BCE tem preconceito em relação a Angola

O presidente do Millennium Atlântico critica o regulador europeu. Admite que bancos angolanos têm de ter boas práticas. E diz que o Novo Banco seria um bom negócio para o BCP. É convicção de Carlos Silva que a fusão entre o Millennium Angola e o Banco Atlântico foi só o início de um processo de consolidação que o mercado angolano vai ter de atravessar, mais cedo ou mais tarde.

“Há instituições fortes em Angola, além do Millennium Atlântico: o Standard, o BFA – que é um bom banco apesar de estar muito exposto à dívida do país -, o Económico [ex-BESA].” E são também apenas quatro (incluindo já o BMA) das cerca de 30 instituições que nasceram no país nos últimos anos – razão pela qual a consolidação é inevitável. “Nós dobrámos a esquina e outros se seguirão.”

Para o BMA o que se segue? “Três meses de grande atividade para consolidar a fusão” e depois mais três, seguindo o “caminho traçado para o mandato” desta administração que acaba de começar. Nesse caminho há sobretudo muita vontade de construir valor para Angola, financiando empresas e famílias para criar emprego, gerar desenvolvimento e crescimento – “é isso que vou deixar aos meus filhos”, diz Carlos Silva, pai de três raparigas e um rapaz.

Fusão com visão estratégica

Há muito para fazer em Angola, e para o banqueiro, parte desse de-senvolvimento é responsabilidade dos bancos. Durante uns tempos, diz, inverteu-se a lógica e o lucro pelo lucro passou a ser o fiel da balança. Para Carlos Silva isso não faz sentido. É preciso “gerar resultados consolidados e sustentáveis, que se constroem com empresas fortes, com uma economia robusta, com desenvolvimento e emprego”.

Na cidade financeira de Talatona, Luanda, na sede do banco acabado de estrear no mercado angolano, não parece ser hora de jantar. Não para a equipa do presidente do conselho de administração do Millennium Atlântico, que há de continuar a receber pessoas bem para lá das 21.00 – entrou às 05.00, conta. É um dia especial, e mais do que cansado, admite estar “aliviado” – “foram meses de trabalho muito intenso” para conseguir completar a fusão. E concluiu-se dentro do prazo previsto, apesar da baixa do preço do petróleo, da crise financeira que travou o ritmo de crescimento do país e de alguma tensão política gerada pela negociação da recomposição acionista do BPI (e, claro, do angolano BFA).

Sobre este tema, Carlos Silva, que também é vice-presidente do BCP, é cuidadoso. Começa pelo papel conciliatório de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa no processo – “vejo com muita normalidade” que o chefe do governo e o chefe de Estado participem nos processos de forma a criar condições para o crescimento, e isso também passa por captar investimentos para o país. Dito isto, não poupa o diploma BPI: um caso “diferente, que constitui uma mudança das regras de um negócio a meio do jogo”, com prejuízo para alguns acionistas. O que gera também uma situação de imprevisibilidade para todos os investidores em Portugal, “e isso é um risco”.

Sucessão e preconceito

Quanto aos perigos que identifica no mercado angolano, a sucessão prevista para 2018, ano em que o presidente José Eduardo dos Santos anunciou que deixará a liderança, não está na lista. Carlos Silva acredita que acontecerá naturalmente e sem sobressaltos e que esse caminho preparatório, para não deixar o país em grande convulsão, já está a ser seguido. O que está então entre as suas preocupações? O crescimento do sistema financeiro angolano num cenário de solidez e credibilidade – e o primeiro movimento de consolidação na banca angolana ter sido realizado com um banco português, reconhecido pelos reguladores internacionais, é visto como um sinal muito importante.

Ainda assim, acredita que as instituições angolanas ainda têm um caminho a percorrer. “O sistema bancário é jovem e tem de aprender a corresponder às normas e às boas práticas internacionais de forma regular.” Dito isto, o banqueiro, que divide o seu tempo entre Lisboa e Luanda, admite que há, da parte do BCE, algum preconceito em relação a Angola. Mas também em relação a Portugal. “Acredito que para Frankfurt seja mais simples e dê mais segurança ver os bancos portugueses num contexto ibérico – parece haver vontade de passar o centro estratégico de decisão de Lisboa para Madrid.”

Como é que isso se evita? Reforçando as instituições que mantêm capitais portugueses, nomeadamente com a fusão do BCP com o Novo Banco. “Seria uma forma de fortalecer os capitais portugueses na banca”, defende Carlos Silva, que admite que o banco em que é vice-presidente está a analisar a hipótese de entrar na corrida, ainda que, para fazê-lo, tenha de contar com a aprovação do Banco de Portugal, do BCE e da DGComp. Se o Novo Banco pudesse ser vendido “ao preço que aparece no registo”, 3,5 mil milhões de euros, a nacionalidade do dinheiro pouco importaria. Mas na quase impossibilidade de isso acontecer, se é para vender a preço de saldo, “então que se dê oportunidade a quem no fim do dia tem de pagar o pato”. Sendo uma grossa fatia do fundo de resolução paga com a contribuição dos bancos nacionais, é preferível retirar algum valor desse dinheiro.

Ainda que o foco do BCP seja, neste momento, saldar a dívida com o Estado – restam apenas 750 milhões dos três mil milhões de dívida que se vence em 2019, tendo Nuno Amado anunciado nesta semana a intenção de antecipar já um terço -, comprar o Novo Banco seria um negócio “interessante”. Que, obviamente, implicaria um esforço financeiro grande dos investidores. Os acionistas teriam de avaliar “se querem investir agora e ficar com um banco, crescer e gerar negócio e tirar sinergias dessa fusão” ou pagar uma fração disso através do fundo de resolução e no fim do dia ter zero ganhos. Para Carlos Silva, o governo “tem aqui um papel importante na definição do que quer para a banca portuguesa”.

Angonoticias

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