Temer, em contagem regressiva para entrar no Palácio do Planalto

Michel Temer, Marcela Temer e Dilma Rousseff (janeiro de 2015). (José Cruz Agência Brasil)

O vice-presidente é o grande vencedor do processo de impeachment de Dilma
Temer começa a trabalhar os ajustes do seu programa de Governo a partir desta segunda

Às 4h15 da manhã de domingo, o vice-presidente Michel Temer recebeu uma ligação do presidente do PP, Ciro Nogueira, avisando que a bancada pepista votaria em peso pelo impeachment. Seriam pelo menos 40 votos contra Dilma. Mas a essa altura, seus aliados já contavam com a vitória folgada. “Como mínimo 365, e como teto, 375”, afirmou Eliseu Padilha, ex-ministro de Aviação Civil da presidenta Dilma, e aliado de Temer, em vídeo gravado ainda na noite de sábado. Só eram precisos 342 para que o impeachment da presidenta passasse na Casa.

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Temer acompanha a votação pelo impeachment de Dilma Rousseff. (HANDOUT REUTERS)

A derrota de sua ex-aliada Dilma Rousseff, com quem compartilhou o Governo durante seis anos, é o seu triunfo, e Temer não deixou de costurar alianças nem por um minuto desde que viu a possibilidade de vestir a faixa presidencial. Agora, deve aparar as arestas do seu programa de Governo para azeitar o discurso rumo à “conciliação” prometida em diversas mensagens. Na noite de domingo, uma foto sorridente de Temer acompanhando a votação contrastava com a imagem que ele sempre mostrou ao público, com seu sorriso discreto e os gestos aristocráticos.

Nesta segunda, ele já coloca um pé no Palácio do Planalto, enquanto o processo de impeachment, que passou pela Câmara, segue para o Senado.

Temer lidera o PMDB, que rompeu com Dilma no dia 29 de março, anunciando seu voto favorável à destituição parlamentar em um ato incendiário ao qual Temer, naturalmente, não compareceu. “Ele não conspira; tem quem conspire por ele”, disse dele um parlamentar há algumas semanas. Essa sua faceta, porém, desperta desconfianças, como mostrou uma matéria do Washington Post sob o título: Os brasileiros se perguntam: o vice-presidente quer tanto assim o cargo de número um? (Brazilians ask: Does Brazil’s vice president want the top job a bit too much?)

Não é a primeira vez que esse político de 73 anos, advogado especialista em Direito Constitucional, amigo de escrever poemas e aforismos sobre guardanapos de papel e que acumula cargos institucionais desde 1980, usa esse tipo de estratagema sinuoso: no dia oito de dezembro foi divulgada –Temer garante que foi por engano – uma carta pessoal dele à presidenta. Nela, dizia-se despeitado e acrescentou, algo ameaçador, que estava cansado de ser “um vice decorativo”. Depois acrescentou, com seu duvidoso faro poético: “As palavras voam; os escritos permanecem”. Dilma começava então a deslizar ladeira abaixo e seu aliado marcava distâncias pela primeira vez numa tentativa de se afastar do cadáver político que a presidenta começava a se tornar.

Em nada lembrava o início harmonioso do segundo mandato. Dilma, em seu discurso de posse em janeiro de 2015, afirmou: “Sei que tenho o apoio do meu querido Michel Temer”. E o vice-presidente, meses depois, em julho, correspondeu: “Ninguém precisa reafirmar a presidenta Dilma Rousseff, porque ela vai ficar até o final com muita tranquilidade”. É difícil encontrar frases que ilustrem pior o que acontece neste momento no Brasil.

Mas é que Temer –que um deputado da Bahia descreveu por seu aspecto macilento, sua cabeleira prateada e seu ar meio gótico e antiquada como “o típico mordomo de um filme de terror”– é a incorporação política do ambíguo e sinuoso partido que preside, o PMDB. A ideologia –liberal, de centro ou centro-direita– é menos importante do que sua habilidade e destreza para se adaptar e se fundir com o poder, onde quer que este esteja. E, consequentemente, de se descolar de quem manda quando deixa de ter possibilidades de fazê-lo. Temer não possui o carisma esmagador de Lula. Carece de força eleitoral. É considerado simplesmente um político profissional, tão hábil quanto anódino. Mas personifica como ninguém o aparato do enorme PMDB, a maior força política do Brasil, sempre faminto por cargos, com mais deputados do que ninguém no Congresso.

O vice-presidente é, acima de tudo, discreto, conciliador, culto e atilado. Num perfil publicado anos atrás pela revista Piauí, confessou que Deus não lhe tinha dado o dom de ser simpático: “Disseram que eu preciso mudar meu jeito, que sou muito cerimonioso. Mas como? Tenho inveja de quem faz blague. Eu não sei fazer isso. Se fizer, vai ser um desastre. Não sou eu”. Talvez por isso, quando contou que um áudio em que passava as linhas do que seria seu Governo vazou, ninguém acreditou. Sua habilidade e experiência não permitiriam um deslize mal calculado.

No mesmo perfil da Piauí, um assessor afirmou: “Michel na política é muito equilibrado, muito prudente. Só é ousado em conquistas amorosas”. Temer foi casado três vezes. A última, com uma mulher 42 anos mais jovem do que ele que tatuou no pescoço o nome e o sobrenome do ilustre marido. O mesmo que está prestes a se tornar o novo presidente do Brasil depois de ter passado toda a carreira política nessa difícil e rentável segunda fileira. (EL PAIS)

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