrantes entrarão no país, caso o Reino Unido continue na UE. Mais recentemente, o ministro das Finanças George Osborne disse que os preços de imóveis podem cair até 18% no caso de um Brexit.

“Enquanto a definição sobre o que um Brexit significará não é especificada, ele continua a ser fonte de incerteza e faz com que as pessoas especulem na direcção que quiserem”, afirma Iain Begg, professor da London School of Economics. Begg faz parte da iniciativa “UK in a Changing Europe”, que promove pesquisas independentes sobre as relações entre Reino Unido e União Europeia.

Debates polémicos

Além das previsões negativas, também marcam o debate os confrontos entre o primeiro-ministro britânico, David Cameron, que lidera a campanha Remain (permanecer) e o ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, que defende ferozmente a saída do bloco europeu. Johnson acusa Bruxelas de ter objectivo similar ao do ditador nazista Adolf Hitler: criar um “super-estado”.

Begg disse que daria pouco crédito a lutas internas ou às previsões catastróficas que estão sendo feitas na campanha, por considerar improvável que um Brexit ocorra repentinamente. Em vez disso, ele diz que a medida accionaria o artigo 50 do Tratado de Lisboa.

“A rota de saída prescreve uma negociação de dois anos sobre como ela ocorrerá e o que colocar no lugar dos acordos já existentes”, explica Begg. Ele acrescenta que, dessa forma, o Reino Unido teria tempo para resolver as questões relacionadas com o comércio, a livre-circulação de pessoas e para efectuar ajustes na segurança social. Tudo seria “posto em disputa”, e os países da UE poderiam punir o Reino Unido por sua decisão de sair.

“Mas o resultado mais provável é que o Reino Unido negocie um acordo semelhante ao de suíços, noruegueses e islandeses”, diz Begg. “Algo nos moldes do Espaço Económico Europeu, o que daria uma possibilidade razoável de acesso contínuo dos britânicos à Europa”, além de um acordo de livre-comércio.

O prazo poderia, portanto, ser superior a dois anos. Em Março, o ex-secretário de Gabinete do governo Gus O’Donnell disse à BBC que uma saída do Reino Unido pode levar até dez anos para ser negociada. Muitos académicos acreditam que os tratados da UE já existentes iriam continuar vigorando até a finalização do Brexit.

Poucos precedentes

Os eleitores têm poucos precedentes como exemplo para formar sua opinião. O único país a deixar a União Europeia até agora foi a Gronelândia, que levou três anos para renegociar sua relação com o bloco após a separação, em 1985.

“A Gronelândia foi um caso muito especial, pois ganhou maior autonomia da Dinamarca e, simultaneamente, se separou da UE”, observa Begg. “A Gronelândia tem uma população de cerca de 56 mil pessoas, e seu único interesse (nas negociações com a UE) é a pesca.” Já o Reino Unido, com uma população de 64,1 milhões, é a segunda maior economia da União Europeia.

A exactamente um mês da abertura dos locais de votação, a campanha pela permanência na União Europeia recuperou uma liderança considerável nas pesquisas de opinião, que têm mostrado repetidamente previsões contraditórias. No sábado, a casa de apostas William Hill reduziu suas chances para um Brexit para 7 por 2, indicando uma chance de apenas 22% para uma saída do Reino Unido da União Europeia.

Mas pesquisas de opinião no Reino Unido erraram em várias ocasiões anteriores – mais recentemente, ao deixarem de prever que os conservadores do primeiro-ministro David Cameron voltariam ao poder em 2015. Begg também acredita que o resultado do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia também é algo difícil de se prever.

“Referendos são muito imprevisíveis, e eles podem dar errado por razões muito estranhas, como vimos na França e duas vezes na Holanda, nas votações sobre o Tratado Constitucional da UE”, lembra Begg. “E, para um governo, é muito difícil colocar o génio de volta na garrafa, depois que ele saiu dela”, compara. “O medo é de que apareça algo totalmente inesperado que, de repente, mude a opinião dos eleitores pelas razões erradas.” (DW)

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