A indignação das brasileiras com o governo 100% masculino de Temer

Mulheres que apoiam a presidente afastada Dilma Rousseff participam de protesto em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, no dia 12 de maio de 2016 (AFP)

O governo do presidente interino de Michel Temer mal completou um dia e já tem um problema de imagem: onde estão as mulheres?

Os 24 ministros apresentados à nação em uma cerimônia transmitida pela televisão, apenas uma hora após o afastamento da presidente de esquerda Dilma Rousseff pelo Senado para submetê-la a um julgamento político, tem uma notável similaridade: todos são homens brancos.

“É um governo de homens brancos e isso é bastante assustador”, disse à AFP Ivar Hartmann, um especialista em leis da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. “É a primeira vez desde a ditadura (1964-85) que não há pelo menos uma mulher. Isso é preocupante”.

A chegada do gabinete masculino impressiona tanto porque Dilma, afastada do poder na manhã de quinta-feira depois de uma longa sessão no plenário do Senado, foi a primeira presidenta do Brasil, uma das mulheres mais poderosas do mundo.

Temer, de 75 anos, falou na quinta-feira da necessidade de unificar o país com um governo de centro-direita de “salvação nacional”. Mas a ausência de mulheres e negros – dois grupos que representam mais da metade da população brasileira – imediatamente plantou a dúvida sobre quanta unidade irá haver.

“Este governo mostra ilegitimidade. Mostra que não representa o povo”, disse Raquel Vasconcelos de Castro, uma estudante de 19 anos que participava de um pequeno, mas ruidoso, protesto de mulheres fora do palácio presidencial quando Temer chegou para anunciar o seu gabinete.

Inspiração

Rousseff, que se destacava em um mundo fortemente dominado por homens na política brasileira, não foi conhecida especialmente por ser uma líder feminista, mas impulsionou e obteve a aprovação de leis que castigam o feminicídio e impôs cotas para negros em universidades públicas.

Seu governo não teve uma enorme quantidade de mulheres, mas de toda forma foi o que teve um maior número de representantes femininas na história do país: 15 no total dos cinco anos e meio de governo.

Uma de suas ministras foi Nilma Lino Gomes, a primeira mulher negra a dirigir uma universidade federal antes de assumir a cadeira de Mulheres, Igualdade Social e Direitos Humanos criada por Dilma Rousseff. Um ministério eliminado por Temer.

O mandato de Rousseff marcou a muitas mulheres, incluindo ministras como Kátia Abreu, que na quinta-feira se despediu da cadeira de Agricultura.

“É um momento muito triste que não podíamos sequer imaginar um dia passar. Que a primeira mulher a presidir o Brasil, honesta, capaz, com espírito público, uma mulher de bem, tenha sofrido um impeachment injustamente sem ter cometido nenhum crime”, disse Abreu à AFP com lágrimas nos olhos.

Maria das Neves, uma ativista de 28 anos que chegou ao Planalto para apoiar à Rousseff em suas últimas horas na presidência, disse que “foi muito importante para a jovem geração de mulheres saber que podia alcançar qualquer lugar, incluindo a presidência”.

“Não está só”, assegurou das Neves emocionada. “Representa a todas as mulheres brasileiras”.

Sexismo e política

Rousseff enfrenta um processo de impeachment por ofensa aparentemente técnica, a quebra de leis de contabilidade fiscal. Alguns de seus defensores asseguram que a campanha contra Dilma tenha sido marcadamente sexista.

O popular slogan “Tchau querida” – que na realidade foi falado por seu padrinho político Lula em uma gravação telefônica registrada pela polícia – está carregado de paternalismo, sobretudo quando foi repetido vez e outra pelos deputados que votaram por sua suspensão em um barulhento e zangado Congresso.

“Existem atitudes em relação a mim que não existiram se fosse um presidente homem”, lamentou Rousseff.

Em contraponto, Marcela, esposa de Temer, ex-rainha de beleza e 42 anos mais nova que o presidente interino, tem tido um recebimento atencioso por parte da imprensa brasileira, caracteristicamente anti Rousseff.

“Bela, recata e do lar”, assim ela foi descrita pela revista Veja em um artigo que desatou em uma onda de chacota, mas também de apoio nas redes sociais.

A funcionária pública Ana Paula Faria, que também protestava contra a chegada de Temer ao palácio presidencial, disse que o novo governo refletirá lobbies cada vez mais crescentes no Congresso: os serviços de segurança, os evangélicos e o agronegócio.

“Não estão interessados em mulheres emancipadas”, disse Faria, de 43 anos. “Não respeitam as mulheres e não sabemos o que nos espera”. (AFP)

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