Marcelo no centro da Europa a pedir convergência em Lisboa

Marcelo cumprimenta a eurodeputada Marisa Matias, ex-adversária na corrida a Belém (LUSA)

Acabado de aterrar na residência do embaixador e futuro ministro da Cultura em Estrasburgo, Marcelo não perdeu tempo para reafirmar recados: é preciso convergência. Especialmente no sistema financeiro.

Para haver convergência não precisa de haver concordância, pode haver diversidade de opiniões e até de modelos económicos. Foi esta mensagem que o Presidente da República quis sublinhar, esta terça-feira, acabado de aterrar em Estrasburgo para um jantar com os eurodeputados portugueses na residência oficial do embaixador de Portugal junto do Conselho da Europa, que na quinta-feira vai ser empossado em Belém como ministro da Cultura. “Há neste momento na sociedade portuguesa dois modelos nas opções de governação, mas a democracia também se faz da riqueza dessa diversidade”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

E mais: “O clima pode não ser crispado apesar de haver diversidade de políticas”. Ou seja, é preciso conciliar “o plano dos consensos” com o “plano das divergências” para haver convergência. Mas convergência onde? Em quase tudo. Desde a política externa à defesa nacional, passando pela reforma do sistema político, pela saúde e, sobretudo, pelo sistema financeiro. Porque “enquanto os Orçamentos do Estado são objeto de apreciação ano a ano, variando conforme quem está no Governo”, o sistema financeiro não pode ter a mesma volatilidade. “Tem de ser bem mais duradouro”, disse, num recado dado a uma plateia de eurodeputados – como Paulo Rangel, Carlos Zorrinho, Nuno Melo, Marisa Matias, João Ferreira ou Marinho e Pinto – mas que se esperava ser ouvido em Lisboa.

O pretexto era uma receção aos eurodeputados portugueses a propósito do discurso que Marcelo fará amanhã no Parlamento Europeu, mas o recado que quis transmitir foi direto para Lisboa, nomeadamente para São Bento e para a São Caetano à Lapa. Segundo o Presidente da República, é na estabilidade do sistema financeiro que está a chave para o crescimento económico. “Não há crescimento económico se não houver financiamento da economia e isso passa pela estabilidade do sistema financeiro”, disse, acrescentando que “o máximo que se puder consensualizar no sistema financeiro é bom”.

A propósito do sistema financeiro – que é “uma matéria sensível, que preocupa” – Marcelo recuperou entrelinhas o tema do encontro de António Costa com a empresária angolana Isabel dos Santos, que muito reboliço causou no PSD com críticas face à suposta interferência do primeiro-ministro nos negócios privados da banca. Para Marcelo, “há setores do sistema financeiro em que o grau de intervenção pública é maior e outros em que o privado é mais apetecível”, sendo que se confessou “satisfeito” pelo desfecho do caso mais recente, numa alusão ao acordo alcançado entre o espanhol CaixaBank e a empresária angolana Isabel dos Santos para resolver o problema da exposição do BPI a Angola.

Acabei por ficar satisfeito por uma das peças de um puzzle complexo ter podido resolver-se”, disse.

Um convite ao futuro ministro para ver Molière

Num registo mais informal, falando aos jornalistas e aos eurodeputados numa sala apertada da residência do embaixador (e futuro ministro) Luís Filipe Castro Mendes, Marcelo desdobrou-se em elogios aos eurodeputados, “que têm funções e tarefas muito importantes, mesmo que algumas delas não cheguem a Portugal” em termos de visibilidade mediática, e que são figuras prestigiadas da sociedade portuguesa: ora “ex-candidatos à Presidência da República”, leia-se Marisa Matias, ora “ex-líderes partidários” ora “futuros líderes partidários ou futuros primeiros-ministros”, disse, num exercício de adivinhação.

Mas, além dos eurodeputados que acompanharam depois Marcelo num jantar à porta fechada, a atenção do Presidente da República virou-se para o anfitrião do jantar, o embaixador de Portugal junto do Conselho da Europa. E fez-lhe, mesmo, uma espécie de convite para sair em direto: uma ida ao teatro, para ver Molière, que foi aceite de imediato.

“Eu tencionava ir na quinta-feira ao Teatro Nacional D. Maria II ver a estreia de ‘O Impromptu de Versalhes’, de Molière, e gostava muito de ter a sua companhia, mas com a tomada de posse…”, começou por dizer o Presidente, a que recebeu de imediato uma resposta afirmativa. “O convite já foi aceite”, disse Castro Mendes do fundo da sala.

Já sobre a sua nova pasta, o diplomata e também poeta não se quis alongar. Questionado pelos jornalistas sobre as suas expectativas e sobre as vantagens de ter um diplomata na Cultura, Castro Mendes limitou-se a dizer que “a diplomacia é precisa para tudo”, acrescentando que é “funcionário público, conhecedor da administração pública e servidor do Estado”, pelo que, juntando-se a isso o facto de estar “de acordo com o programa de Governo e as suas metas”, pode muito bem ser o homem certo para o lugar deixado vago por João Soares.
Marcelo, o europeísta convicto

Antes, na primeira declaração do Presidente da República, feita num microfone montado para o efeito na sala da residência do embaixador, Marcelo já tinha antecipado o seu discurso de amanhã no Parlamento Europeu, mostrando-se empenhado na defesa da “construção europeia”. Segundo Marcelo, a alocução que vai fazer esta quarta-feira no hemiciclo é “uma intervenção simbólica, e como intervenção simbólica o que interessa é afirmar a posição do Estado português, ao mesmo tempo explicar a realidade portuguesa, recordando o processo democrático vivido ao longo destas décadas, e que foi paralelo ao processo de integração europeia”.

É natural que depois mencione alguns dos desafios que se colocam hoje à Europa, que são desafios que se colocam a Portugal. Não há uma realidade Europa de um lado, Portugal do outro. Nós e eles somos todos nós”, acrescentou.

Na quarta-feira, o Presidente da República vai estar no Parlamento Europeu, onde será recebido pelo respetivo presidente, Martin Schulz, antes de discursar no hemiciclo, tornando-se o quinto chefe de Estado português a fazê-lo, depois de Ramalho Eanes (1978), Mário Soares (1986), Jorge Sampaio (1998) e Cavaco Silva (por duas ocasiões, em 2007 e 2013). (OBSERVADOR)

por Rita Dinis

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