Negociações de Temer apontam os ‘sacrifícios’ para a colheita futura

O vice-presidente Michel Temer. (UESLEI MARCELINO REUTERS)

Reforma trabalhista é a promessa da vez, com destaque para terceirização.

O atual vice-presidente do Brasil, Michel Temer, principal beneficiário do impeachment da presidenta Dilma Rousseff e ex-aliado dela no Executivo, já encarnou o papel de presidente e negocia um futuro Governo para o Brasil. Ele conta com nomes ilustres da oposição ao PT que assumiriam pastas vitais, tais como Fazenda e Saúde.

As negociações de Temer nos bastidores são mais um sintoma de que Dilma enfrenta um julgamento político, cuja sessão decisiva começou nesta sexta, com todas as chances de perder e em um ambiente de iminente mudança na cúpula do Estado. As probabilidades de que Rousseff sobreviva ao impeachment são cada vez menores, a julgar pelas estimativas dos especialistas.

A euforia da vitória, no entanto, pode ser efêmera na visão de alguns observadores. Isso porque um eventual Governo de Michel Temer enfrentará os mesmos problemas econômicos da gestão de Rousseff e precisará ministrar os remédios amargos que ela não conseguiu com a avalanche política que tomou Brasília desde a sua posse no ano passado. O próprio vice, no áudio divulgado esta semana a seus correligionários, afirmou que “sem sacrifícios, nós não conseguiremos também avançar para retomar o crescimento e o desenvolvimento que pautaram a atividade do nosso”.

A dúvida é quem serão os primeiros da fila a irem para o sacrifício. O peemedebista já sinalizou a aliados que deve realizar cortes na máquina pública e colocar em pauta as reformas da previdência e trabalhista, uma promessa de todos os presidentes em início de mandato. O deputado federal Alceu Moreira (PMDB-RS), concorda que o início de um eventual Governo Temer não será fácil, mas acredita que as reformas serão aceitas pela população e pelos parlamentares. Um dos projetos que devem avançar é a terceirização, que passou pela Câmara. “Ninguém vai querer contestar uma solução nacional para 10 milhões de desempregados”, afirma Moreira. “Quem vai discutir terceirização sem ter um emprego?”.

O deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS), que tem frequentado a residência oficial do vice para participar das discussões do possível novo Governo, reforça a expectativa de que dias piores virão para voltar ao equilíbrio. “Não se toma remédio amargo por gosto, mas porque é necessário”, diz o parlamentar, que já vislumbra críticas por parte de sindicalistas ligados ao PT. “Ninguém vai para a mesa de cirurgia por gosto. O corte, o sacrifício, é para salvar o bem maior”, completa.

Para tornar as reformas mais palatáveis, Perondi afirma que serão feitas discussões com os trabalhadores para que eles saibam que “se não for feita a reforma eles não receberão quando se aposentarem”, de tão crítica é a situação da previdência, por exemplo.

Enquanto o amanhã não chega, no coração de Brasília Temer tem seu palácio aberto aos muitos deputados ansiosos para conversar com ele, transformando as visitas ao Palácio do Jaburu, casa oficial do vice, em uma autêntica “romaria”. Entre os ministeriáveis cotados para o novo governo podem ser vistas as digitais dos tucanos. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, e que foi cotado para ser o ministro de Aécio Neves caso ele vencesse em 2014. O senador tucano José Serra também aparece na maioria das apostas para assumir a delicada pasta da Saúde.

Além dos nomes, o fato de já negociar um gabinete por si só mostra a atitude de Temer, que teve ‘vazado’– ele garante que foi enviado por engano – um áudio como se já fosse chefe de Estado. Se ganhar o posto, Temer terá de ser também habilidoso para demonstrar que tudo não passou de um mal-entendido. Mas, terá pouca margem para ganhar simpatia popular depois de um processo de impeachment que o beneficiou, e já lançando a profecia de suas medidas de austeridade.

Rousseff tem aproveitado as últimas entrevistas concedidas à imprensa para fortalecer um rótulo golpista, colando a imagem do presidente da Câmara, Eduardo Cunha a ele. “Chefe e subchefe do golpe”, afirmou ela nesta semana. “E o que considero mais grave é que, se eu deixar de ser presidenta da República, ele vai assumir o cargo de vice-presidente”. A dúvida agora é se a Operação Lava Jato continuará implacável sob a batuta dos peemedebistas. (EL PAIS)

por Antonio Jiménez Barca / Gil Alessi

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