A grande evasão para a independência

Muitos estudantes que fugiram de Portugal, em 1961, passaram pela cidade alemã de Bona (DPA)

Deixar o emprego, os estudos e até os filhos por uma causa com desfecho incerto requer muitos sacrifícios e empenho. Veteranos da luta pela independência dos países africanos de expressão portuguesa contam como foi.

“Deitou um derradeiro olhar pelo quarto onde vivera, viu as malas empilhadas com os seus tesouros, apagou a luz e fechou a porta, sentindo que ao mesmo tempo fechava um capítulo da sua vida”. O parágrafo é de “A Geração da Utopia” de Pepetela. Um retrato do escritor angolano sobre os que embarcaram na “epopeia das lutas pela independência”. Mas podia bem ser um relato sobre o dia em que a cabo-verdiana Maria da Luz “Lilica” Boal deixou Portugal para se juntar ao Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Já lá vão 55 anos.

Nessa altura, Lilica Boal tinha 26 anos e uma bebé de 17 meses. Para trás, deixa a vida de estudante e também a casa para onde se tinha acabado de mudar com o marido, o angolano Manuel Boal, que tal como ela frequentava o curso de medicina.

“Não sabíamos para onde íamos, o que é que ia acontecer”, conta, recordando que “o momento mais duro” foi quando teve de separar-se do bebé. “Mandei a minha filha para a minha mãe, que vivia no Tarrafal, e nós fomos”.

Tal como Lilica, outros jovens cabo-verdianos fogem de Portugal e da ditadura de Salazar para se juntarem à luta de libertação. Integram um grupo de 60 estudantes de Angola e de outras colónias.

A fuga clandestina mudou o futuro dos países africanos de expressão portuguesa. Alguns destes nacionalistas viriam a ser presidentes, ministros, generais ou médicos e teriam um papel relevante na condução do destino dos seus países.

Início da luta armada

A partida aconteceu em junho de 1961. Ano fatídico para o regime do Estado Novo. Ano em que começa a luta armada de libertação, que leva o autocrata português Oliveira Salazar a ordenar a partida “para Angola, rapidamente e em força”.

Os estudantes que decidem combater o colonialismo fogem da vigilância, cada vez mais apertada, da PIDE, a polícia política portuguesa. Ou partem por receio de serem obrigados a integrar as forças armadas coloniais.

Muitos dos que partiram nesse ano conheceram-se na Casa dos Estudantes do Império, na capital portuguesa. Foi criada em 1944 para fortalecer o sentimento de “portugalidade” entre os alunos das então colónias. Mas acaba por tornar-se um autêntico “viveiro” de nacionalistas que se opõem ao Governo fascista português. Como Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, Amílcar Cabral, o fundador do PAIGC, ou o cabo-verdiano Pedro Pires, futuro chefe de Estado.

A Casa dos Estudantes do Império foi "berço" de muitos líderes africanos em Lisboa (João Carlos)
A Casa dos Estudantes do Império foi “berço” de muitos líderes africanos em Lisboa (João Carlos)

“Evoluí aí para a política e para a opção de integrar o movimento de libertação da altura, o PAIGC”, recorda Pires. “A fuga para Paris permitiu-me entrar em contacto directo com o partido e, dois ou três meses depois, a minha incorporação real nas estruturas do PAIGC”.

Pedro Pires, na altura alferes da Força Aérea Portuguesa, é um dos 41 jovens que deixam Lisboa, Coimbra e Porto, com o apoio do Conselho Mundial das Igrejas. A organização da fuga é entregue à organização ecuménica francesa CIMADE, que já tinha feito uma viagem de teste bem-sucedida com 19 estudantes.

Travessia arriscada

A segunda leva, mais numerosa e distribuída por pequenos grupos, é conduzida além-fronteiras por jovens protestantes norte-americanos, ligados a uma organização que, tal como a CIMADE, apoia refugiados africanos. Um trajeto arriscado, que envolve documentos falsos e longas distâncias:

“Saímos de Lisboa para o Porto e no dia seguinte muito cedo partimos para a fronteira de Espanha”, relata Lilica Boal. “Aí a travessia foi num barco muito pequeno. Mas em Espanha, em Andaya, encontramos já a polícia que nos esperava”.

Lilica e os companheiros de viagem ficam dois dias en San Sebastián, na Espanha franquista, onde são presos e interrogados. Joaquim Chissano, futuro Presidente de Moçambique, também faz parte deste grupo.

Entretanto, teria havido uma intervenção da Igreja Protestante. “Depois ficamos instalados numa Igreja do Conselho Ecuménico. De Portugal já tinham pedido à Espanha para nos mandar para Portugal”, recorda a cabo-verdiana.

Pedro Pires também seria comissário de Estado-Adjunto para as Forças Armadas (INEP)
Pedro Pires também seria comissário de Estado-Adjunto para as Forças Armadas (INEP)

Acabam por ser libertados e seguem para Paris. A CIMADE instala os estudantes na sua sede, em Sèvres, arredores da capital francesa. Aqui chegam também outros jovens africanos que saíram de Portugal, mas de forma legal.

