5 lições do governo Itamar para eventual gestão Temer

Itamar Franco assumiu a Presidência em outubro de 1992; se processo de impeachment for aprovado no Senado, Dilma Rousseff será afastada e Michel Temer assume (Agência Brasil)

Há menos de 25 anos, após um processo de impeachment ter levado à renúncia do presidente, um vice chegava ao comando do governo para um mandato tampão.

Em pouco mais de dois anos, Itamar Franco conseguiu lançar o Plano Real e pavimentar o caminho para a estabilidade econômica – pelo menos esse é um mérito apontado por ex-ministros do seu gabinete ouvidos pela BBC Brasil para comparar os dois momentos.

Mas Michel Temer, se chegar ao poder, terá as condições de afastar a crise econômica que assola o país? Terá força política para implementar medidas nesse sentido? Que lições ele pode tirar do governo Itamar Franco?

Para tentar responder a essas questões, a BBC Brasil conversou com quatro ex-ministros do governo Itamar – Celso Amorim, que esteve à frente da pasta de Relações Exteriores, Yeda Crusius, do Planejamento, e Rubens Ricupero e Ciro Gomes, ambos ex-ministros da Fazenda – e especialistas.

Veja as cinco lições identificadas por eles:
1. Costura de alianças: buscar consenso político e social

Apesar de destacarem que os cenários são bastante diferentes em 1992 e 2016, os ex-ministros avaliam que uma das maiores lições do governo Itamar foi sua habilidade em costurar alianças e garantir um governo de representatividade, encarado com legitimidade pelas forças políticas e movimentos sociais.

Itamar teria entendido que obter a confiança da população e governar para diferentes segmentos era tão importante quanto manter uma base de apoio entre os políticos.

“Um grande mérito do Itamar foi equacionar as forças sociais no país”, diz Rubens Recupero, ex-ministro da Fazenda. “Ele sabia que não poderia fazer um governo somente para agradar as bolsas e os mercados. Tinha sensibilidade social e política. Chamou a UNE e até o PT, que era oposição. Ele sempre quis construir pontes, e foi muito bem sucedido nisso. É sem dúvida uma grande lição.”

Para Yeda Crusius, ex-ministra do Planejamento, Itamar foi bem sucedido em manter o apoio ao governo. “Ele era extremamente agregador, e com modéstia e simplicidade, conquistou o povo, e por meio de sua experiência prévia como senador angariou apoio no Congresso”, diz.

O cientista político e professor da UNB David Fleischer concorda, e avalia que, apesar das dificuldades, Temer também deve conseguir montar uma base em Brasília. “Itamar só enfrentava uma oposição moderada do PT, mas mesmo assim precisou costurar alianças e manter o apoio. No caso de Michel Temer eu acredito que, por ser um bom negociador e ter esse papel no PMDB, ele também vá conseguir garantir a governabilidade”, diz.

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores, é categórico ao diferenciar a obtenção de um apoio político do apoio da sociedade. “Acho totalmente impossível que Temer consiga o mesmo amplo apoio que Itamar teve. Ele pode até costurar maioria na Câmara, mas não na sociedade. Creio que haverá muita oposição de rua, muita dificuldade”, diz.

O ex-ministro da Fazenda Ciro Gomes diz que, caso assuma o poder, Temer será encarado por segmentos políticos e sociais como o líder de um governo sem legitimidade, o que deve dificultar a construção alianças.

“O maior desafio será legitimar seu governo. Assumir um mandato através de um golpe não lhe dará a faculdade de propor as mudanças que o país precisa. Setores consideráveis da nossa sociedade são contra o impeachment e não reconhecem legalidade no processo orquestrado pelo Congresso”, diz.
2. Ataque à crise econômica: identificar (e focar na) prioridade

Se é fato que, a exemplo do que ocorreu em 1992, o país se encontra em crise econômica, na visão dos entrevistados a situação atual é consideravelmente pior, mesmo levando em conta a hiperinflação dos anos 90, o que deve trazer desafios maiores a uma eventual gestão Temer.

“A crise econômica em 1992 não chega nem perto da atual. A gravidade é muito maior com recessão, alto índice de desemprego, e além disso alta inflação para os padrões atuais. O contexto geral hoje é muito pior”, diz David Fleischer, professor da UNB.

Na visão do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero uma das lições de Itamar no combate à crise econômica foi optar por um objetivo muito delimitado: acabar com a hiperinflação, ou inflação galopante, nos termos da época.

“Ele apostou nessa ideia, porque percebeu que a população brasileira não aguentava mais a inflação. Era uma pressão psicológica muito grande, a ainda havia a lembrança do confisco das poupanças no governo Collor, o que deixava o clima realmente angustiante. Ele encontrou soluções para dois grandes problemas econômicos deixados pelos militares: a crise da dívida externa e a hiperinflação”, diz.

Ciro Gomes, também ex-ministro da Fazenda, ressalta duas lições: comprometimento do presidente e equipe econômica competente. “Nós colocamos como meta vencer a inflação buscando além da estabilização a geração de empregos. Quando assumi, após o Plano Real já ter sido implementado, a inflação girava em torno de 3% ao mês e o desemprego superava 12%. Conseguimos levar a inflação a zero e o desemprego para 4%. Tudo isso foi possível graças ao comprometimento do presidente e uma equipe reconhecidamente competente”, diz.

