Renan Calheiros, último escudo de Dilma, agora sob máxima pressão

Renan Calheiros, em dezembro de 2015. (Lula Marques Agência PT)

Para analistas, Calheiros não se moverá para apressar o impeachment, preservando-se até o final

Com o processo de impeachment aprovado na Câmara, todos os olhos se voltam para Renan Calheiros, o presidente do Senado que, a partir da tarde desta segunda, tem o comando do procedimento a partir de agora. Quando o ex-presidente Fernando Collor sofreu o processo de impeachment em 1992, do momento em que a Câmara votou até o parecer do Senado se passaram apenas três dias, num claro movimento de apressar um desfecho. Agora, o processo é distinto, mas não há prazos tão fixos como os da Câmara, de modo que o peemedebista Renan, que já sofre pressão da oposição para encurtar ao máximo os trâmites, é o dono do relógio.

“Pessoas pedem para agilizar, mas não poderemos agilizar de tal forma que pareça atropelo ou delongar de tal forma que pareça procrastinação”, disse o peemedebista alagoano nesta segunda. Ele prometeu “total neutralidade”, respeitar o contraditório e a Constituição. Foi mais um episódio exemplar do seu estilo, essência da força do PMDB, que tenta conciliar interesses distintos para surfar qualquer que seja a conjuntura. De acordo com observadores, o presidente do Senado, apesar da pressão, vai tentar se manter fiel a esse figurino até o final, para evitar queimar pontes mesmo dentro do PT.

À Câmara alta cabe admitir ou não o processo e, em caso positivo, julgar em até seis meses. Com a chegada do processo ao Senado, a Casa terá criar uma comissão especial. Tudo começa com a leitura, nesta terça, da decisão da Câmara na ordem do dia. Às 11h, haverá reunião com líderes sobre prazos e proporcionalidade para compor a comissão que terá 21 membros. O mais idoso vai convocar a comissão, que elegerá por votos o presidente e o relator. Essa também vai ser a comissão processante. “Não me compete avaliar o processo da Câmara”, disse Renan. O presidente do Senado prometeu a eleição da comissão o mais rapidamente possível. Até 10 dias úteis é prazo da comissão para proferir parecer. “Vamos seguir o processo legal. Vou pedir aos líderes a presteza e celeridade nas indicações dos nomes”, continuou.

Segundo um ex-ministro dos Governos Lula e Dilma do PMDB, enganam-se tanto os que veem Calheiros como um aliado para toda a hora do PT – ou “a última trincheira do Governo dentro do PMDB”, como já foi sugerido –, quanto os que acreditam que ele vai acelerar o processo de impeachment agora que ele bateu na porta do Senado. “A única coisa que eu espero é que o Renan vá levar o impeachment dentro dos prazos, sem chamar atenção. Só desembarca quando não houver mais volta, mas mesmo assim não vai queimar suas pontes com o PT”, diz.

“A única coisa que eu espero é que ele vá levar o impeachment dentro dos prazos, sem chamar atenção. Só desembarca quando não houver mais volta, mas mesmo assim não vai queimar suas pontes com o PT”

Entender esse comportamento é fácil, comenta esse ex-ministro: “Basta lembrar que o grupo do Senado do PMDB, do qual Calheiros, ao lado de José Sarney, é um dos principais integrantes, foi o primeiro da legenda a expressar apoio ao Governo Lula, em 2003”. Além disso, o PT foi determinante para a eleição de seu filho, Renan Filho, como Governador do Alagoas, Estado natal e reduto do poder político da família. Dar as costas para o partido do qual foi base durante 13 anos seria atropelar o seu modo de fazer política. Não há, contudo, fidelidade ao PT, mas cautela: ele vem jogando o jogo com um olho dentro e outro fora das disputas de sua própria legenda.

Para o cientista político Rudá Ricci, Calheiros é um dos políticos mais experientes do Brasil. “Ele é aberto ao diálogo, tenta trazer os outros para perto de suas posições sem forçar a barra, é didático em suas conversas, tem um poder de convencimento acima da média”. Essas habilidades seriam únicas para enfrentar as turbulências que ele provavelmente calcula que um eventual Governo Temer teria. “Além disso, ele parece estar com o horizonte aberto para o futuro. Lula ainda é muito forte em 2018, porque ele assumiria uma posição beligerante agora? Ele sabe como o Nordeste vota, ali é sua casa, não vai se arriscar se indispondo com o PT”, diz Ricci.

“Ele é aberto ao diálogo, tenta trazer os outros para perto de suas posições sem forçar a barra, é didático em suas conversas, tem um poder de convencimento acima da média”

“Acredito que de maneira gradativa ele vai cedendo para a maioria do PMDB, mas vai fazer isso de forma muito cuidadosa” comenta Ricci. Segundo o jornal Valor Econômico, oito senadores pmdbistas (de um total de 18) já se declaram abertamente a favor do impeachment. A voz principal deles talvez seja a de Romero Jucá, hoje presidente do PMDB. Até agora, contudo, isso não tem sido motivo de confronto entre Jucá e Calheiros. “Com o impeachment no Senado será muito difícil revertê-lo e o Renan não vai se desgastar nesse sentindo, mas ficará, isso sim, com a posição de quem fez o jogo dele, tentou fazer o PMDB ficar do lado do PT, mas sem constranger ou barrar posicionamentos de seu partido dentro do Senado”, comenta o ex-ministro.

Em Brasília, há quem veja aí um jogo de cena programado entre Jucá e Calheiros: enquanto um mantém isenção e pontes abertas nos dois lados, o outro trabalha no convencimento do impeachment, nenhum dos dois busca o confronto, e, independente do resultado, os dois saem bem. Para o analista político e diretor da consultoria Arko Advice, Thiago Aragão, a explicação soa muito perfeita, até artificial, para ser verdadeira. “A coisa é mais simples que isso, menos tramada, o Renan simplesmente não precisa tomar uma atitude conclusiva antes da hora. O processo está andando, ele só precisa deixar o jogo correr. Quanto mais isento ele conseguir ficar, melhor para ele”, opina Aragão.

Nesse momento, Calheiros é alvo de nada menos que nove inquéritos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), sendo investigado sob suspeito de irregularidades em diferentes frentes.

Em 2007, o senador alagoano renunciou à presidência da Casa para escapar de um processo de cassação. Na época, ele foi acusado de pagar a pensão da jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha, com dinheiro proveniente de propinas de um lobista. Nesse momento, é alvo de nada menos que nove inquéritos da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), sendo investigado sob suspeita de irregularidades em diferentes frentes. Se por um lado, ele foi reconduzido à presidência do Senado seis anos depois do escândalo (que atualmente está engavetado no Supremo), por outro, apesar de ser figura carimbada na Lava Jato, tem conseguido não chamar tanta atenção, pelo menos não tanto quanto Cunha. Prova inconteste, segundo Aragão, da força e habilidade do senador.

Hoje, se Calheiros inspira o velho espírito do PMDB, dado a conciliações e arranjos, o presidente da Câmara é o oposto: um novo PMDB com rompantes e posições radicais que, na lógica do partido, talvez não se sustente durante muito tempo. “Quando Cunha ganhou uma posição de destaque e passou a ser personagem principal da oposição, Renan automaticamente passou a ter uma atitude ainda mais conciliadora. Ele deixou claro tanto interna quanto externamente que não vai inverter ordem de votação, não vai usar cada detalhe do regimento para incentivar a oposição ao Governo” comenta o ex-ministro. Sua posição de conciliador (capacidade tão característica do PMDB para lidar com conflitos) faz com que ele continue sendo confiável, ou, ao menos, uma peça importante para a negociação entre – e dentro – dos dois lados. Independente do que acontecer daqui para frente. (EL PAIS)

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