Mas afinal o que é que a kizomba tem? Nelson Freitas explica

Nelson Freitas (Foto: D.R.)

Ao largo dos circuitos instituídos e do gosto dominante, construiu o seu percurso ao mesmo tempo que a kizomba se impôs. Há quatro anos actuava nas discotecas africanas, agora é uma vedeta pop em Portugal e Angola e enche o MEO Arena. Na Holanda, onde nasceu, fomos ao encontro de Nelson Freitas.

Desejou ser cozinheiro, jogou futebol, tornou-se cantor, tem família cabo-verdiana mas nasceu na Holanda, sendo aos 40 anos uma inesperada vedeta pop em Angola e Portugal, apesar de não dominar na perfeição o português, mas não faz mal porque o seu maior sucesso – Bo tem mel (2013)  – mistura inglês, crioulo e português. Há quatro anos fazia apenas o circuito das discotecas africanas. Hoje é um dos responsáveis para que a kizomba se tenha transformado numa das bandas-sonoras de Portugal.

Uma cadência rítmica insinuante, um som digitalizado mais sensual do que sexual e letras que evocam invariavelmente momentos a dois. É isso. Nos últimos anos esta música parece estar em todo o lado. Nos carros, bares, ginásios, nos espaços comerciais, nos intervalos dos jogos de futebol, nas telenovelas ou em programas de entretenimento da TV, não se ouve outra coisa.

A kizomba conquistou os portugueses. Embora essa omnipresença também tenha feito surgir vagas reactivas que não toleram essa música ou, pelo menos, o que ela parece representar – uma certa africanização cultural de alguns centros urbanos do país.

Uma coisa é certa: é impossível passar ao lado de um acontecimento que, em parte, é obra de inúmeros cantores ou músicos cuja identidade acaba por se diluir na elevada edição de colectâneas. Mas existem excepções a esse anonimato. No caso de Portugal dois rostos têm sobressaído com um sucesso assinalável junto do grande público: Anselmo Ralph e Nelson Freitas.

O que é curioso, principalmente no caso do segundo, é que a sua trajectória é praticamente desconhecida. Em Novembro de 2013 quando actuou no Coliseu de Lisboa, e um ano depois no MEO Arena, muita gente interrogou-se sobre quem seria aquele cantor que encheu aquelas icónicas salas. Não espanta. No fim de contas o seu percurso foi sendo construído ao largo dos circuitos instituídos, do gosto dominante e da imprensa mais influente.

Até há pouco mais de três anos o seu raio de acção era delimitado pelas chamadas discotecas africanas de Lisboa, em particular “o Mussulo e o Luanda”, diz-nos, e também do Porto. Hoje não existe semana académica, queima das fitas, festivais como o Sudoeste, ou salas de concertos de Norte a Sul, onde não tenha já actuado.

“Portugal está a tornar-se no centro, na capital da música, para cantores como eu”, diz-nos, em Roterdão, Holanda, onde nasceu, cresceu e vive. O que ele quer dizer é que durante anos Paris parecia ser o destino ideal para os cantores de origem cabo-verdiana que queriam triunfar no mercado global (de Cesária Évora a Lura) perante a indiferença da indústria musical portuguesa. Na actualidade há uma predisposição para o consumo de música africanizada de expressão portuguesa que não havia.

De tal forma assim é que ele, que sempre viveu em Roterdão, prepara-se para passar mais tempo agora em Lisboa, onde acaba de editar o álbum Four pela multinacional Universal, com os convidados Richie Campbell, Mayra Andrade ou Mikkel Solnado.

Ele viveu desde sempre na Holanda. Os avós e pais, originários de Cabo Verde, cresceram também ali. Mas quando aterra em Portugal passa a ser de imediato “africano” ou “cabo-verdiano”. A semana passada, no programa da TV, 5 Para a Meia-Noite, o apresentador Rui Unas, entrevistava-o, e insistia em questioná-lo sobre as diferenças entre ser cabo-verdiano na Holanda ou aqui.

Ele, holandês, europeu, não desfez a imprecisão. Sabe que a maior parte dos portugueses brancos incorre na mesma inexactidão. Se tem pele negra só pode ser “africano”. “Nasci em Roterdão, sou holandês e os meus pais são de Cabo Verde”, diz-nos no carro que nos transporta até ao bairro onde cresceu. “O meu avô veio sozinho, depois a avó e, finalmente, os meus pais. A minha mãe, que é da ilha de São Nicolau, tinha apenas 15 anos quando aqui chegou.”