É o caso de Amélia Araújo, angolana de origem cabo-verdiana que se viria a juntar ao PAIGC. Tal como o marido, José Araújo, de Cabo Verde. “A minha filha tinha três meses e não era seguro ir nesse grupo que fugiu pela fronteira”, confidencia. Por isso, foi de comboio para Paris. Disse à PIDE que “ia pagar uma promessa” a Lourdes, em França.

Mas antes de conseguir o passaporte, teve de responder a uma série de perguntas: “Queriam saber como é que eu ia, que o meu marido tinha acabado o curso e ainda não tinha trabalho, como é que ia parar a França. Eu disse que o meu pai é que me ia ajudar e que tinha família lá”.

Rumo à Alemanha Federal

Mas Paris não era o destino final destes estudantes. Por isso, um grupo de “camaradas” foi pedir ajuda à Embaixada do Gana. O país foi o primeiro a tornar-se independente na África subsaariana e tinha como Presidente Kwame Nkrumah, pai do pan-africanismo contemporâneo. “Deram-nos passaportes ganeses, como trabalhadores em excursão”, recorda Amélia Araújo, que em breve seria a voz mais conhecida da Rádio Libertação, a emissora do PAIGC. “O Pedro Pires era sapateiro ou carpinteiro. Eu era costureira e o meu nome no meu passaporte ganês era Ama Crampa”.

De França, alguns nacionalistas seguem para a então Alemanha Federal. “Vi dois militares com aquela farda cinzenta assustadora, do tempo do Hitler”, conta Amélia Araújo, que não esquece o dia em que chegou à cidade de Bona. No autocarro que os transportava, entrou um polícia que foi controlando os passaportes de alguns e outro ficou a brincar com a filha da locutora. “E às tantas saíram, não nos aconteceu nada”, acrescenta.

Depois continuaram viagem até Bona. “Tinha um arame farpado e do outro lado estava o embaixador do Gana”, lembra-se Amélia. O embaixador levou o grupo para um hotel, que ficava ali perto, e disse-lhes que durante uma semana não podiam sair do hotel. “Estão aqui clandestinos, não podem dar nas vistas”, recomendou. “Uns dias depois, o embaixador veio buscar-nos, levou-nos a uma cervejaria típica alemã, onde vi os alemães a tomarem cerveja nuns canecões deste tamanho”, conta.

Amélia Araújo, na Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, na região libertada de Madina de Boé (1973) (DW)
Amélia Araújo, na Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, na região libertada de Madina de Boé (1973) (DW)

Também Lilica Boal se lembra como se fosse hoje da viagem, em autocarro, até à Embaixada do Gana em Bad Godesberg, na então Alemanha Federal. Cada um só com “um saquinho de cinco quilos”, lembra a futura diretora da Escola-Piloto, internato na Guiné-Conacri que preparava os filhos dos combatentes do PAIGC para a independência.

Como era uma saída clandestina, e não sabiam a hora exata da saída de autocarro, Lilica decide sair para ver montras. “Quando voltei, os camaradas já estavam no autocarro e eu procuro o meu saco. Onde é que está o meu saco? Disseram-me: o Pedro [Pires] é que levou. Porque o camarada Pires, pensando que uma senhora precisa mais de um saco do que um homem, deixou o saco dele e levou o meu. Foi uma prova do altruísmo do Pires que me marcou”.

Da Alemanha, alguns partem para a Suíça, depois para Marrocos e daí para o Gana. Lilica Boal segue para a Guiné-Conacri, onde o PAIGC tinha a sua base. Mais tarde, junta-se a Pedro Pires em Dakar, no Senegal, onde se dedicam à mobilização de cabo-verdianos para o PAIGC.

Pires seria um dos mais conhecidos combatentes da luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Foi primeiro-ministro e duas vezes Presidente da República. Quando era jovem, chegou a pensar que não seria necessário recorrer à luta armada. “Pensei que se podia utilizar esse método pacífico. Mas, com o tempo, mudei de opinião e assumi a necessidade de participar naquilo a que podíamos chamar a luta armada de libertação nacional ou violência armada”.

“Luta valeu a pena”

Depois da grande fuga de estudantes de 1961, cada um segue o seu caminho. Alguns decidem continuar a estudar. Outros juntam-se à luta armada. E sucedem-se outras evasões do Portugal de Salazar.

No futuro, uns acabarão por se desiludir com os seus próprios regimes. Outros continuarão a defendê-los com unhas e dentes.

Mas mais de 40 anos depois da proclamação da independência das antigas colónias portuguesas, todos concordam que a luta “valeu a pena”. Os cabo-verdianos Lilica Boal, Amélia Araújo e Pedro Pires não têm dúvidas.

“Mesmo que tenhamos durante a marcha ou durante a implementação alguns erros ou algumas deficiências, vale sempre a pena porque o objetivo final é nobre e necessário”, conclui o antigo Presidente de Cabo Verde. (DW)

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