Luandenses consideram exortação papal “um recado à própria igreja”

(Foto: D.R.)

A Igreja Católica divulgou, em Luanda, a exortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”, elaborado pelo Papa Francisco. Para muitos luandenses, este importante documento papal deve ser entendido como um recado à própria igreja que nos últimos tempos dá mais importância a outros assuntos, em detrimento das questões ligadas a família.

A exortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”, elaborada pelo Papa Francisco, é um documento que contém ensinamentos espirituais e orientações práticas em torno da realidade e os desafios das famílias. A exortação foi divulgada em Luanda, pela Igreja Católica, por via de Dom Emílio Sumbelelo, bispo da Diocese do Uíge. O documento contém mais de 300 parágrafos e nove capítulos. Entre outras importantes orientações, o Santo Padre fala dos elementos essenciais de ensinamento da Igreja acerca do matrimónio e da família, onde entende que, para além do verdadeiro matrimónio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas.

Segundo o Papa Francisco, a humildade do realismo ajuda a não apresentar um ideal teológico do matrimónio demasiado abstracto, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efectivas das famílias tais como são. Conforme explicou, o idealismo não permite considerar o matrimónio assim como é, ou seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização».

Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça. No entanto, para o líder máximo da Igreja Católica, é salutar prestar atenção à realidade concreta das famílias, porque os pedidos e os apelos do espírito ressoam nos acontecimentos da história através dos quais a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profunda do inexaurível mistério do matrimónio.

No que toca a espiritualidade, o santo Papa afirma que a espiritualidade conjugal e familiar deve ser feita de milhares de gestos reais e concretos, porque aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do espírito, mas é um percurso de que o Senhor se serve para os levar às alturas da união mística. Todos os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua ressurreição.

Sobre o amor na família, o líder do vaticano deu a conhecer que não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas ao peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimónio como sinal implica um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus.

Mas, por outro lado, o Papa explica que na própria natureza do amor conjugal existe a abertura ao definitivo, precisamente no íntimo da combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres, que são, de facto, bases onde assentam o matrimónio.

Na sua extensa exortação, a voz máxima da Igreja Católica afirma ainda que no casamento a aparência física transforma-se e a atracção amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade».

“Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projecto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade”, notou» Os filhos também não ficaram de fora da “mira” do Católico que, entende que a obsessão não é educativa; e também não é possível ter o controlo de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se. De acordo com o Papa, se um progenitor está obcecado em saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço.

Mas, desta forma, não o educará, nem o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia. Francisco encorajou igualmente as famílias a colocarem os pés bem assentes na terra para enfrentarem os numerosos desafios, com destaque para o fenómeno migratório, à negação ideológica da diferença de sexo, ao impacto das biotecnologias no campo da procriação, a falta de habitação e de trabalho, à pornografia e ao abuso de menores. Também, a falta de atenção às pessoas com deficiência, o respeito pelos idosos, a desconstrução jurídica da família bem como a violência para com as mulheres mereceram o olhar atento do líder do vaticano.

As vozes divididas

vozesO bispo da Diocese do Uíge, Dom Emílio Sumbelelo, frisou que a exortação apostólica dirige-se a toda igreja. E que a igreja é vivida em locais concretos. E cada uma tem a sua característica. E que, em Angola, a Igreja procura fazer a aplicação e pôr em concreto aquilo que a exortação apresenta. Um dos exemplos avançado pelo prelado é o encontro nacional da famílias, realizado em Benguela, em que estiveram presente doze dioceses.

“Juntos tentamos pôr em marcha um projecto de pastoral concebido para este triénio que vai ao encontro das linhas que o Papa apresenta na exortação onde se destacam o cuidado e o acompanhamento que se deve ter para com as famílias”, enfatizou. Para muitos luandeses, a mensagem do Papa Francisco é um recado à própria Igreja que há muito deixou de orientar as famílias, focando-se noutros assuntos, com destaque para a política.

Para os interlocutores ouvidos por OPAÍS, a despreocupação da Igreja para com as famílias descambou nesta crise de valores que vai se propagando a passos galopantes. De acordo com Germano Lemos, Em Angola a Igreja Católica perdeu, até certo ponto, um lugar de respeito devido à elevada preocupação com os problemas políticos que o país vive e acaba por se esquecer do mais importante, que é o seu papel social que tem a ver com a conservação e implementação de valores éticos e morais, cuja base assenta na família.

“Para mim, esta exortação do Papa é um recado à própria igreja, porque d’algum tempo a esta parte a igreja afastou-se dos assuntos relacionados com a família”, frisou. Por seu lado, Nazaré Kanga entende também que por preocupar-se em demasiado com os assuntos ligados a politica e à economia, a Igreja Católica afastou-se da família que é a base de tudo. “Tenho ido às homilias e da boca dos padres ouço mais as questões que se prendem com política e economia. Fala-se muito destes assuntos e vejo que os prelados se esquecem das coisas que afectam directamente as famílias, o que é muito mau, porque toda a actividade religiosa deve cingir-se às famílias”.

Já Pedro Adolfo João diz que não é bem assim e que a Igreja tem sim andado sempre com as famílias, prova disto, segundo disse, é o trabalho que a pastoral diocesana e comunitária da Família tem levado a cabo com o programa da importância do aleitamento materno, as aulas de alfabetização para crianças e adultos e outras iniciativas. “Como vê, tudo voltado para as famílias.

O que tenho visto é que a igreja tem-se distanciado de muitos problemas sociais que ocorrem na sociedade para não chocar com o poder político”. Por seu turno, Wilson Daniel pensa que a igreja está a passar por uma profunda reestruturação mesmo ao nível da abordagem de temas que antes eram considerados tabús. Para ele, o crescimento e a expansão das igrejas evangélicas estão na base deste processo. Por outro lado, os escândalos de pedofilia também forçaram a Igreja Católica a olhar-se mais para dentro. “E nisso tudo importa frisar que o Papa Francisco representa uma corrente reformista da igreja que deu conta dos sinais do tempo”.

Celestino Setucula é outro dos populares que entende que, sendo a Igreja a reserva moral de qualquer nação, faz todo o sentido emitir juízos de valor concernentes à moralização da sociedade. “É neste intuito que o prelado Católico desde sempre emitiu exortações apostólicas tendo em conta as mais variadas preocupações da esfera social, política, económica, cultural e jurídica. Nesta conformidade e diante da desestruturação familiar, a exortação sobre o amor na família é bem vinda, tendo em conta que o Papa Francisco tem uma visão cosmopolita do amor ao próximo que alimenta a alma de qualquer ser vivente”. (opais)

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