Segunda mais importante cidade da Holanda, Roterdão é sede do maior porto marítimo da Europa, sendo também conhecida pelas construções modernas, muitas delas concebidas por arquitectos ilustres. “Está a ver aquelas construções?”, aponta na direcção das icónicas casas cúbicas concebidas por Piet  Blom,  “muitas pessoas não acreditam, mas são realmente habitadas”, diz ele, pouco antes de chegarmos ao bairro onde cresceu no centro da cidade.


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“Aquela é a primeira casa que o meu avô comprou quando aqui chegou” afirma, indicando uma habitação acastanhada com janelas em três pisos, perto de um dos canais que circundam a cidade. “As minhas raízes, a minha história, começa tudo ali.”

A comunidade cabo-verdiana na cidade é da ordem das “20 mil pessoas”, afirma, invocando que a emigração foi iniciada por marinheiros atraídos pelo porto da cidade. “Toda a gente trabalhava nos barcos. Aliás os meus avós compraram aquela casa e alugavam quartos a cabo-verdianos que chegavam de barco.”

É por isso que a casa ainda hoje é conhecida. “Era ponto de referência. A maior parte das pessoas conhece aquela casa, ou porque viveram lá ou passaram lá alguns dias.” Ele também passou lá imenso tempo, afirma, olhando para ela e descrevendo-a: “tem aquelas duas entradas, com as portas brancas, são três pisos e o lado direito era sempre alugado.” Até aos 25 anos foi vivendo entre a casa dos avós e da mãe. “A escola também era aqui e era a minha avó que me ia buscar porque a minha mãe estava a trabalhar e eu acabava por dormir aqui muitas vezes.”

Na parte de baixo foi onde teve o seu primeiro estúdio. “Aluguei aquele bocado da casa e foi ali que comecei a fazer música”, menciona para uma fracção que já terá sido demolida. “Foi uma dor de coração”, ri-se, “porque a passagem de ano, aniversários, ou a primeira editora Miss Jane Records, começou tudo aqui.”

Ao lado da casa dos avós havia uma escola de cozinha o que originaria uma das suas paixões. “Cheirava sempre muito bem e eu via as pessoas a cozinhar o que me fascinava. Durante anos queria ser cozinheiro, cheguei a praticar, mas concluí que não tinha paciência”, declara rindo-se, estabelecendo comparações entre aquilo que come na holanda e Portugal. “Vocês têm uma das melhores cozinhas do mundo mas é repetitiva, daí que quando estou lá sinta saudades dos restaurantes de Roterdão.”

Andando com ele pela cidade percebe-se que a conhece bem. Todas as ruas são merecedoras de uma história. “Está a ver aquela fonte? É ali que os adeptos do Feyenoord festejam os títulos ou celebramos os feitos da selecção.” A relação com o futebol vem de longe, tendo feito parte do plantel do Sparta de Roterdão, a segunda equipa da cidade, e jogado até aos 22 anos. “Era extremo-direito, mas depois de ter tido uma lesão grave”, expõe, indicando para o joelho, “nunca mais treinei ou recuperei.”

Na casa dos avós e dos pais ouvia morna e coladeras, ou seja, “música cabo-verdiana antiga”, como ele a descreve. Quando saía de casa, na rua, entre os amigos, era o hip-hop e o R&B americano que prevalecia. E também o zouk das Antilhas, por influência do tio DJ Tony Ramos. “Essas influências estão presentes na minha música hoje”, esclarece. “Em tudo o que faço existe um pouco de zouk, de ritmos com influência de Cabo-Verde, mas também de R&B e hip-hop. Quando comecei esse estilo não havia exactamente um nome. Agora chamam-lhe kizomba”, ri-se.

Em todas essas tipologias, a fisicalidade, a performance e a dança são indissociáveis da música. Não espanta que tenha sido bailarino na adolescência.  “Eu, o meu irmão e amigos da rua acabámos por criar um grupo de dança R&B que teve bastante projecção nesse tempo. Chegámos a ganhar concursos de dança, na linha do breakdance, e recordo-me de num deles termos obtido mais de 500 euros o que, na altura, era muito para nós.”

