Abre portas o Museu da Moeda

(D.R.)

A história de uma comunidade, seja qual for o modo de organização política, também pode ser contada pela forma como os seus integrantes transaccionam bens e serviços.

Nem sempre foi assim, mas é comum nos tempos hodiernos que sejam usadas moedas, feitas em metal fino, numa forma circular e achatada, com imagens gravadas em cada verso representando personagens e momentos importantes da história da comunidade em que ela tem valor comercial.
E nada melhor do que um museu para ajudar a reunir o acervo de moedas ou qualquer que tenha sido o meio de troca num dado período da história de uma sociedade. Hoje, o país ganha o seu primeiro Museu da Moeda, um projecto impulsionado pelo Banco Nacional de Angola, com o objectivo de reunir num mesmo espaço a história do país contada a partir da evolução da sua moeda ou de outro meio de troca.
Do Zimbo ao Kwanza, passando pelo Sal, o Cobre e o Sisal, incluindo os Reis, o Angolar e o Escudo, é a História de Angola, desde o Reino Kongo à actual República, reunida num espaço de exposição permanente, com outros predicados, além da beleza arquitectónica e das preciosidades ali expostas.
O Museu da Moeda é uma iniciativa do BNA, cuja construção arrancou em Janeiro de 2013. O projecto foi aprovado em Conselho de Ministros, em Abril de 2011, no quadro da valorização do património histórico e da cultura angolana.
O empreendimento ocupa uma área bruta de construção de 95 mil metros quadrados. Preenchem a paisagem exterior as Torres Kianda, que são quatro torres de 12 pisos para escritórios, uma galeria comercial e um jardim.

Ponto turístico

Em breves declarações ao Jornal de Angola, o director nacional dos Museus falou do empreendimento que é hoje inaugurado como “um ganho para todos, na actual fase do desenvolvimento do país e da sua História”. Ziva Domingos vê no Museu da Moeda uma “mais-valia no que se refere à valorização do património cultural”, mas também como “lugar de visita onde é possível conhecer um pouco da nossa História”.
O historiador acrescentou que o Museu da Moeda corresponde, em parte, à dinâmica actual do país, virada, especialmente, para a formação dos jovens. “Um museu tem exactamente essa função: formar. É preciso mostrar às pessoas do que é feita a História do país ao longo destes anos”, disse.
O Museu, explicou, é uma amostra da evolução da moeda angolana, antes e depois da Independência, assim como alguns símbolos utilizados antes da chegada dos colonos nas trocas comerciais. Em relação aos ganhos que o empreendimento vem dar ao país, Ziva Domingos realçou o sector do turismo, que sai reforçado com mais uma referência no roteiro turístico de Luanda, mas também da academia, pelo valor do seu acervo ali reunido.

“O aumento do número de turistas e investigadores interessados em conhecer a História de Angola, através do Museu da Moeda, não representa só uma forma de incentivar o crescimento da economia nacional, mas também de divulgar, além-fronteiras, a cultura angolana”, assinalou.

O Kwanza

A primeira unidade monetária nacional, denominada Kwanza, foi criada pela Lei nº 71-A/76 de 11 de Novembro – Lei da Moeda Nacional – em substituição do Escudo colonial. As primeiras cédulas foram emitidas em 1976 pelo Banco Nacional de Angola, iniciando-se a troca da moeda em todo o território nacional, em que 1 Kwanza equivalia a um Escudo.
A retirada do Escudo português e a sua substituição por notas de matiz local representou a afirmação da soberania nacional.

Foram então emitidas notas de valor facial de 1.000, 500, 100, 50 e 20 Kwanzas, para além de moedas metálicas no valor de dez, cinco, dois e um Kwanza. A moeda nacional tinha como fracção o Lwei, correspondendo cada Kwanza a cem Lwei. O Kwanza era representado materialmente por notas e moedas metálicas. O Lwei era representado materialmente por moedas metálicas com valor facial de 50 Lwei.

Marco irreversível

Saydi Mingas, então ministro das Finanças, cujo nome foi atribuído ao largo, declarou a propósito que aquilo representava um “marco irreversível”, porque fazia parte do conjunto de acções previstas para o período pós-independência. Era no essencial a emissão de moeda nacional e a criação de um banco emissor.
O Banco Nacional de Angola surge com a Lei nº69/76. Foi a partir deste diploma que o país passou a dispor de uma instituição exclusivamente responsável pela emissão de moeda e depois de reunidas as condições técnicas foi feito o lançamento oficial do Kwanza, a 11 de Novembro de 1976, tal como disposto nos artigos 8º e 30º da então Lei Constitucional. Mas como havíamos referido, a moeda ajuda a contar a história de uma comunidade e no caso do território que corresponde ao que é hoje Angola, há que assinalar o período colonial, em que a cunhagem das moedas de cobre constava de peças de macuta, ½ macuta, ¼ de macuta e 5 reis, atribuindo-se à macuta o valor de 50 reis. Quanto à emissão de moedas de prata, constava de peças de 12, 10, 8, 6, 4 e 2 macutas, sendo estas, de uma forma geral, semelhantes às de cobre.
Consta que nesse período viviam-se tempos difíceis na então colónia, motivados essencialmente pelo monopólio da moeda. Em 1860, assim dizem os registos da época, a situação económico/financeira em Angola era de facto deplorável.
Havia pouco dinheiro, as receitas que entravam nos cofres públicos eram na sua maioria constituídas por letras e títulos de dívida. Até 1864, a actividade económica em Angola repousava essencialmente sobre os mecanismos do tradicional sistema de permutação de géneros.

Fazendas e Sal

Nesta permutação os meios mais correntes de pagamento eram as fazendas de sisal, o zimbo, as pedras de sal da Quiçama (que corriam em toda a parte) e os libongos. A quantidade de capital circulante, já por si diminuta, em virtude da ausência de indústria, perdia-se nas mãos de meia dúzia de particulares, geralmente contratadores.
Não existiam instituições de crédito, e em virtude disso eram os particulares que, por via de regra, prestavam serviços próprios dos bancos, cobrando pelos empréstimos juros ruinosos. Porém, com a ampliação do comércio e a criação de indústrias em Angola a situação modificou-se.
De 1910 a 1962 lança o Estado colonial português no mercado a emissão “Vasco da Gama”, o “Escudo”, as cédulas do Banco Nacional Ultramarino, as “Ritas” e os “Chamiços”, os “Angolares” e por último, em 1953, o “Escudo”, como unidade monetária.

Museus temáticos

Perto do lugar onde foi construído o Museu da Moeda, que é hoje inaugurado, está em fase de conclusão o futuro Museu e Centro de Ciência e Tecnologia de Luanda, cujas obras foram visitadas em Setembro do ano passado pelo Presidente da República. A avenida 4 de Fevereiro passa a contar com dois museus temáticos, que vêm completar a beleza da Baía de Luanda, que é hoje por hoje o principal cartão postal da cidade capital.
De recordar que a visita do Chefe de Estado às obras do futuro Museu e Centro de Ciência e Tecnologia de Luanda, em que percorreu o edifício praticamente concluído, na antiga fábrica de sabão (Congeral), ficou marcada por um segundo momento: já à saída do edifício, o Presidente procurou saber dos edifícios adjacentes e dos projectos em curso.
O Chefe de Estado deixou bem vincada a necessidade de se harmonizar os projectos em desenvolvimento, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista estético, e ouviu a propósito explicações do ministro da Construção, Waldemar Pires Alexandre, e do Director Geral do Gabinete de Obras Especiais, Leonel da Cruz. (jornaldeangola)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA