Chico Coio: Voz do semba que se esquece

JOSÉ LUÍS MENDONÇA Director de "Cultura" (Foto: D.R.)

Foi preciso falecer, no passado dia 6 de Maio, o músico Chico Coio, para ficarmos a saber que foi vocalista, baterista e exímio executante da dicanza. Que em vida publicou dois álbuns discográficos, “Sofrimentos” e “30 Anos Depois”, durante 40 anos de carreira.

Que deixou fama plantada na Rua do Grémio, no Sambizanga, seu local de residência. Foi preciso morrer o homem, para a imprensa dedicar-lhe o espaço que em vida merecia. Foi preciso Chico Coio morrer para ficarmos a saber que entrou para o mundo da música no ano de 1965, no agrupamento África Ritmos.

Que era natural da província de Luanda. Que também integrou os agrupamentos Ndimba Dya N’gola e Angolenses. Que foi autor de sucessos como N’ guxi Tuasakidila e N’Dalatando e se notabilizou no musical angolano no período de luta anti-colonial e pós independência com mensagens que apelavam à resistência ao colonialismo e que foi nesta época em que, através da mú- sica, fez história.

Não sabíamos nada disso. Chico Coio era uma sombra da Música angolana. Fomos à Internet, em busca de dados sobre a vida de Chico Coio e ficamos a saber que não conseguia viver da música. Numa entrevista publicada no Canalsambizanga, Chico Coio esclareceu um dia que “A nova geração pouco sabe quem foi Chico Coio.”

Para contrapor-se ao esquecimento dele e de seus pares, andou ligado à Associação Voz do Artista. “É uma instituição que tem como objectivo apoiar os artistas angolanos desfavorecidos.”

Ora, que noção temos nós de “artista angolano desfavorecido”. E o modo como termina a entrevista é bem sintomático da situação que ele e outros cultores da música de raiz angolana, da música em língua nacional e ritmada pelos instrumentos como a dikanza e o ngoma, vivem nos dias de hoje: “Viajei por todo o país e no estrangeiro. Tanto na era colonial como depois da independência.

(D.R.)
(D.R.)

Hoje estou reduzido a este espaço”. Foi preciso ele morrer para nos lembrarmos do seu nome. Mas se a morte é o destino comum de todos nós, há que abrir os espaços de actuação dos artistas da geração de Chico Coio, enquanto eles estão em vida. Todos nós sabemos que “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e que “todo o mundo é composto de mudança”, como bem disse um poeta português.

Mas, que mudem os tempos e mudem as vontades, sem deitar para o lixo a obra dos que, no tempo da opressão colonial, levantaram a bandeira do nacionalismo cultural, cantando nas línguas da terra as coisas do dia-a-dia, ao ritmo do coração africano.

A nova geração tem de conhecer todos os Chicos Coios que compuseram música. Tem de conhecer a tradição, o passado, para não cair no saco global da americanização cultural do planeta, pois vemos, com mágoa, grande parte da juventude virada para o Hip Hop, o House, o RNB, o Rap e o Pop e bué deles a cantar em inglês.

Aqui no jornal Cultura, ainda somos dos que fazem finca pé nos princípios fundamentais da Carta do Renascimento Cultural Africano que, no seu Artigo 13º, destaca: “1. Os jovens representam a grande maioria da população africana.

É no seio deles que se encontra o recurso essencial da criação contemporânea; 2. Os Estados comprometem-se a dar o justo valor às expressões culturais da juventude e a responder às suas expectativas, em conformidade com a cultura e os valores africanos.”

Por seu turno, o Artigo 17º destaca que “A formação profissional dos artistas criativos deve ser melhorada, renovada e adaptada aos métodos modernos, sem que seja rompido o cordão umbilical com as fontes tradicionais da cultura.”

Por acreditar nestes princípios traçados pelos sábios da Cultura do Continente, é que somos contra o esquecimento do Semba e dos seus cultores mais puros. Apelamos para que os órgãos de Comunicação Social estatais e privados passem muito mais música de África e dos autores da linha de Chico Coio, várias vezes ao dia, com toda a normalidade, sem fazer deste género e dos seus cultores figuras de museu mediático, onde o utente só os vê e só os escuta em programas especiais. (cultura)

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