Pinto da Costa reeleito presidente do FC Porto com 79% dos votos

Pinto da Costa (Ricardo Almeida)

Num sufrágio que teve a participação de 2.403 sócios, muitos dos votos foram considerados nulos porque continham frases de apoio ao FC Porto e a Jorge Nuno Pinto da Costa, que concorreu à liderança do clube sem oposição.

Pinto da Costa foi hoje eleito para o seu 13.º mandato como presidente do FC Porto, com 79% dos votos, enquanto os restantes 21% foram nulos, anunciou o secretário da mesa da assembleia-geral, Sardoeira Pinto.

Segundo o dirigente, num sufrágio que teve a participação de 2.403 sócios, muitos dos votos foram considerados nulos porque continham frases de apoio ao FC Porto e a Jorge Nuno Pinto da Costa, que concorreu à liderança do clube sem oposição.

Pinto da Costa, que aos 78 anos é o mais antigo presidente de um clube do principal escalão do futebol português, foi eleito pela primeira vez a 14 de Abril de 1982, precisamente há 34 anos, e tem agora pela frente um mandato de quatro anos.

Votaram nestas eleições 2.403 sócios, o que representa um crescimento de 91% relativamente às eleições de maio de 2013.

“Compreendo que, havendo só uma lista, não há grande motivação para a participação, mas fico feliz por ver que o dobro das pessoas votaram e favoravelmente”, disse Pinto da Costa, em declarações ao Porto Canal.

Com uma lista de apenas seis vice-presidentes, a novidade é Emídio Gomes, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN), que já integrava o Conselho Consultivo do clube e a Comissão de Vencimentos da SAD, será responsável pela ‘pasta’ do planeamento de novos empreendimentos, numa lista de apenas seis ‘vices’, menos de um terço dos 14 anteriores.

Realce ainda para a exclusão de Reinaldo Teles, que esteve em praticamente todas as direções encabeçadas por Pinto da Costa, embora o histórico dirigente mantenha o cargo de administrador da sociedade desportiva dos ‘azuis e brancos’.

Os restantes vice-presidentes, que transitam da anterior equipa directiva, são Fernando Gomes (Sector financeiro), Adelino Caldeira (Sector jurídico), Antero Henrique (Futebol), Alípio Jorge (Casas, delegações e filiais) e Eduardo Valente (Património).

O conjunto de directores a votos é constituído por António Borges (andebol), Vítor Hugo (basquetebol), Eurico Pinto (hóquei em patins), Luís Fernandes (natação), Faria de Almeida (relações institucionais) e Rodrigo Barros (provedor dos sócios).

A caminho do terceiro ano consecutivo sem vencer o título de campeão nacional (o FCP está a 12 pontos do Benfica e 10 do Sporting) a liderança de Pinto da Costa nunca foi tão contestada, nem mesmo quando, no início deste século, o Porto acumulou três épocas sem vencer o campeonato. Mas desta vez as coisas são diferentes, porque além da crescente afirmação do Benfica também é apontado o dedo à ausência do “portismo” quer na equipa azul e branca, quer na direcção.

Já este mês de Abril, foram colocadas tarjas à porta da residência do presidente portista, onde podia ler-se “Je suis comissionista” ou “Desculpa mestre Pedroto… o presidente anda cego com as comissões”. E em entrevista ao Porto Canal, a 7 de Abril, Pinto da Costa assumiu haver razões para preocupações nas hostes portistas: “Batemos no fundo”. Críticas em maior ou menor surdina afiançam que em todos estes anos nunca Pinto da Costa esteve tão isolado.

Todavia o líder azul e branco assegura que se recandidata precisamente para recolocar o Porto no caminho certo e devolver a alma aos dragões. “Eu candidatei-me porque verifiquei que as coisas estão mal e que têm de voltar a ser como eram. Sinto-me capaz, e tenho a certeza absoluta que vamos dar a volta ao que está mal”, atirou Pinto da Costa que, perante as críticas ao seu alegado acomodamento, garante que “não me candidato para ganhar o que ganhei, eu candidato-me para que o FC Porto volte a ser aquilo que era durante a minha presidência”.

“Mais do que presidente, sou adepto”, conclui o presidente numa tentativa de regresso ao portismo que fez do FCP um clube de dimensão internacional. E o adepto Pinto da Costa já avisou que até ao fim desta época todos os futebolistas da equipa principal vão estar sob avaliação, e aqueles que não mostrarem que merecem jogar de dragão ao peito receberão guia de marcha. Mas desta feita, pela primeira vez, também a liderança de Pinto da Costa será avaliada por tudo e todos.

