Secos e Molhados: Um incêndio que poderia ter arrasado um ministério

Reginaldo Silva (DR)

Nos últimos dias as chamas e as consequências dramáticas de dois incêndios ocorridos em prédios urbanos de recente construção chegaram aos “média”, com o impacto/mobilização social que só as grandes notícias são capazes de provocar. O que é facto é que, normalmente, este tipo de mobilização só tem lugar diante de acontecimentos negativos, particularmente quando eles são portadores de alguma componente mais trágica. É perfeitamente compreensível que assim seja. As pessoas entendem que quando as coisas correm bem, por mais importante/interessante que seja o facto, não há muito mais para acrescentar ou para questionar.

Quando às vezes, ouvimos algumas críticas que se fazem ao jornalismo por dar demasiado espaço aos factos negativos, se existir aqui alguma “culpa”, ela não merece qualquer castigo e pode à vontade morrer bem solteirona. Continuamos a viver numa sociedade onde o que há por fazer, por reparar, por definir e por projectar em prol da solução dos problemas sociais ainda é de longe muito, mas mesmo muito mais importante do que tudo o resto. Não há num tal contexto como reorientar as prioridades do próprio jornalismo enquanto parceiro aberto de tudo e de todos quantos se movimentam no mesmo espaço local, regional ou nacional.

É pois em torno de um facto nada positivo que as nossas atenções se voltaram a concentrar, pois não temos como ignorar ou subestimar os já referidos dois sinistros. O primeiro aconteceu na Centralidade do Kilamba, numa creche improvisada, onde morreram três crianças abraçadas e o segundo mais recentemente no Maculusso e que por muito pouco não “torrava” toda a direcção de um ministério. O que de imediato chamou a atenção deste “laboratório de análises”, mais ou menos avulsas, foi o facto dos dois incêndios terem tido por palco dois prédios novos, estando na sua origem prováveis curto-circuitos eléctricos.

No que toca à qualidade dos prédios do Kilamba, não é de hoje nem de ontem, que ouvimos falar de problemas estruturais ao nível das redes técnicas (saneamento/água/electricidade) que nasceram com aquela centralidade. Mais graves serão, certamente, as deficiências nas instalações eléctricas, por razões que todos compreendem facilmente sem perceberem nada do assunto. De facto não é preciso perceber muito de engenharia, para chegar a conclusão que os fios que estão dentro da parede não aguentam a corrente dos aparelhos instalados, para usarmos uma linguagem comum.

Problemas que pelos vistos só se podem estar a agravar, como resultado de uma fiscalização deficiente que foi permitindo que o conhecido e desenrascado empreiteiro oriental fizesse as coisas à sua maneira passando ao lado de um conjunto de exigências, padrões e regras que, adivinha-se, fazem parte do próprio caderno de encargos/projecto. Foi-nos possível, num dos apartamentos daquela centralidade que visitámos o ano passado, ver as consequências dessas falhas nas manchas de humidade que povoavam as suas paredes e que já estavam a impossibilitar o uso dos guarda-fatos embutidos nas paredes devido ao desagradável cheiro a mofo que se transmite de imediato às roupas. Como explicar tais manchas num edifício de tão recente construção? Com a esperança de que aquele apartamento seja apenas uma árvore no meio da floresta, gostaríamos de acreditar que aquele “fumo” não tem o fogo que tanto receamos e que pode vir a afectar toda a centralidade mais tarde ou mais cedo.

Costuma-se dizer que o barato sai caro o que é particularmente acertado, quando se fala da construção civil. Tão caro, que pode custar vidas humanas, muitas vidas mesmo, conforme vários casos por este mundo já o provaram à saciedade, como resultado da falta de escrúpulos e da conivência entre empreiteiros e as diferentes fiscalizações, incluindo a última, onde os bombeiros também são chamados a pronunciar-se antes das pessoas começarem a ocupar as instalações. No que toca ao segundo prédio, localizado no Maculusso, onde esta semana a direcção do Ministério do Turismo e Hotelaria viveu momentos particularmente dramáticos, entre a vida e a morte, depois do fogo ter tomado conta dos primeiros andares, as coisas são ainda mais complicadas, sendo, contudo, mais fáceis de avaliar se houver efectivamente alguma intenção de apurar as causas e identificar os responsáveis.

Lamento informar-vos, mas mais uma vez não nos parece que seja visível esta disponibilidade, pelo que vamos ter aqui a culpa (sem aspas) a morrer novamente solteira numa praia qualquer do nosso extenso litoral. Não se percebe como é que o Estado através do Ministério das Finanças aluga ou compra um edifício daqueles, sem as mínimas condições de segurança, para colocar lá dentro um ministério inteiro depois deste ter sido “corrido a toque de caixa” das suas instalações anteriores no “Palácio de Vidro” na sequência de uma complicadíssima decisão, que nos fez lembrar um bocado o enredo do filme “Kramer contra Kramer”.

Nesta “corrida” que o Turismo e Hotelaria levou do Palácio do Vidro, por parte do Comércio há qualquer coisa que nos lembra um casal em briga, como acontecia naquele premiado filme norte-americano. Se esta semana tivesse acontecido o pior a saúde do titular do Ministério do Turismo e Hotelaria e a sua equipa que estiveram efectivamente e durante algum tempo encurralados pelo fumo e pelo fogo no terraço de um décimo andar, hoje estaríamos aqui com a abertura de um inquérito.

Faz todo o sentido, mesmo não tendo acontecido a tragédia, que o inquérito seja aberto e que se saiba um pouco mais sobre as circunstâncias em que hoje o Estado através do Ministério das Finanças compra ou aluga as instalações a particulares de que necessita para colocar as suas instituições a funcionar. Terminou a lua de mel (que já estava a ficar cada vez mais salgada) entre Isabel dos Santos e as autoridades portuguesas, depois da considerada mulher mais rica de África ter deixado cair o acordo que iria em principio resolver o problema do excesso de exposição do BPI a Angola através do BFA, cujo mercado passou a ser considerado de alto risco, de acordo com os novos critérios prudenciais do BCE adoptados na sequência do escândalo BES/BESA.

Ainda não há bem um “impeachment”, mas a empresária não recebeu da parte do Banco de Portugal (BdP) e do Banco Central Europeu (BCE) o necessário “atestado de idoneidade” para poder assumir o cargo de administradora não executiva do seu BIC de Portugal. Mas há mais, muito mais. A partir de agora as coisas só se podem complicar, a não ser que aconteça algo parecido com um milagre, numa altura em que se anuncia para breve a visita do Primeiro-Ministro português a Angola. Complicações que vão, muito provavelmente, afectar as relações políticas bilaterais. Resta saber até onde? Numa coisa a Isabel dos Santos tem toda a razão.

Não foi que ela inventou (e muito menos impôs) a blindagem dos estatutos das sociedades portuguesas cotadas em bolsa. Ela quando chegou lá com todo o seu kumbú/engenharias e começou a fazer compras a torto e a direito já encontrou esse cadeado bem fechado a sete chaves. Na altura os novos ricos aqui da banda (saídos do nada) já falavam mesmo em comprar Portugal, tamanho era o entusiasmo que os animava nesse “shopping” além mar. Era um pouco o regresso ao tempo das caravelas, mas desta vez com os angolanos a “descobrirem” a antiga potência colonizadora. O dito cujo, estamos a falar do cadeado, era de carácter estratégico e foi montado pelos próprios portugueses para evitar que as suas empresas caíssem totalmente nas mãos dos estrangeiros, sobretudo dos vizinhos espanhóis, sem impedir que eles as recapitalizassem. Quem foi que disse que o esperto só almoça? (O PAIS)

por Reginaldo Silva

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