Dinheiro de crianças doentes para a reforma da cobertura de luxo de um cardeal do Vaticano

O cardeal Tarcisio Bertone beija um crucifixo na basílica de São Pedro na Sexta-Feira Santa. (Alessandra Tarantino AP)

Suspeita-se que metade dos 400.000 euros destinados à reforma tem origem em recursos destinados a um hospital pediátrico

O assunto não poderia ser mais grave. Tanto que não havia mais remédio para o Vaticano, a não ser abrir uma investigação judicial com urgência para determinar se, como afirma a revista semanal italiana L’Espresso, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado durante o pontificado de Bento XVI, estava a par de que 200.000 euros (820.000 reais) dos 422.000 (1,75 milhão de reais) empregados na reforma de sua cobertura de luxo – cerca de 600 metros quadrados mais 100 metros de terraço no interior dos muros do Vaticano – procediam de fundos doados para o funcionamento do hospital pediátrico Bambino Gesù (Menino Jesus). Um porta-voz da Santa Sé garantiu que a investigação não se concentra, no momento, no cardeal Bertone, mas em dois ex-directores do hospital romano, o ex-presidente Giuseppe Profit e o ex-tesoureiro Massimo Spina.

Segundo os dados antecipados por L’Espresso – a reportagem completa será publicada na edição da sexta-feira –, os juízes do Vaticano dispõem de cartas nas quais Bertone agradece expressamente aos directores pela contribuição da Fundação Bambino Gesù à restauração de sua cobertura, o que desmontaria a versão mantida até agora pelo ex-secretário de Estado, que, depois de o assunto ter vindo à tona, em Abril de 2014, tentou primeiro negá-lo e depois remediá-lo devolvendo ao hospital pediátrico –“de seu bolso”, segundo declarou na época– 150.000 euros (615.000 reais). Depois de o Vaticano confirmar a existência de uma investigação sobre a polémico cobertura, o advogado de Bertone, Michel Gentiloni, voltou a afirmar que o cardeal “nunca deu indicação ou autorização à Fundação Bambino Gesù para pagamento algum relacionado ao apartamento onde vive e que é propriedade do Governo do Vaticano”.

A reportagem da revista italiana é assinada por Emiliano Fittipaldi, um dos jornalistas – o outro é Gianluigi Nuzzi – processados pelo Vaticano depois da publicação, respectivamente, dos livros Avarizia e Via Crucis — nos quais revelam a má gestão das finanças vaticanas. Uma parte dos documentos publicados foi vazada pelo sacerdote espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda, que acabou sendo detido e ainda se encontra preso, acusado de subtrair e vazar documentação à qual teve acesso quando secretário da Cosea, uma comissão criada pelo papa Francisco justamente para tentar lançar luz sobre o dinheiro da Santa Sé.

Segundo Fittipaldi, os juízes do Vaticano acusam os ex-dirigentes do hospital pediátrico dos delitos de “malversação e apropriação e uso ilícito de dinheiro”. Tão ilícito que, se o caso for confirmado, os fundos destinados ao cuidado de crianças doentes teriam sido direccionados para reformar uma cobertura que já era de luxo. Entre os documentos que o jornalista apresenta está uma troca de mensagens entre o ex-presidente Giuseppe Profit e o cardeal Tarcisio Bertone, na qual este agradece pela doação. (EL PAIS)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA