A inflação em Angola e a divergência entre monetaristas e keynesianos

(Foto: D.R.)

As políticas que estão a ser adoptadas pelo BNA e pelo Governo têm tanto de monetarismo como de keynesianismo.

Desde os primeiros dias da história económica moderna, a inflação foi um dos assuntos mais discutidos entre os economistas. A importância deste tema deriva do facto da mesma ser um indicador de conjuntura, mede a evolução generalizada dos preços de uma região (economia) ao longo de um terminado período de tempo. As principais escolas de pensamento macroeconómico, monetarista e keynesiana, também falaram sobre o assunto.

A escola monetarista acreditava que a inflação era um fenómeno meramente monetário, causada apenas por excesso de moeda. Por isso, para se controlar a inflação as economias só precisavam gerir muito bem a massa monetária. Por outro lado, a escola keynesiana acreditava que a inflação era também um fenómeno da economia real, isto é, os constrangimentos da economia real também podiam causar inflação.

Durante a grande depressão, dos anos 30, por exemplo, as duas escolas divergiram quanto a melhor política a adoptar para acelerar a inflação da economia norte- americana e gerar crescimento.

Enquanto a escola monetarista dizia que a melhor receita era a adopção de uma política monetária expansionista para aumentar a procura agregada, a escola keynesiana acreditava que a melhor política a adoptar era a política fiscal expansionista. Segundo os monetaristas, a recessão foi provocada por um erro de política monetária, isto é, ao invés de aumentar a oferta de moeda, o Banco Central diminuiu a oferta de moeda.

Os keynesianos acreditavam que a economia americana estava num contexto de armadilha de liquidez, por isso seria inútil usar a política monetária expansionista. Em Angola, nos últimos meses, o debate sobre a inflação reapareceu devido ao aumento acelerado do Índice de Preços ao Consumidor (IPC).

Em Abril a inflação voltou a superar os registos dos últimos 10 anos, depois de atingir 23,60% em Março de 2016, em Abril a variação homóloga do IPC atingiu cerca de 26,41% uma diferença de 18,18 p.p. face ao mesmo período do ano passado, quando atingiu cerca de 8,23%, segundo o relatório do INE.

As categorias que mais variação tiveram em termos homólogos são: saúde com 49,10%; bens e serviços diversos 35%; bebidas alcoólicas e tabaco 34,91%; Educação 31,94%. A nível nacional, o Índice de Preços do Consumidor Nacional (IPCN) mensal atingiu cerca de 3,10%, tendo as províncias com maior aumento sido Luanda com 3,14%, Bengo com 3,10%, Lunda Norte com 3,03%. As províncias com menor variação foram o Huambo 2,33%, Uíge com 2,60% e o Cunene com 2,64%.

O aumento acontece apesar do BNA ter adoptado medidas concretas para o combate à inflação, por via do aumento da taxa de juro directora, aumento do rácio de reservas obrigatórias para 30%, em moeda nacional, conjugados ao esforço do Governo criar um sistema de preços vigiados.

Todavia, em termos mensais a inflação de Luanda reduziu de 3,43% em Março para 3,14% Abril, dando sinais de que a postura contraccionista do BNA e a gestão da depreciação do Kwanza poderão reduzir a inflação homóloga nos próximos meses. No entanto, tal como não era consensual no passado, não é consensual a actual abordagem da inflação em Angola.

Há pelo menos duas correntes que se evidenciam, aqueles que acreditam que qualquer tentativa de redução da massa monetária e encarecimento do crédito só irá causar mais desequilíbrios na economia angolana e os que acreditam que a intervenção do banco central pode gerar estabilidade de preços e crescimento económico, por via dos ganhos de previsibilidade económica gerados pela estabilidade dos preços.

A verdade é que Angola está a passar por um período de depreciação cambial gerado pela redução das reservas internacionais líquidas do país, usadas para cobrir o défice de produção interna.

Como resposta o BNA e o Governo têm adoptado um conjunto de medidas para reduzir o impacto do défice de fornecimento de bens e serviços na economia para mitigar o impacto sobre os preços, porém o impacto das políticas tem algum lag, por isso é de se esperar que as políticas que estão a ser adoptadas agora produzam os seus efeitos dentro de alguns meses, o efeito não é instantâneo.

As políticas que estão a ser adoptadas pelo BNA e pelo Governo têm tanto de monetarismo como de keynesianismo, já que o governo percebe que existe défice de produção interna e está a adoptar medidas para aumentar a oferta interna ao mesmo tempo que está a procura de estabilidade de preços no curto prazo por via da gestão fina da liquidez.

A nossa crise é inversa à crise norte-americana dos anos 30, também conhecida como a grande depressão, pois enquanto aquela foi causada por excesso de oferta (défice de procura) a nossa é uma crise caracterizada pelo défice de oferta (excesso de procura). (opais)

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