Bélgica tenta melhorar imagem após atentados

(DPA)

Dois meses depois dos ataques, país planeia campanha publicitária para se livrar da pecha de “Estado falido” e recuperar confiança de turistas e investidores. Para muitos, porém, é necessária uma mudança estrutural.

Nos dois meses desde os ataques de Bruxelas, a reputação da Bélgica desmoronou. Os lapsos de segurança por parte do governo do país e as revelações de que a maioria dos terroristas – não só em Bruxelas, mas também nos ataques de Novembro em Paris – tinham vínculos com o notório distrito de Molenbeek mancharam a imagem belga.

Desde Março, as cenas de patrulhas militares nas ruas da capital belga, o caos causado pelo fechamento do aeroporto durante semanas e as restrições nos transportes públicos levaram muitos turistas a evitar Bruxelas, com relatos de uma queda de 40% no ramo de hotelaria. Uma série de greves no aeroporto recém-reaberto, em Abril e no início de maio, também não ajudou muito.

Em outra greve, agora em sua quarta semana, funcionários de penitenciárias em Bruxelas e na região francófona do sul cruzaram os braços, obrigando novamente o Exército a ser acionado para manter a segurança. As condições deterioradas nas prisões superlotadas da Bélgica têm provocado críticas das principais organizações europeias de defesa dos direitos humanos.

Enquanto isso, um plano muito elogiado do prefeito de Bruxelas, Yvan Mayeur, para transformar uma parte considerável do centro da cidade em uma das maiores zonas de pedestres da Europa está ameaçado, devido a disputas políticas e à oposição do comércio, preocupado com o impacto económico do projecto.

A isso tudo se soma os vários fechamentos de importantes túneis rodoviários após anos sem obras de manutenção, que levaram ainda mais tráfego às já congestionadas ruas. “Reformas urgentes” em alguns dos túneis do centro económico da Bélgica devem durar até o final do ano.

Esses e muitos outros contratempos graves levaram críticos dentro e fora do país a se referir à Bélgica como um “Estado falido”. É uma pecha que o primeiro-ministro belga, Charles Michel, rejeitou veementemente nas semanas posteriores aos ataques, ao mesmo tempo reconhecendo que ter “muito trabalho a fazer”.

Concentrar-se no positivo

Uma dessas tarefas parece ser um exercício de rebranding. Na sexta-feira passada (20/05), o governo de coligação de Michel anunciou o lançamento de uma campanha publicitária de 4 milhões de euros para “melhorar a imagem da Bélgica”. A campanha, que deve durar dois anos, é conhecida provisoriamente como “Bélgica positiva” e deverá ser lançada em Outubro, visando “responder às preocupações dos sectores do turismo e de negócios” – em outras palavras, para acalmar as preocupações de investidores e turistas e destacar tudo de bom que a Bélgica tem para oferecer.

Um porta-voz do governo belga disse à DW que a campanha ainda está em seus estágios iniciais e que detalhes precisam ser finalizados. Ele ressaltou, no entanto, que representantes do governo promoveriam interesses da Bélgica no exterior, incluindo em grandes eventos internacionais, como os Jogos Olímpicos e o Tour de France, que passou pela Bélgica no último verão europeu.

Embora, aparentemente, de âmbito nacional, boa parte da campanha, sem dúvida, será dedicada à reabilitação da imagem de Bruxelas, como ressalta Denis Dubrulle, director de criação da agência de publicidade Federate. “A maioria dos estrangeiros associa a Bélgica a Bruxelas”, disse à DW. “Então, para corrigir a imagem do país, primeiro você precisa corrigir a imagem de Bruxelas.”

Dubrulle afirma que sua agência, sediada em Bruxelas, pode estar interessada em tomar parte na campanha – mas somente se ela também for além de bonitas imagens e vídeos promocionais.

“É realmente importante ganhar a confiança de novo, para os turistas e também para investidores”, sublinha, acrescentando que a campanha deve incluir uma visão de longo prazo sobre para onde o país deve ir e mostrar que Bruxelas é uma cidade segura para seus cidadãos, turistas e investidores internacionais e que ficou “mais forte depois dos ataques.”

“Quanto mais concretas as acções, melhor”, observou. Ele cita como exemplos campanhas de média social direccionadas ao turismo realizadas por outras agências – entre elas #diningforbrussels ou #sprouttobebrussels – que conseguem levar as pessoas a falarem sobre Bruxelas sem mencionar os ataques. “Todas essas coisas ajudam a mostrar que ainda estamos aqui e que ainda há muitas pessoas que estão felizes de estarem aqui.”

Mas há aqueles que pensam que os problemas da Bélgica são mais profundos do que um simples problema de imagem. Em uma carta aberta no diário Le Soir, na semana passada, três proeminentes executivos belgas disseram que a divisão linguística do país e sua “estrutura política irracional complicada”, onde “ninguém é realmente responsável, mas [cada projecto] pode facilmente ser bloqueado” é também parcialmente culpada.

Eles citaram o estado lastimável de Bruxelas, com seus 19 distritos, seis zonas de polícia e vários níveis de governo – que levaram a arrastadas disputas sobre a zona de pedestres e os túneis, entre outros assuntos – como um exemplo de vergonha para o país.

Então, em vez de simplesmente fazer um rebranding em Bruxelas, esperando pelo melhor, a capital belga deve limpar os obstáculos políticos e seguir seu próprio caminho? Essa é uma ideia atraente, mas não necessariamente a solução correta, acredita Jean-Luc Crucke, membro do partido centrista do primeiro-ministro Michel.

Junto com seu colega de partido Pierre-Yves Jeholet, Crucke propôs que a Bélgica seja reorganizada em quatro regiões distintas – francesa, flamenga, alemã e uma “emancipada” Região de Bruxelas-Capital, livre de seus actuais laços com a francófona Federação Valónia-Bruxelas. Segundo a proposta, as comunidades reorganizadas iriam “clarificar e simplificar” responsabilidades políticas e “manter o país unido”, em vez de dividi-lo ainda mais.

“Não há absolutamente razão alguma para que Bruxelas não tenha os mesmos direitos e responsabilidades que as regiões de Flandres e Valónia”, afirma Crucke, vice-presidente do Parlamento da Valónia, em entrevista à DW. “Esse é o caso na Alemanha, na Suíça, e não há nenhuma razão pela qual não possamos fazer isso aqui.”

Sobre o rebranding de Bruxelas, Crucke acredita que muito ainda precisa ser feito para mostrar que a capital sabe para onde está indo e quais são seus pontos fortes, que ele acredita serem o multi-culturalismo e do multi-linguismo. “Bruxelas não é só a capital da Bélgica, é também a capital da Europa”, afirma. “Não é do interesse de ninguém que o centro da Europa permaneça estagnado.” (DW)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA