Eduardo Cunha, prestes a se salvar na Câmara e visto como útil para Temer

Eduardo Cunha na segunda-feira. (ANDRESSA ANHOLETE AFP)

Apesar de 77% defenderem cassação do deputado, ele costura pena branda no Conselho de Ética

Quantas vidas tem Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na presidência da Câmara? Na semana anterior à votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, especulava-se que o peemedebista não teria condições de se manter à frente da Casa após o último domingo. Sem a blindagem do processo que conduziu de forma expressa — e potencialmente nocivo a um futuro Governo Michel Temer —, Cunha, que enfrenta processo por quebra de decoro no Conselho de Ética, seria jogado à própria sorte. Mas o recebimento do impeachment pela Câmara parece ter dado força ao peemedebista, e ao menos um aliado de Temer no parlamento disse ao EL PAÍS que Cunha poderia ser útil ao cada mais provável novo Governo.

Apesar da impopularidade de Cunha pelas ruas do Brasil — 77% da população gostariam de vê-lo cassado —, é inegável a satisfação dos deputados com sua presidência. Desde que foi eleito para o cargo, em fevereiro de 2015, Cunha elevou a Câmara a uma posição de protagonismo em Brasília. Questionado se sente algum constrangimento por ter um presidente investigado por corrupção, já que Cunha também virou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por conta da Operação Lava Jato, o deputado Mauro Pereira (PMDB-RS) preferiu destacar as competências do colega de partido. “Ele chega aqui todos os dias às 8h. Nos dá todas as condições de trabalho.”

Outro peemedebista do Sul, o deputado Darcísio Perondi (RS) foi um dos líderes do Comitê do Impeachment, é próximo do vice-presidente, e, antes mesmo da aprovação do impedimento na Câmara, já projetava o futuro Governo Michel Temer. Para ele, alguém com a habilidade e o conhecimento de Cunha seria ideal para conduzir as reformas que os partidários de Temer enxergam necessárias no Governo. Os benefícios, do seu ponto de vista, seriam maiores que os malefícios de imagem que Cunha poderia causar à imagem de Temer — no discurso dos apoiadores da presidenta Dilma Rousseff, o presidente da Câmara agiu pelo impeachment em parceria com o vice-presidente da República.

Perondi reconhece que Cunha tem problemas, mas destaca que eles estão sendo tratados no âmbito do Conselho de Ética da Câmara. Apesar de reconhecer o valor de Cunha, ele nega qualquer possibilidade de fechar um acordo para salvar seu mandato. É o mesmo que diz o líder do DEM, Pauderney Avelino (AM). “Para continuar na presidência, ele [Cunha} tem de permitir ser investigado e afastar qualquer dúvida com relação à conduta que teve. Ninguém conversou comigo sobre anistia e essa possibilidade não existe”, garantiu.
Caminho da salvação

A questão é que mesmo os opositores declarados de Cunha, como PT, PCdoB, Rede, PDT, PPS e PSOL, estão de mãos atadas neste momento, enquanto partidos como PSDB e DEM, que sempre hesitaram em embarcar no “Fora, Cunha” por causa do impeachment, dizem que há pouco o que fazer. No Conselho de Ética, a situação segue melhorando para o presidente da Câmara. Depois de mais um membro do Conselho ter sido trocado — Fausto Pinato (PP-SP), que havia votado contra Cunha, deu lugar a Tia Eron (PRB-BA), potencial aliada —, sua defesa ganhou mais uma mãozinha nesta segunda-feira. O vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), decidiu que a investigação sobre Cunha deve se restringir ao motivo que levou à abertura do processo: a denúncia de que o presidente da Câmara mentiu à CPI da Petrobras ao dizer que não tinha contas bancárias na Suíça. Os críticos de Cunha no Conselho pretendiam investigá-lo pelo recebimento de vantagens indevidas, mas Maranhão acatou pedido de Carlos Marun (PMDB-MS) para limitar o escopo.

O presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PSD-BA), divulgou nota para dizer que “diante dessa decisão fica clara mais uma vez a intervenção do presidente da Câmara no Conselho de Ética”. “No entanto, as testemunhas estão mantidas, e o processo continuará sem limitações”, completou Araújo. Se Cunha conseguir arquivar ou atenuar o parecer final do Conselho de Ética há dúvidas se os contrários à decisão poderiam levar o tema ao plenário mesmo assim.

A cada nova postergação no Conselho de Ética, o país se questiona: a quantas anda o pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF para afastar Cunha do cargo? Em dezembro, Janot acusou o presidente da Câmara de usar o cargo em benefício próprio e enumerou 11 motivos para afastá-lo do posto. Nesta terça-feira, o ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato e responsável por analisar o pedido de Janot, disse que ainda está examinando a solicitação. Com a situação confortável de Cunha no Conselho de Ética, seus adversários apostam no andamento de seus processos no Supremo. A não ser que surjam novidades nesses processos ou na atuação da Polícia Federal na Lava Jato, Cunha parece ter pavimentado com o processo de impeachment de Dilma o caminho para completar seu mandato como presidente da Câmara até fevereiro de 2017. (EL PAIS)

por Rodolfo Borges

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