Na visão dos ex-ministros, o cenário agora é mais complexo, o que pode dificultar a identificação de um objetivo tão delimitado como o combate à hiperinflação, mas sua determinação vale como lição de sucesso em meio a um cenário econômico difícil.
3. Não ter medo de ser simples e um ‘outsider’

Uma das características marcantes de Itamar Franco era sua simplicidade, relembrada por todos os ex-ministros. Antes de ocupar o Planalto, o político mineiro tinha sido prefeito de Juiz de Fora e senador por 15 anos. Mas apesar da experiência no Senado e do bom trânsito em Brasília, sempre foi visto como um “outsider”, um senador de bastidores, distante dos holofotes do noticiário político nacional.

Para eles, sua fácil identificação com o “cidadão comum” conferia mais chances de sucesso ao seu governo. Já Michel Temer, embora atue muito em bastidores, é visto como um “insider”, ou seja, alguém muito conhecido do público e que já desenvolveu papel de peso em Brasília, seja como presidente da Câmara, vice-presidente da República ou presidente do PMDB.

“Temer sempre foi uma peça importante do PMDB, sendo muito ativo como deputado federal e também na presidência da Câmara por duas vezes. Para costurar uma coalizão, é algo que ajuda, mas por ser um ator político muito conhecido, pode virar para-raio. Itamar não era conhecido nacionalmente até virar vice. Isso atuou em seu favor depois”, diz David Fleischer, da UNB.

Para Yeda Crusius, a simplicidade de Itamar e sua condição de “outsider” são grandes lições que permearam várias decisões de governo, muitas delas extremamente importantes. “Ele era ridicularizado pela imprensa. Debochavam dele, exatamente por essa modéstia. Ele nunca deu bola, e nunca se dobrou perante críticas idiotas”, diz.

“Ele nem ligava. Sabia onde queria chegar, sabia que estava com o poder na mão, e acabou mudando o país. Ele realmente foi o guia da transformação brasileira na época. Quanto ao Temer, ele está muito bem preparado, mas não tenho dúvidas de que olhará muito para o período Itamar. Ele é articulado, mas não é modesto e simples como o Itamar”, complementa.

Celso Amorim, ex-chanceler na época, relembra dois fatos que exemplificam a personalidade de Itamar. “Ele não gostava de viajar. Recebeu visita do primeiro-ministro da China e foi convidado, mas não retribuiu porque era um homem simples, não queria viajar.”
4. Apostar em meta com determinação – mesmo que tenha de trocar equipe

O que é visto como maior feito de seu governo, a estabilização econômica, concretizada com a implementação do Plano Real em 1994, sempre foi a maior prioridade de Itamar Franco, relatam os ex-ministros ouvidos pela BBC Brasil.

Era um objetivo claro e que foi concretizado com determinação e perseverança, dizem. Tanto que seis ministros passaram pela pasta – nesse caso, para garantir que essa meta pudesse ser levada a cabo.

O primeiro foi Gustavo Krause, o segundo Paulo Haddad, o terceiro Eliseu Resende e o quarto Fernando Henrique Cardoso, que traduziu os objetivos de Itamar no Plano Real. Com a saída de FHC para concorrer às eleições, assumiram ainda Rubens Ricupero e Ciro Gomes até o final do mandato de Itamar, em 1/1/1995.

“Poderia parecer um tremendo fracasso, ter seis ministros da Fazenda num governo de pouco mais de dois anos. Mas ele não estava preocupado com isso. Ele queria encontrar alguém com o plano e a equipe certos, e não desistiu. Foi insistindo. Ele era a única pessoa no Brasil que acreditava que poderíamos acabar com a inflação”, diz Rubens Ricupero.

Ricupero diz que a lição pode servir para um eventual governo Temer. “Seria um erro nomear um ministro da Fazenda apenas para agradar as bolsas e os mercados, que venha com um ajuste duro, neoliberal. O Itamar sabia que isso seria um grande equívoco”, diz.

Para o ex-ministro da Fazenda, é possível comparar Itamar a Ronald Reagan, ex-presidente dos Estados Unidos. “Eu comparo o Itamar com o Reagan. Não eram brilhantes, não ‘inventaram a pólvora’, mas eram determinados. O Itamar tinha uma grande ideia: a estabilização econômica. E isso ele perseguiu de forma tenaz”, diz.

Yeda Crusius, ex-ministra do Planejamento, também acredita que a determinação de Itamar foi fundamental. “Ele montou um governo em função do que ele queria, de cumprir o objetivo com o qual ele estava comprometido”, diz.
5. Ser determinado, mas flexível, sem perder de vista o cidadão comum

Outra característica do governo Itamar destacada pelos ex-ministros é a flexibilidade com que formulava políticas levando em consideração diferentes grupos da sociedade.

“Havia essa prioridade da estabilidade econômica mas tinha também uma visão social. Volta e meia o presidente Itamar não deixava a equipe econômica tomar certas medidas, porque se preocupava com questões do cidadão comum. Ele era um homem comum. Pensava nas mensalidades escolares, nos aluguéis”, diz Celso Amorim.

“Ele procurava não hostilizar o PT, se aproximou dos movimentos sociais. Ele queria muito que o PT fizesse parte do seu governo”, acrescenta Ricupero.

Para Yeda Crusius, há dois exemplos marcantes dessa “sintonia” que Itamar mantinha com a população e o cidadão comum, apesar de estar comprometido com a estabilização econômica.

“Ele chegou a ser ridicularizado por estimular que o Fusca voltasse a ser produzido no Brasil. Mas, com isso, seu governo acabou lançando a ideia do carro popular, 1.0, que alterou em muito a vida da população. Outra coisa que partiu dele foram os medicamentos genéricos. Foi por determinação dele que tudo isso começou e depois foi aperfeiçoado. Ele sabia onde queria chegar, e não dava pelotas para as críticas”, diz. (BBC)

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