Um dicionário caluanda ‘bué’ útil

(DW)

‘Bazar’ e ‘bué’, são expressões de uso frequente em Portugal. Mas quem as usa por vezes não sabe como chegaram à pátria de Camões. São importações angolanas, agora recolhidas num livro que explica origem e significado.

O autor do “Pequeno Dicionário Caluanda” recentemente publicado, Manuel S. Fonseca, considera o seu livro uma retribuição para tudo quanto Angola lhe deu durante os 18 anos que lá viveu. A doçura semântica da linguagem popular nos musseques – bairros típicos da capital angolana – fez o editor lançar-se neste desafio.

Manuel S. Fonseca chegou a Angola em 1959 e foi viver no bairro luandense de Sambizanga. Foi aqui que ouviu pela primeira vez as expressões típicas dos habitantes da capital, que agora compilou num pequeno dicionário com mil e uma palavras ilustrativas da maneira de falar dos luandenses.

O facto de ter vivido muito próximo da realidade africana, dos cinco aos 23 anos, permitiu ao autor captar a alegria que Luanda deu à língua portuguesa, diz: “Atravessava-se a rua e lá estavam os outros miúdos africanos que brincavam com os miúdos europeus. Tínhamos acabado de chegar e estávamos a descobrir o que era África. Portanto, vivi, para começar, logo aí, uma experiência muito rica.”

Uma enorme criatividade linguística

Esse contacto com a fala popular luandense também ocorre na Vila Alice, um bairro de classe média, para onde foi morar depois. Ali, a linguagem era muito criativa, explica Manuel Fonseca: “Havia palavras que vinham do kimbundu, havia outras palavras portuguesas que sofriam uma certa corruptela, que eram transformadas. Havia também expressões que, em português, queriam dizer uma coisa que nós, os miúdos dos bairros, começávamos a utilizar num sentido diferente. E isso dava-nos uma linguagem particular.”

Entre tantas outras, há palavras como ‘bazar’ (sair, fugir), ‘bué’ (muito), ‘bumbar’ (trabalhar), ‘desconseguir’, ‘garina’ (rapariga, namorada) ou ‘candengue’ (criança, novato). Algumas destas expressões já enriquecem permanentemente o dicionário português, diz o autor: “Há muitos termos mesmo. Essa forma criativa de falar, com grande sentido de humor, que se ri até da própria língua, do meu ponto de vista – e essa é a parte curiosa – não parou. Hoje em dia, em Luanda, continua a haver uma criatividade muito grande.”

Expressões que perduram e se alastram

As expressões, que datam dos anos 60 e 70, ainda hoje são utilizadas com doçura e sentido de humor. E não apenas em Angola e Portugal, pois, entretanto, deram também às costas de outros países da África lusófona e do Brasil.

O autor, que ainda viveu dois anos em Angola a seguir à independência, completou o trabalho com uma pesquisa da fala contemporânea em Luanda, consultando as obras de escritores como Pepetela, Luandino Vieira, Manuel Rui Monteiro, Ondjaki e José Eduardo Agualusa. “A minha vivência era uma coisa e dar-me-ia cem, duzentos, trezentos a quatrocentos termos, mas não os mil e um que eu queria atingir.”

O objetivo era um dicionário inédito “que reunisse o conjunto desses glossários todos [dos escritores angolanos referidos] e a que se acrescentasse ainda a minha vivência particular – que não é só minha. É a vivência de milhares de angolanos, de luandenses, que praticam esta forma tão cantada de falar que é a fala de Luanda.” (DW)

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