Dilma fica a um passo de perder o poder

Deputado Bruno Araujo, responsável pelo voto definitivo, comemora na Câmara. (UESLEI MARCELINO/REUTERS)

Câmara aprova por 367 a 137 votos processo de impeachment, que agora vai ao Senado.

A biografia honesta de Dilma não conseguiu vencer a ineficiência de Dilma presidenta no Congresso neste domingo. Seu impeachment foi admitido na Câmara, por um placar de 367 favoráveis, 137 votos contra, 7 abstenções e apenas 2 faltas que deixam a presidenta agora a um passo de perder o poder. Aos olhos de todo o Brasil, coube ao deputado tucano Bruno Araújo, de Pernambuco, registrar o voto 342 por volta das 11 horas da noite, completando os dois terços necessários para admitir o processo de destituição e enviá-lo ao Senado. De acordo com o restrito parecer que a acusava, a presidenta cometeu crime de responsabilidade ao assinar seis decretos suplementares de recursos sem ter caixa correspondente além de ter atraso um repasse a um banco público. Foram razões pouco citadas durante a sessão maratônica que explodiu no voto crucial com os deputados cantando “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” enquanto fogos de artifícios eram ouvidos nas ruas.

Uma hora antes do início oficial da votação, o Congresso já mostrava qual seria o direcionamento dos votos, quando 18 entre 25 líderes dos partidos que usaram a tribuna avisaram que suas bancadas votariam pró impeachment. Mesmo entre os seis partidos que garantiram estar fechados com o Governo, foram registradas traições significativas. Foi o caso de parlamentares do PR e do PDT. “Contra a orientação do meu partido, renuncio ao cargo de presidente do PR e voto sim”, afirmou Alfredo Nascimento, que foi ministro de Lula, e por um ano, de Dilma. Enquanto ele pronunciava o seu discurso, membros da base governista estavam boquiabertos. Alguns o xingaram depois que ele pronunciou seu voto. “Traidor. Canalha. Golpista”, disseram alguns deputados do PT.

Eram ainda sete da noite, mas ali o Governo já contava que podia perder o jogo, ainda que faltassem mais de 400 deputados para se manifestar. Dilma acompanhou a votação ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada, sua residência oficial.

Às dez da noite, quando a oposição já contava com 296 votos e Dilma 97, o líder do Governo na Câmara, José Guimarães, já admitia a derrota. “Os golpistas venceram”, afirmou emendando em seguida: “Mas a guerra só está começando”. A frase de efeito, porém, caiu no vazio naquele momento.

Nunca os deputados brasileiros, que só trabalham de terça a quinta em Brasília, atuaram tão focados por um objetivo comum. Muitos enrolados na bandeira do Brasil, entoando canções, mensagens religiosas e saudando eleitores de seus Estados, aproveitavam como podiam a audiência privilegiada da sessão de impeachment. “Acabou a república da Jararaca”, repetiam vários deles, em referência à expressão adotada por Lula para falar de si mesmo depois da condução coercitiva no dia 4 de março. “Em nome do meu filho”, “Pelo meu pai falecido”, “Pela minha mãezinha”, “pelos meus netos e nora”, foram frases que se repetiram entre os favoráveis à impeachment. “Pela minha esposa Paula, voto sim”, disse Thiago Peixoto (PSD-GO). Se as pedaladas e os decretos suplementares não ganharam muitas menções, tampouco teve destaque a maior investigação da história brasileira, a Operação Lava Jato. Talvez porque há dezenas de parlamentares, incluindo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, implicados no esquema de corrupção da Petrobras.

Parlamentares levaram mulheres e filhos para viver o momento histórico que pode dar fim ao ciclo do PT no poder depois de 14 anos, dois anos antes da presidenta Dilma concluir seu segundo mandato. Alguns seguiram para Brasília em jatos emprestados por empresários, segundo contou o ex-ministro Eliseu Padilha à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo. Padilha é um dos nomes mais próximos de Temer. Outros parlamentares teriam recebido telefonemas de seus financiadores de campanha cobrando sua posição pelo impeachment.

A economia em frangalhos, denúncias de corrupção, a acusação de crime de responsabilidade, tudo justificava o voto para tirar Dilma do poder. “A presidente está caindo pelo conjunto da obra: estelionato eleitoral, fraudes fiscais, a afronta a Constituição”, enumerava Rubens Bueno, do PPS.