Um dragão eterno

No dia 3 de Março Pinto da Costa foi reconduzido como presidente da SAD portista para o quadriénio 2016/2019, com a proposta para a nova administração, que passou a contar com sete representantes, incluindo Antero Henrique, a ser aprovada com 99,9995 por cento dos votos a favor e 0,0005 por cento contra.

Assim, Pinto da Costa continuará à frente dos destinos da SAD portista até 2019, e do clube até 2020.

Depois das várias oportunidades para “sair por cima”, como penta campeão em 1999, como vencedor da Liga dos Campeões em 2004, ou mesmo em 2011 como campeão nacional e vencedor da Liga Europa, Pinto da Costa passa hoje por uma das piores fases dos 34 anos como presidente portista. Apesar de ter ainda hipóteses de vencer a Taça de Portugal, o Porto está há muito afastado da luta pelo título.

Ao não vencer o campeonato em disputa, os dragões vão acumular três anos seguidos sem serem campeões nacionais. Situação que, no legado de Pinto da Costa, apenas se verificou por uma vez, entre 2000 e 2002. Insucesso rapidamente esquecido porque, entre 2003 e 2004, o Porto acabou por vencer todos os títulos possíveis, com a orientação de José Mourinho e a magia de Deco.

O presidente mais titulado de sempre

Apesar de o clube estar na mó de baixo, os portistas parecem confiar no presidente. Manuel Serrão, empresário e reconhecido adepto portista, afastou preocupações porque “não é a primeira vez que isto acontece”.

E apesar de alguns erros que vêm sendo apontados à gestão desportiva do clube nestes últimos anos, Manuel Serrão, um critico da contratação do já demitido Julen Lopetegui, disse ao Negócios:”Não me importo nada se comete erros de vez em quando. Nos últimos 30 anos foram poucos erros”.

Poucos erros que permitiram a Pinto da Costa deter um palmarés invejável. Enquanto presidente do FCP venceu 58 troféus, com destaque para os 20 títulos de campeão nacional, para as duas Taças dos Campeões Europeus/Ligas dos Campeões, as duas taças UEFA/Liga Europa, e ainda as duas Taças Intercontinentais. “É o presidente mais titulado de sempre. Ultrapassou o Santiago Bernabéu”, resumiu com satisfação José Guilherme Aguiar, ex-dirigente portista e actual vereador da câmara de Gaia. “É um legado irrepetível”, acrescentou.

Por outro lado, esta recandidatura acontece num momento invulgar. Vítor Baía, o jogador portista mais titulado de sempre, e um dos futebolistas preferidos de Pinto da Costa, teceu recentemente duras críticas à direcção do Porto, mostrando mesmo disponibilidade para suceder ao eterno presidente.

Habituado a ser um líder incontestado, Pinto da Costa ouviu, desta feita, a voz dissonante de alguém que já foi um dos “seus”. Mas se a unanimidade sempre reinou entre as hostes portistas, o percurso de Pinto da Costa não foi nunca incólume a polémicas e obstáculos vários.

O fantasma da corrupção

Vezes sem conta o nome de Pinto da Costa foi associado a casos. O mais visível foi o processo “Apito Dourado”. Em 2004, após buscas a sua casa que apanharam Pinto da Costa ausente – depois de ter sido avisado, segundo acreditou a polícia – na Galiza, foi constituído arguido por corrupção desportiva e tráfico de influências, um processo relacionado com os jogos do Porto entre 2002 e 2004, um período de domínio dos dragões, quer a nível nacional, quer europeu. Os processos acabariam arquivados. Para Guilherme Aguiar não há margem para dúvidas. “A realidade é clara. Foi acusado em três processos e foram arquivados. Não foram apurados quaisquer factos”.

Mas será este processo uma mancha no currículo e legado de Pinto da Costa? Uma vez mais, este antigo dirigente desportivo crê que não. “Não vejo qualquer dano para o legado que o Pinto da Costa vai deixar. E esse legado são os títulos”, atira. “Não consigo ver nenhuma actividade negativa que lhe ensombre o currículo”, acrescenta Manuel Serrão.

Já em 2016, Pinto da Costa viu-se envolvido noutro caso judicial. Em Janeiro foi acusado pelo DCIAP de ter recorrido em diversas situações aos serviços de segurança privada ilegal. O processo ainda decorre, mas Guilherme Aguiar desvaloriza considerando ser “evidente que ter-se-á servido de vigilantes que não estavam devidamente autorizados para a prática daquela actividade”.

