Cientistas descobrem mosca que “rouba” alimentos de plantas carnívoras

(WIKIPEDIA)

A natureza nos surpreende às vezes e agora demonstrou como se pode viver às custas de um inimigo: uma equipe de entomologistas e botânicos brasileiros, espanhóis e alemães achou no Brasil larvas de uma mosca que vivem nas folhas pegajosas de plantas carnívoras e que, além disso, “roubam” seu alimento.

Esta mosca pertence à família dos sírfidos (comummente moscas das flores) e suas larvas são “comensais não convidados” das droseras e dioneias, cujas folhas estão cobertas por vários tentáculos que segregam substâncias pegajosas que simulam ser gotas brilhantes de orvalho, um isco maquiavélico para atrair e capturar os insectos.

No entanto, as larvas estudadas “conseguem ser imunes ao letal adesivo das droseras e roubar o alimento, o que tecnicamente se denomina cleptoparasitismo”, explicou à Agência Efe um dos pesquisadores participantes desta descoberta, Santos Rojo, da Universidade de Alicante (UA).

“São conhecidos vários casos de cleptoparasitismo na natureza, mas este é o primeiro no qual uma mosca é capaz de roubar as presas capturadas mediante secreções adesivas de uma planta carnívora que se alimenta de insectos”, afirmou Rojo.

Quando finalizam seu desenvolvimento, estas larvas “ladras” se deslocam à parte inferior das folhas que, ao não ser pegajosa, não representa nenhum perigo para a continuação de seu ciclo biológico.

Segundo informaram à Efe fontes da UA, esta mosca foi descrita no Brasil em 1836, mas passaram-se 180 anos para poder documentar seu ciclo biológico pela primeira vez.

Apesar de ter sido revelado este enigma, “a pesquisa continua com o estudo de outros aspectos, como a razão da ‘imunidade’ às substâncias adesivas das planta ou se outras espécies compartilham este tipo de hábito”, disse Rojo.

O achado foi publicado na revista científica “Plos One” e é fruto de uma parceria na qual participaram cientistas do Departamento de Ciências Ambientais e Recursos Naturais da UA, da Botanical State Collection de Munique, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, do Museu Alexander Koenig em Bonn e do centro Illumina, San Francisco (EUA).

O trabalho de campo se desenvolveu em zonas montanhosas do estado de Minas Gerais (sudeste do Brasil), embora, segundo Rojo, “seja provável que esta incomum relação insecto-planta possa existir em outras zonas da América do Sul, já que tem um enorme biodiversidade da qual os pesquisadores quase não estão arranhando sua superfície”.

Esta descoberta “representa um salto qualitativo no estudo da biodiversidade da América do Sul e permite entender as rotas evolutivas e a formação de novas espécies neste grupo de insectos”, destacou o pesquisador da UA.

Também é importante do ponto de vista da conservação de habitats, já que agora se pode detectar esta relação que antes passava despercebida e que tem interesse em nível botânico e entomológico, segundo Ximo Mengual, outro participantes desta pesquisa.

Muitas outras espécies de moscas de flores são inimigas naturais de pulgões e outras pragas com interesse agrícola.

Segundo Rojo, conhecer seu ciclo biológico em detalhes “pode apresentar novos dados aplicáveis a espécies predadoras de pragas no mundo todo “.

Os pesquisadores estudam agora se pode existir alguma relação positiva entre as droseras e este tipo de mosca.

“As larvas não apresentam nenhum nutriente extra à planta carnívora e não quantificamos ainda o que supõem estes ‘roubos’, mas de uma maneira ou outra devem ser compensados, pois não são observados danos aparentes. Uma hipótese é que os adultos da mosca podem ajudar à polinização das flores deste tipo de droseras”, apontou Rojo.

Uma das espécies de planta carnívora onde foi feito este estudo é uma das ‘Top 10’ de espécies seleccionadas no ano passado de entre as descobertas no mundo todo, disse à agência Efe Andreas Fleischmann, também co-autor do trabalho.

As droseras ou plantas do orvalho do sol estão presentes em todos os continentes, mas a maioria apresenta uma distribuição tropical. (EFE)

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