Insular: a ilha onde Aline Frazão se redescobriu

(Dinis Santos)

Aline Frazão está em viagem pela Europa, a apresentar o seu mais recente trabalho de originais, “Insular”, uma viagem até a uma ilha para se reencontrar com as suas origens.

Foi na pequena ilha de Jura, na Escócia, que Aline Frazão produziu, ao lado de Giles Perring, “Insular”, o seu mais recente trabalho.

Resultado da ânsia de experimentar “novas linguagens, novas estéticas musicais e novas parcerias”, este novo álbum marca a estreia da cantora angolana num mundo mais eléctrico, levando-nos numa viagem que começa na ilha idílica e onírica da primeira faixa, homónima, e termina com o regresso à terra-mãe, às origens, com “Susana”, cantada em quimbundo e ao som do violão do angolano Toty Sa’Med.

“O disco faz todo esse movimento, desde a chegada à ilha, a descoberta de quem somos quando lá chegamos, como diz o conto de Saramago, ‘O Conto da Ilha Desconhecida’, e depois o regresso, que é como faz sentido, voltar à terra-mãe, ao princípio de tudo”, explica a cantora. Um álbum que explora o “isolamento, a solidão, o contraste entre o individual e o colectivo” que caracterizam uma ilha.

Aline considera que “Insular” é “um diálogo de latitudes e temperaturas, com uma estética diferente”. Com a companhia da guitarra de Pedro Geraldes, da banda portuguesa Linda Martini, nesta viagem encontramos uma nova Aline Frazão, afastada do cunho da world music, mas que, no fundo, se mantém a mesma.

“Temos que estar atentos e fortes para o que aí vem”

Esta viagem de “Insular” não deixa de lado as palavras de protesto e crítica em relação aos problemas que afetam a sociedade, e Aline aproveitou para homenagear Deolinda Rodrigues, guerrilheira do MPLA, assassinada durante a sua luta por uma Angola livre.

“Langidila” é o nome da homenagem.

“Ela é uma mulher à frente do seu tempo, uma mulher muito inteligente, muito crítica, muito honesta nas coisas que dizia, que criticava, mesmo dentro do MPLA”, afirma a cantora que considera que Deolinda “obviamente é uma figura inspiradora para qualquer mulher angolana, por tudo aquilo que representa”.

Uma homenagem que surgiu depois de, no ano passado, ter lido os diários de Deolinda. “Na altura em que escrevi esta música, em junho, depois da prisão dos ativistas, fez ainda mais sentido. Recuperar o seu legado, a sua voz, até mesmo mais poética, uma homenagem mais musical”, conta Aline Frazão.

“Os poetas de outrora escreveram no chão a palavra Liberdade”, pode ouvir-se em “Langidila”. Uma liberdade conquistada há 40 anos, mas Aline considera que ainda falta muito para se chegar à Angola com que Deolinda Rodrigues sonhava. “Ainda há muito por fazer. Costuma-se dizer que, quando foi a independência, havia dois planos: um primeiro objetivo, que era a libertação e a independência total de Angola; e um segundo plano, virado para questões sociais e de emancipação do povo angolano. Acho que este segundo plano ainda não foi cumprido”.

Desse segundo plano faltam coisas como o pleno acesso a “água, luz, saúde, educação, coisas básicas para a sobrevivência de qualquer ser humano, em qualquer parte do mundo”. Para chegar à Angola com que Deolinda sonhava – e pela qual lutava – “tem que haver uma igualdade social mínima, e só depois disso podem vir outras conquistas. Até a democracia vem depois disto”, afirma Aline.

Para a cantora, há muitos problemas em Angola, para além de questões como a da prisão dos ativistas e da falta de liberdade de expressão. “Os acontecimentos em Angola são vários, não são só a prisão dos ativistas, e são um contínuo. Então, para nós que somos de lá e passamos lá a maior parte do tempo e para quem vive lá, todos os dias são dias de preocupação, todos os dias são dias de se pensar junto acerca do que se passa no país”, afirma.

Apesar das mudanças que se avizinham, com novas eleições e com a anunciada saída de José Eduardo dos Santos do poder, Aline Frazão considera que é necessário acompanhar as mudanças “com sensibilidade, com tato, com sentido crítico e com esperança também”.

Uma viagem que se espera longa e, ao contrário de “Insular”, mais longa do que aquilo que se desejaria. “Vai ser muito complicado agora, com a crise económica cada vez mais feroz em Angola. Isto vai ter um impacto muito grave na vida das pessoas. Tudo isto é muito preocupante e temos que estar, como diz a música brasileira, atentos e fortes para o que vem aí, porque não vão ser meses fáceis aqueles que nos esperam”, diz Aline. (DW)

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