A política africana do novo Governo brasileiro

(DPA)

Governos de esquerda devem perder espaço na nova política externa do Brasil. O novo Executivo questiona a relação mantida com países africanos pela gestão anterior. Agora, foco é menos política e mais comércio.

O início da governação interina de Michel Temer, que pôs fim à hegemonia do popular Partido dos Trabalhadores (PT) no comando do Brasil, não reduziu a tensão política no país, mas tem levado ao questionamento de várias posturas dos Executivos dos últimos treze anos.

Durante esse período, as administrações do PT estimularam a relação com os parceiros africanos.

“É bem conhecida a prioridade que o Governo Lula e, de forma mais hesitante, o Governo Dilma deram à aproximação com África”, lembra o especialista em política externa, David Magalhães. “Esta aproximação foi acompanhada da expansão, em primeiro lugar, da rede de representações diplomáticas brasileiras no continente e de uma série de acordos de cooperação na área de saúde, agricultura tropical e desenvolvimento, que possibilitou algumas contrapartidas comerciais.”

Do ponto de vista dos números, a estratégia deu resultado. De 2002 a 2012, o intercâmbio comercial entre o Brasil e África aumentou mais de 400 por cento.

Críticas a perdão das dívidas

Com esta aproximação aumentou também o perdão de dívidas de países africanos com o Brasil, durante os mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. Segundo a Presidente brasileira, o perdão contribuiu para uma relação “muito mais efetiva” com os Estados.

Mas o gesto gerou polémica no Brasil, e o então Governo liderado pelo PT foi acusado por alguns setores da sociedade de agir de forma ideológica, beneficiando Governos de esquerda e até regimes autoritários.

Com a alteração de Executivo, o novo ministro das Relações Exteriores do país, José Serra, engrossou o discurso da época e prometeu mudanças.

Mudanças

Segundo Serra, “a diplomacia voltará a refletir de modo transparente os legítimos valores da sociedade brasileira e os interesses da sua economia ao serviço do Brasil como um todo e não mais das conveniências e preferências ideológicas de um partido político e de seus aliados no exterior”.

O ministro das Relações Exteriores defende, por isso, um novo olhar em relação aos parceiros africanos.

“Estaremos empenhados em atualizar o intercâmbio com a África, o grande vizinho do outro lado do Atlântico. Não pode esta relação restringir-se, como se pretendeu e como é pretendido por alguns, a laços fraternos do passado e a correspondências culturais”, afirmou o governante.

“Ao contrário do que se procurou difundir entre nós, a África moderna não pede compaixão, mas espera um efetivo intercâmbio económico, tecnológico e de investimento. Neste sentido, a solidariedade estreita e pragmática para com os países do sul do planeta continuará a ser uma diretriz essencial da diplomacia brasileira.”

Menos política, mais comércio

Para Sidney Leite, especialista em relações internacionais, a estratégia do Governo interino brasileiro em relação a África focar-se-á mais no comércio e menos na política, estimulada pela gestão anterior.

Desta forma, o professor do Centro Universitário Belas Artes projeta mudanças importantes em relação a Angola e Moçambique, dois países que têm relações históricas com o Brasil e que as estreitaram nos últimos anos.

“São países que apresentam tendências marxistas, de esquerda. Creio que as nossas relações com estes dois países vão sair de uma esfera de predominância e de protagonismo histórico e entrar dentro desta realidade que Serra pretende imprimir ao seu Governo”, diz Leite.

David Magalhães, professor da Fundação Armando Álvares Penteado, também antevê um “desengajamento político” do Brasil em relação a África.

Isso poderá, no entanto, atrapalhar a estratégia económica do ministro José Serra, refere.

“O estudo que Serra encomendou sobre a viabilidade económica de algumas embaixadas na África é um indicativo da preocupação fiscal deste novo chanceler em um momento de crise fiscal, mas também aponta para uma possível diminuição das relações políticas com o continente. Como o comércio com a África depende da presença diplomática brasileira, o chanceler terá de detalhar melhor como o vai ampliar ao mesmo tempo que pretende promover um desengajamento”, afirma Magalhães.

O Governo interino brasileiro explica que ainda não definiu nenhuma ação em relação ao futuro das representações e aguarda o estudo sobre o tema. O novo ministro das Relações Exteriores admite, porém, que o país está sem dinheiro e a prioridade atual seria a criação de empregos e o combate à pobreza local. (DW)

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