Semanário Angolense fechou as portas “porque incomodava”

(DW)

Silencia-se mais uma voz da imprensa independente que já foi crítica do regime angolano. A Media Invest, detentora da publicação, alega que não tem capacidade financeira para manter o jornal aberto.

Depois de 12 anos de existência, o Semanário Angolense, que teve como fundadores os jornalistas Graça Campos, Severino Carlos e Silva Candembo, deixa o sector da comunicação social angolana de luto. Mais de 20 funcionários ficam no desemprego.

As matérias polémica publicadas pelo jornal deram-lhe notoriedade e fidelizaram muitos leitores que, aos fins de semana, dispensavam alguns minutos para lerem textos que incomodavam a elite do regime político angolano.

A fim de silenciar vozes incómodas, grupos económicos próximos do poder político decidiram comprar todos os órgãos de comunicação social que eram tidos como críticos do Governo.

Em 2010, o Semanário Angolense não escapou e foi comprado pela Media Invest. Continuou a funcionar com uma linha editorial muito diferente, virada para ataques aos partidos políticos da oposição.

Comprar o semanário crítico… para depois silenciar

No final de 2015, com o despedimento de um dos seus colaboradores, Celso Malavaloneke, houve rumores de que a direção da Media Invest, proprietária do jornal, podia levar a cabo ainda mais despedimentos. O que acabou por não acontecer, mas a Media Invest avançou que atravessava dificuldades financeiras.

E “desde janeiro deste ano, só fizemos uma publicação”, afirmou Quim Alves, diretor do Semanário Angolense. “Na semana seguinte a essa edição, na noite de quinta-feira, quando estávamos a fechar o jornal, que já estava pronto para ser publicado, a direção da Media Invest ligou para mim mandando parar os trabalhos, porque a gráfica não tinha condições para imprimir o jornal”, conta Quim Alves.

No entanto, “eu já havia ligado para a gráfica, que alegou ter problemas de falta de papel, mas que para o Semanário Angolense ainda havia papel para mais algum tempo”, acrescentou o diretor da publicação.

O encerramento do jornal não surpreende Ilídio Manuel, jornalista que até o fim do ano passado ocupou o cargo de editor-chefe do semanário: “Isto já era previsível desde que se processou a compra do jornal, só que não se sabia quando é que isso devia ocorrer. É natural que a situação económica do país precipitou a queda do jornal ou seja a morte do jornal”.

Contactado pela DW África, um dos funcionários da Media Invest alegou desconhecer a informação.

Uma perda para Angola

Para o Sindicato dos Jornalistas Angolanos, o fim do Semanário Angolense é uma perda para todo o país.

“É preocupante o fim do Semanário Angolense, perdem-se empregos para muitos jornalistas. É também preocupante porque perde o Estado. O Semanário Angolense é um título de referência, é um dos jornais que contribuiu decisivamente para uma maior liberdade de imprensa, como vivemos hoje. É um título com uma carga histórica que fecha sem mais nem menos”, afirmou Teixeira Candido, secretário-geral do sindicato.

No entender do Teixeira Candido, o jornal poderia estar ainda de portas abertas se não tivesse sido comprado pela Media Invest.

“Nos últimos anos, o Semanário Angolense perdeu toda a sua qualidade informativa e, assim, mais facilmente fecha as portas. Acreditamos que se o Semanário Angolense continuasse nas mãos dos seus antigos proprietários, estou a falar de Graça Campos e Silva Candembo, teria sobrevivido, porque há jornais hoje com menos qualidade profissional e técnica que continuam com as portas abertas.”

Alexandre Neto Solombe, coordenador do MISA-Angola, Instituto de Comunicação Social da África Austral, critica a não regulamentação da lei de imprensa no país.

“A regulamentação da lei de imprensa permitiria, por exemplo, que o Estado subsidiasse os jornais daqui da nossa praça, o que traria maior rentabilidade, encurtaria os espaços de concorrência desleal, falo dos jornais que são distribuídos de graça. Como é que um jornal é distribuído de graça, com boa qualidade técnica, no ponto de vista de jornalismo é bom, enquanto o Semanário Angolense que tem história não consegue resistir?”, questiona-se Alexandre Neto Solombe.

E o próprio coordenador do MISA-Angola responde: “O Semanário Angolense estava no topo das vendas na nossa praça. Portanto, eles viam que o jornal era viável, mas incomodava. E como incomodava, era importante silenciar, comprando o jornal compulsivamente e afastando alguns dos sócios que eram minoritários, que por esta razão não conseguiram resistir, estamos a falar do Graça Campos.”

Falta de papel, mas só para alguns

Atualmente, muitos jornais independentes estão com dificuldades em continuar no mercado. As gráficas, que pertencem à elite do poder económico, alegam não ter papel para imprimir os jornais por causa da atual crise financeira e cambial.

João é ardina há seis anos e conta que o negócio já pouco rende. “Com o fim dos jornais, as nossas dificuldades estão a aumentar. Às vezes os clientes vêm ter connosco e não temos aqueles jornais que eles procuram, ficamos assim sem vender. Os clientes já estão acostumados com estes jornais e os mesmos desaparecem assim do nada. Nós, os ardinas, ficamos também prejudicados porque dependemos dos jornais”, lamentou o jovem.

Tal como o Semanário Angolense, teme-se que A Capital, outro jornal independente também comprado por grupos económicos próximos do poder político, possa vir a fechar a qualquer momento. Desde o início de 2016, a publicação não pôs nenhum exemplar nas bancas. (DW)

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