As polémicas multiplicam-se ao longo dos anos. Em 1994, ficou célebre o caso da “penhora da retrete”. Uma repartição de Finanças emitiu um acto de penhora do estádio das Antas devido às dívidas do clube. Numa polémica reunião com os sócios no pavilhão das Antas, Pinto da Costa faz um célebre discurso:

“Acabo de ser avisado de que vem a caminho do pavilhão do FCP a GNR com o pretexto de que estará aqui uma bomba. Se estiver aqui uma bomba eu espero que ela expluda”, proclamou para gáudio da plateia. Meses antes haviam sido os próprios serviços do FCP a apresentar como bens à penhora duas cadernetas prediais: uma era o estádio e a outra continha, entre outros bens, uma retrete. E Pinto da Costa aproveitou como ninguém a “retrete” para ridicularizar o processo fiscal.

Asseverou então: “Enquanto existir esta penhora, o FC Porto não se sentará com ninguém, não dialogará a dívida nem pagará um tostão dela”. A solução passaria pelo Totonegócio e Pinto da Costa saía por cima. Não sem antes recorrer à velha máxima da guerra norte-sul. “O que se pretende atingir é se calhar um dos últimos baluartes do norte do país”, acusava.

Apesar de acostumado às vitórias, nem sempre o final teve desfecho feliz para Pinto da Costa. Rui Rio, ex-presidente da Câmara do Porto, é talvez a face da maior derrota infligida ao presidente portista. Rio foi eleito, em 2001, presidente da câmara do Porto, após derrotar o socialista Fernando Gomes, que contava com o apoio de Pinto da Costa e que mais tarde viria a integrar a direcção da SAD portista, onde permanece. O autarca social-democrata levantou suspeitas de favorecimento do anterior executivo autárquico ao FCP e acabou por levar à interrupção das obras para a construção do Estádio do Dragão. Rio recusaria mesmo aprovar o plano de pormenor das Antas.

Foi então que Pinto da Costa declarou guerra. E em 2005, entrou na campanha eleitoral, ao lado de Francisco Assis. Ambos perderam. Em 2009 o apoio conferido a Elisa Ferreira não teve melhores resultados. Rui Rio conquistou maiorias absolutas em 2005 e 2009. Nunca Pinto da Costa se tinha envolvido tão afincadamente em campanhas eleitorais. Perdeu. Foi claramente a maior derrota política de Pinto da Costa.

Dividir para reinar

Encontrar um inimigo externo para assegurar a unidade interna, semear discórdia entre os principais clubes de Lisboa,Sporting e Benfica, e assim enfraquecer o eixo sulista, e estabelecer relações privilegiadas com os decisores do mundo desportivo – tudo isto foram tácticas habilmente utilizadas por Pinto da Costa para fazer o FCP vingar.

Para construir os alicerces desta estratégia, Pinto da Costa contou com o importante contributo de José Maria Pedroto, possivelmente o treinador português que mais inovou antes do aparecimento de José Mourinho. Foi com Pinto da Costa na direcção do departamento do futebol, e com Pedroto a treinador, que o Porto interrompeu o longo jejum de 19 anos sem vencer o campeonato nacional. A interrupção foi conseguida com um bicampeonato.

Mas em 1980 Pinto da Costa sai do Porto em rota de colisão com o então presidente Américo de Sá, que se filiara no CDS e via o discurso anti-Lisboa de Pinto da Costa e Pedroto como prejudiciais. Nesse ano tinha ficado pelo caminho a possibilidade do primeiro tricampeonato portista da história. Acabando por ser o Sporting a vencer.

Pedroto e os jogadores ficam do lado de Pinto da Costa e emitem um comunicado conjunto em que chamam Sá de “traidor”. Pedroto é suspenso e vários jogadores entram em greve na pré-época do Verão de 1980. Seria este “Verão quente” portista, que teve a mão de Pinto da Costa em todo o processo, o ponto de inflexão do clube.

Pinto da Costa prepara-se então nos bastidores, durante dois anos, e consegue chegar à presidência do clube em 1982. Uma vitória alcançada com uma larga maioria dos votos. Desde então, a história é conhecida. Mas uma outra história ficou por conhecer. Pedroto, que com Pinto da Costa a presidente levou, em 1984, o Porto à primeira final europeia, perdida para a Juventus, morreria em 1985. Ficou, assim, por saber o que poderiam ter feito os dois homens que criaram as raízes para o sucesso desportivo do clube. (Jornal de Negocios)

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