No final dos anos 1990 dá-se o acontecimento que lhe iria mudar a vida. O tio DJ preparava uma compilação e faltava um tema para ficar completa. É então que resolve tentar a sua sorte, perguntando-lhe se ele e os amigos poderiam tentar conceber uma canção. “Acabamos por fazer a música Hoje em dia e, às tantas, começaram a perguntar-nos quando é que saía o álbum e foi assim, quase por acaso, que acabámos por lançar um CD.”


Nos estúdios Wow-Pow, onde está a trabalhar a cantora Laise Sanches, cujas gravações tem supervisionado. Ao longo dos anos foi lançando novos artistas DR

Os Quatro, assim se chamava o projecto, editaram três álbuns entre 1997 e 2005, alcançando um sucesso inesperado em Cabo Verde, Angola e Moçambique, com uma sonoridade algures entre o zouk e a kizomba, com influências de R&B e hip-hop. “Quando fizemos o primeiro disco o impacto foi acima de tudo em Cabo Verde, depois com o segundo a coisa alargou-se para Angola e Moçambique e com o terceiro – quando eu já tinha ideias para prosseguir a solo – fizemos ainda mais sucesso e acabámos por andar em digressão para aí uns três anos. Foi uma loucura!”

Na Holanda ninguém os conhecia, em Angola eram celebridades. “Era estranho”, exclama. “Aqui não eramos ninguém e em Angola eramos acompanhados por seguranças, andávamos em grandes carros e ficávamos em hotéis de cinco estrelas. Eramos putos, não percebíamos nada de negócio e isso fez com que muitas pessoas tivessem ganho dinheiro à nossa custa. Mas nessa altura estávamos noutra: viajávamos, eramos pagos e divertíamo-nos.”

Nos Quatro era ele o elemento que se destacava e a ideia de prosseguir a solo foi-se impondo, diz-nos no gigante mercado coberto (Markhal) que domina a área de Laurenskwartier, um híbrido urbano com fachada de vidro que combina um átrio comercial com unidades de habitação. Ali haverá de confessar-nos que a convivência na adolescência com o tio foi fundamental.

“Quando comecei com os Quatro percebi que tinha uma voz que agradava, mas não tinha técnica e comecei a ter aulas para voz e piano. E depois comecei a escrever. Queria contar histórias mas não sabia fazê-lo e foi aí que comecei a comprar livros de composição. Já ao nível da produção o meu tio foi essencial.”

Na adolescência via-o criar bases rítmicas mas não o entendia. “Perguntava-lhe: mas onde estás a ouvir esses ritmos que estás a fazer? E ele: vêm da minha cabeça. E eu não percebia nada”, ri-se.

Mas tinha curiosidade e, aos poucos, foi-se emancipando. “Dizia-me para fazer um ritmo, sentir o baixo, demorei a interiorizar aquilo, mas a partir de determinada altura fazia-o sozinho. Nos Quatro criávamos e escrevíamos sempre juntos. Foi quando comecei a solo que aprendi mesmo como é que faz um som.”

Hoje canta, compõe, escreve e produz, embora esta última variante lhe escape cada vez mais. “No meu primeiro disco a solo 40% das produções eram minhas, mas no segundo e terceiro essa percentagem diminuiu.” No novoFour as estruturas rítmicas são assinadas por nomes como Loony Johnson, Landim, Ery Gomes, Boddhi Satva, Elji Beatzkilla ou Lil Saint. “Recebo imensos beats de pessoas que querem colaborar e produzir para mim”, justifica.

A maioria dessas fundações rítmicas não é aliciante, segundo ele, mas há sempre uma pequena percentagem que vale a pena. E quando ele sente que os objectivos não estão alcançados é ele que acaba por “trabalhar esse beat em conjunto com o produtor”, introduzindo pequenas alterações, ou então “acabo por chamar os meus músicos para enriquecermos aquela estrutura”, conclui.

Quando iniciou o seu percurso a solo, com o álbum Magic (2006), acabou por vender mais de 70 mil cópias, actuando nos países lusófonos e também na Holanda e noutros países europeus (Portugal, França, Suíça ou Itália) para “as comunidades africanas”, tendo o fenómeno prosseguido com o segundoMy Life (2010), do qual venderia mais de 90 mil cópias.


