Durma bem, pela sua saúde!

(CCC)

O envelhecimento precoce é apenas uma das consequências de noites mal dormidas. Há outras, como o aumento de peso. A privação do sono é cumulativa e, mais tarde ou mais cedo, surgem as complicações na saúde.

Crescemos a ouvir o conhecido provérbio “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”. De facto, é fundamental dormir e dormir bem. O sono é necessário para a sobrevivência da espécie humana e deve ocupar um terço das nossas vidas. Apesar de ainda não ser conhecida a função precisa do sono, sabe-se que é regenerador e reparador, sendo a privação crónica altamente prejudicial à saúde. Ratos usados como cobaias em estudos laboratoriais morreram após 10 dias sem dormir.

As necessidades de sono apresentam uma variabilidade individual, sendo a quantidade ideal de horas de sono aquelas que nos permitem alcançar um nível ideal de vigilância e de bem-estar biológico, físico e mental no dia seguinte. Para um adulto, as 8 horas diárias de sono são uma referência saudável. Mas, hoje, a negligência com estas horas de descanso está a despoletar um sem número de doenças associadas à falta de sono.

No ritmo frenético da vida contemporânea e com as pressões sociais, pessoas saudáveis acabam por sacrificar o sono, privando-se voluntariamente das horas necessárias para o seu bem-estar. Nos últimos tempos, a restrição de sono, tem sido ainda documentada pelo uso abusivo de telemóveis, smartphone ou tablet uma utilização que acaba por ter implicações na qualidade e na duração do sono. A “doença das novas tecnologias”, devido à utilização desses aparelhos eletrónicos, acaba por provocar uma alteração do padrão natural de sono, com interferência no início do sono, já que a luz emitida inibe a libertação da melatonina, uma hormona que, entre outras funções, também regula o relógio biológico interno.

O sono não é um processo passivo e está ligado a vários mecanismos fisiológicos do organismo como a regulação hormonal, a imunidade, processamento de informações e memorização. Uma má noite de sono provoca fadiga, irritabilidade e outras alterações emocionais, mau desempenho e alterações cognitivas como o défice na capacidade de raciocínio ou dificuldade de aprendizagem e de consolidação da memória.

Dormir mal também pode provocar um envelhecimento prematuro, devido à interferência na produção da hormona do crescimento, normalmente libertada durante a fase de sono profundo, mas também pelo aumento da libertação de cortisol, o que acaba por prejudicar o colagénio da pele, a proteína responsável por manter a pele elástica e lisa.

O aumento de peso é outra consequência da redução do tempo de sono, justificado pelo acréscimo de ativação de regiões do cérebro que são sensíveis à adição de alimentos mais calóricos, ricos em hidratos de carbono e gorduras.

Vários estudos já demonstraram uma associação entre a diminuição na quantidade de sono e a existência de várias doenças como diabetes, obesidade, hipertensão, problemas cardiovasculares, depressão, alterações do sistema imunológico e ainda um aumento da mortalidade.

Além dos danos a nível da saúde, a privação de sono também contribui para o aumento do risco de acidentes profissionais e de viação. Catástrofes como a explosão do vaivém Challenger, o desastre nuclear de Chernobyl em 1986, e o acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989, foram correlacionados com o acumular de fadiga ou privação de sono dos funcionários que trabalhavam durante a noite e em turnos prolongados. Em Portugal, recordamos o maior acidente ferroviário de Alcafache, em 1985, pelo mesmo motivo.

As noites mal dormidas explicam uma sociedade cafeinada e o uso crescente e abusivo de medicamentos para dormir, apesar de estes serem claramente prejudiciais pelo risco de causarem dependência e pelos efeitos secundários indesejáveis, nomeadamente a manutenção ou agravamento da perturbação do sono, além de problemas cognitivos. Infelizmente, Portugal apresenta um dos maiores níveis de utilização de benzodiazepinas (ansiolíticos/sedativos) ao nível Europeu, fármacos que devem ser necessariamente evitados.

Para otimizarmos o sono, devemos estabelecer como prioridade recuperar a capacidade de dormir bem, em quantidade e qualidade, porque mesmo dormindo as 7 a 8 horas recomendadas, há quem acorde com a sensação de cansaço, o que pode evidenciar a necessidade de ajuda.

Está cientificamente demonstrado que a privação de sono é cumulativa e traz complicações a curto e a longo prazo. Conseguir estabelecer uma rotina a nível do sono é a chave. A sua saúde agradece! (CCC)

(Centro Cirúrgico de Coimbra)

Joana Serra
(psiquiatra, com competência em medicina do sono)

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