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Nessa altura não tinha editora – “não acreditavam na nossa música”, diz – optando por criar uma estrutura com o irmão, Eddy Parker, para garantirem a venda dos discos. “Ele fazia o management, eu a direcção artística e a distribuição era a partir de parcerias nos diferentes países”, conta. “Agora as editoras estão a assinar artistas do nosso ramo, mas até há pouco tinha-se que batalhar. Mas não me queixo, porque aprendi muito sobre este negócio.”

É o tipo de cantor que assume no seu discurso que a música é arte e negócio. O irmão e a mulher são os parceiros de engrenagem. Nenhum passo é dado sem que os três estejam de acordo. “A minha mulher trabalhava num banco, mas hoje está a tempo inteiro nisto, tal como o meu irmão.” Mas a família não é importante apenas por isso. “É sempre a eles e à minha filha que dou a ouvir os temas em primeira mão. O meu irmão puxa muito por mim porque é alguém que tem uma grande noção das tendências, ao nível da música, da produção e do mercado, seja nos Estados Unidos ou em África.”

Entre 2007 e 2012 veio a Portugal com alguma regularidade, mas apenas para actuar nas chamadas discotecas africanas em formato a solo. “Recordo-me de cantar em discotecas para 200 pessoas em que 95% eram africanos e 5% portugueses, mas essa variação foi mudando. Depois eram 500 e 100 eram portugueses e a partir de determinado momento houve mesmo uma transição. Agora provavelmente o meu público é 90% português e 10% africano.”

Para acompanhar essa mudança, a partir de 2013 inicia actuações ao vivo em Portugal com a sua banda, numa altura em que a kizomba já vingava. Há muitas variáveis que ajudam a explicar o sucedido. A presença africana secular. Novas permeabilidades culturais. E o irromper na última década, no caso da música, de uma nova geração urbana (praticantes de linguagens inspiradas no kuduro, afro-house ou tarraxinha como os Buraka Som Sistema, Batida, DJ Marfox ou a editora Príncipe, entre outros) que foram capazes de credibilizar novos imaginários pós-coloniais.

É verdade que não são experiências que tenham como objectivo o centro do mercado como é o caso de Nelson, mas contribuíram para a criação de um ambiente favorável ao irromper da kizomba junto de uma geração mais nova que já não cresceu com as cicatrizes coloniais, capaz de produzir ligações entre a cultura global do R&B e os traços actuais das músicas negras lusófonas.

“Os Buraka pegaram nas estruturas do kuduro e meteram ali algumas influências bem pensadas, tirando o género das margens e mostrando em muitas paragens que havia mais do que fado em Portugal”, expõe Nelson, argumentando que houve duas canções que contribuíram para que a kizomba chegasse a todo o lado.

“Em 2013 a minha canção Bo tem mel e o Não me toca do Anselmo foram importantes nessa evolução”, afirma. “Nessa altura já tinha havido a explosão em Angola e isso teve um efeito de arrastamento. De repente tinhas as classes sociais mais altas a ouvir e a aceitar essa música e começamos a fazer espectáculos noutros espaços, para outro tipo de pessoas e com outro tipo de media a interessar-se, espalhando a coisa de forma diferente.”

E depois, claro, existia o apelo intrínseco da música. É verdade que a kizomba, no vocabulário de Nelson sofre um tratamento aveludado de soul, com influências R&B, dancehall ou hip-hop. Mas o som, o imaginário, a sensualidade, a fisicalidade estão lá.

De repente parece existir um país a balancear-se ao som da kizomba que não se vislumbrava antes. Há quem viva o acontecimento com felicidade, tal como há quem ache o som plastificado ou argumente que se trata apenas de mais uma variação americanizada de raparigas, carros e vida sofisticada regada a dinheiro. Há quem proclame que as letras são sexistas. E quem alegue que a kizomba é só ginga, jogo, saudável malícia.

“Nas nossas músicas nos Quatro existia um pouco de objectificação da mulher”, diz-nos ele. “Aliás algumas das nossas músicas não tocavam na rádio porque eram baseadas no sexo. Naquela altura vivíamos aquilo como algo fixe. Do género: ena! Baniram-nos da rádio! Mas agora sou mais atento a essas coisas.”


Concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em Novembro de 2013. O seu primeiro grande momento de consagração em Portugal FOTO: BEATRIZ MATOS

Agora, diz ele, “aquilo que faço são canções de amor de teor universal. Há uns anos analisei o que está no Top10 da maior parte dos países e é isso: canções de amor. É isso que faço. Neste CD há um tema, Beatiful  lie, que remete para o estado do mundo, mas eu sei que nas nossas batidas as pessoas querem é estar próximas das damas, não querem falar sobre o estado do mundo, mas sim sobre a miúda mais linda que já viram na vida.”

Outro factor que tem apimentado o mundo da kizomba é a suposta rivalidade com Anselmo Ralph. Ele não a omite, mas coloca-a no plano da normalidade. “As pessoas olham para nós e dizem que estamos no mesmo ramo, mas só em parte isso é verdade porque 90% das músicas do Anselmo são R&B cantadas em português”, argumenta Nelson. “Acontece que as que que têm mais sucesso são as de kizomba. Nesse quadro compararam-nos e tentam criar um choque entre nós, mas a verdade é que já trabalhámos juntos em três músicas e somos apenas colegas.”

O que, diz ele, não exclui que seja também concorrentes. “Se um festival tiver programado um de nós, o outro é esquecido. Ou eu ou ele. Faz parte deste negócio. Não há muito a dizer. É a vida.”

No final de 2013 o país consumia com avidez a música de ambos, com Nelson a arriscar um espectáculo no Coliseu de Lisboa baseado no álbum desse ano, Elevate. Não era aposta ganha. Mas ele decidiu aventurar-se. “Foi o tudo ou nada”, diz. “A produção, o investimento foram meus. Se falhasse poderia ter sido terrível. Mas correu bem e depois desse concerto o boom foi incrível.”

Nessa altura já era uma celebridade em Angola. Em Portugal começava a sê-lo. E na Holanda continuava a vida pacata, apesar de no restaurante ter sido identificado e quando nos foi deixar no hotel, na recepção, de imediato terem inquirido: “mas, aquele, não era o cantor Nelson Freitas?” Ele ri-se, avaliando a sua projecção nos diferentes países: “aqui até podem conhecer-me, mas nós holandeses somos discretos. Em Portugal gostam de tirar fotos comigo e falar. Em Angola, esquece! Querem tudo!”, diz, irrompendo em gargalhadas. “Querem autógrafo, abraçam, choram e se estás no restaurante apontam-te todas as câmaras.”

O sucesso da kizomba não o admira. Prevê até que nos próximos anos vai expandir-se. “Daqui a dez anos vai haver um artista mega nisso. Não serei eu, nem o Anselmo, mas um puto qualquer a quem nós abrimos portas. Essa é a história dos géneros. No hip-hop aconteceu o mesmo. Nos EUA pensou-se que era moda passageira e hoje é uma cultura globalizada, a maior da indústria.”

Quando Nelson profere estas palavras já estamos nos estúdios Wow-Pow, onde está a trabalhar a cantora Laise Sanches, cujas gravações tem supervisionado. Ao longo dos anos foi lançando novos artistas, como aconteceu com a cantora Chelsy Shantel. Hoje não tem tempo. Laise é excepção. Discutem os dois a melhor forma de ela cantar sob uma batida kizomba. Repetem-se as tentativas. Até que o resultado agrada a Nelson que respira fundo. “Canta muito bem, é muito conhecida aqui na Holanda, escreve e tem ideias de produção, o que facilita o meu trabalho. Neste caso faço apenas a direcção artística e a editora a distribuição.”

No final da sessão ouvem-se alguns temas avulsos. O engenheiro de som põe a tocar o novo single de Drake,  a super-estrela do hip-hop. Chama-se One dance, com colaboração do nigeriano Wizkid, reflectindo óbvias influências de ritmos africanizados. “Isto é kizomba!”, exclama de imediato Nelson, tentando provar o seu ponto. “A kizomba está a chegar a todo o lado e ao mercado americano também. O Sorry do Justin Bieber tem muito a ver com as nossas batidas só que aquilo é feito à medida dele. É pop. Mas encaixa-se facilmente no mundo da kizomba.” E prossegue.

“Isto já está a acontecer há para aí dez anos, mas agora está a gerar-se um efeito de bola de neve”, afirma, exemplificando com aulas em países como a Holanda, Portugal, Rússia ou Noruega, e até congressos na Europa e EUA, para os quais tem sido convidado. “Por norma aquilo dura três dias e no final querem lá um cantor e isso tem feito com que eu tenha viajado pelo mundo”, diz, falando também dos festivais em Portugal ou França.

“E a verdade é que eu me posso encaixar em todos esses formatos”, exclama ele com evidente satisfação. “Hoje a nossa música faz parte do dia-a-dia das pessoas. Não é apenas qualquer coisa que se dança. Ouve-se em casa, no carro ou nos festivais e aí a experiência não é só dançar, mas sim apreciar o espectáculo.”


Hoje Nelson Freitas canta, compõe, escreve e produz, embora esta última variante lhe escape cada vez mais DR

Os seus modelos são, em grande parte, os grandes nomes americanos da cultura R&B e hip-hop que aprendeu a admirar na adolescência. Em Portugal elege algumas cumplicidades importantes – “sou amigo do Boss Ac, falo com o Kalaf e o Branko dos Buraka ou a Sara Tavares e dou-me com o Mikkel Solnado ou o Dino d’ Santiago”, afirma – enquanto os nomes de Kanye West, Jay-Z ou The Weeknd lhe surgem quando pensa em referências.

“Tento estar atento”, afirma. “O Kanye West está sempre na linha da frente. Sabemos que alguma coisa vai mudar a partir do que faz. Da mesma maneira o Jay-Z mostra que hoje existem muitas formas de estar no mercado. O processo é também importante. E eles sabem-no, derrubando barreiras, tentando trabalhar com inúmeras pessoas. Há minha maneira tento fazer o mesmo.”

No novo álbum a forma que encontrou de desafiar-se e de seduzir novos públicos foi através de colaborações. “Não queria repetir-me”, diz, “por isso fui procurar gente de que gosto. Pessoas do meu mundo. Têm a ver comigo. Quando oiço o Ritchie percebo que ele é bom e pergunto-me porque não é possível fazermos qualquer coisa juntos. A Mayra é a mesma coisa. É uma grande cantora, admiro-a. E é nessa base de respeito, mesmo que os universos sejam diferentes, que me apetece essas colaborações.”

Mas a música não é tudo. É preciso comunica-la. Sabe que os vídeos, o YouTube ou as redes sociais detêm um papel relevante. “Quando estou a compor já estou a imaginar como é que o videoclipe vai ser”, confessa. “Depois quando a música está pronta ponho a ideia do vídeo no papel e escolho um realizador que possa transmitir isso muito bem e iniciamos a produção.”

“Para a nossa música a internet foi fundamental. Há dez anos era impossível na China ser-se fã de Nelson Freitas porque a música não chegava lá. Hoje através do iTunes, das redes sociais, do YouTube, da internet, é possível. O ano passado toquei na Rússia. Há poucos anos era impensável.” Curiosamente, em Angola, o seu maior mercado, a internet não tem o mesmo tipo de poder, apesar de o contexto ter vindo a mudar nos últimos tempos.

“É fácil de explicar”, afiança. “Há cinco anos a internet em Angola era muito lenta e sacar uma música era uma complicação. Então as pessoas compravam CDs. Hoje já têm internet rápida e um acesso mais veloz às músicas. Mas é verdade que, em termos de vendas físicas, Angola continua a ser o nosso melhor mercado.”

Em Angola é superestrela. O lançamento do novo álbum vai acontecer na arena Dream Space, em Luanda, para 10 mil pessoas. Mas agora parece ser Portugal que o faz mover, embora diga em forma de previsão que “o mercado francês está com muita força.”

De momento está a vender a casa de Roterdão. “Estou quase sempre em Lisboa, portanto, a partir de agora quando regressar fico numa casa alugada mais pequena”, afirma, concluindo que não é necessário ter uma habitação grande na Holanda quando em trânsito. “Estou sempre de passagem, mas não me importo, quero é estar nos sítios onde estão a acontecer coisas relevantes.”

Ele sabe que a kizomba não vai ficar por aqui. Há um mundo ainda por conquistar e a filha também está preparada. “Fala português, inglês e holandês, para se adaptar, e também deveria aprender francês”, diz-nos à porta do hotel onde nos foi deixar. “Quem sabe se a próxima paragem não será Paris.” (publico)

Por: Vítor Belanciano

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