Em minoria, os parlamentares governistas votavam não, “em nome da democracia”, como afirmou Ivan Valente, do PSOL-SP, e Alessandro Molon (Rede-RJ). “Pela soberania do voto popular, não”, repetiu Ana Perugini (PT-SP), que foi o voto 39 por Dilma, quando a oposição contava com 145 votos a favor.

Em São Paulo, a avenida Paulista se encontrava cheia ao longo da tarde de domingo, ainda que não na mesma proporção de outros atos pró-impeachment. Ali, os anti-PT acompanhavam por telões na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, e dos carros de som dos movimentos de rua, cada voto a favor do impeachment em clima de Copa do Mundo. Pouco antes da votação, Mariane, de 25 anos, explicava por que estava ali: “Esperamos o impeachment aprovado, ainda que os que vão entram sejam tão ruins quanto ela. Mas com Dilma não dá mais”, disse ela, vestida com uma camiseta do Brasil, ao lado do marido e do filho que segurava uma bandeira brasileira.

Os movimentos contra a saída da presidenta também marcaram presença nas ruas, em maior número em Brasília e em São Paulo, com bandeiras e roupas vermelhas, e faixas com os dizeres “Dilma fica” e “Em defesa da Democracia”, os manifestantes pró Dilma apontavam a falta de confiança no futuro. “Se Dilma cair, Michel Temer fará um Governo totalmente voltado para as elites”, afirmou Rubens Alves, que segurava uma placa em que se lia “Somos todos Dilma, viva o PT viva Lula”. Em minoria, os parlamentares que defenderam a presidenta Dilma marcavam posição contra o que eles classificaram como golpe. “Contra a conspiração e a corrupção representada por Cunha e Temer, e em defesa da democracia, digo não a esse golpe”, afirmou Henrique Fontana (PT-RS), que recebeu vaias, assim como os 120 que como ele votaram pela manutenção da presidenta no poder.
Nas mãos de Cunha

A história do pedido de destituição aprovado neste domingo começa em 2 de dezembro de 2015, quando Cunha resolve aceitar a acusação elaborada por Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal depois de ter negado outras solicitações do gênero. O gesto de Cunha revelou um duelo de forças entre ele e a mandatária, que começou no início do segundo mandato. Cunha, porém, se aproveitou de uma briga que Dilma já travava fora de Brasília: sua popularidade nas ruas oscilava desde 2013. Em julho de 2014, ela tinha 32% de aprovação, que alcançou 42% com a campanha eleitoral diária entre agosto e outubro, segundo o instituto Datafolha. Mas o jogo virou rapidamente nos meses seguintes, logo depois da eleição, depois que a presidenta apresentou a conta dos seus erros. Subiu os juros para aplacar a inflação que viria a estourar a meta por primeira vez em uma década depois de um estímulo contínuo ao consumo. Aumentou também o preço da energia elétrica depois de tê-la reduzido em 2014 para estimular a indústria e preservar empregos. Subiu o preço da gasolina, congelado em ano eleitoral, prejudicando ainda mais a Petrobras. Todos os ingredientes juntos foram um choque que derreteram sua popularidade até os atuais 9%. O terremoto político alimentou a crise econômica, que se transforma agora na pior do século, e vice-versa. Trouxe a reboque uma profunda crise moral dos brasileiros, divididos desde a eleição.
Reação

A presidenta não se manifestou após o duro revés na Câmara. Falou em nome do Governo mais uma vez José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União. Ele repetiu os argumentos da defesa e mirou as ataques em Cunha: “Nos traz grande indignação que Eduardo Cunha seja o grande mentor e executor” do impeachment. Como Dilma tem feito nas últimas semanas, Cardozo buscou enaltecer a força da biografia da presidenta, marcando distância do movimento do seu vice, Michel Temer, cujo partido abandonou o Governo no dia 29 de março. Dilma reforçou insistentemente em eventos públicos e entrevistas que seus detratores não passavam de “golpistas”. “Não tenho conta no exterior, não comando golpe, não há nada contra mim”, foram as frases mais repetidas por ela desde dezembro, para distanciar-se de quem abriu-lhe a porta do precipício.

As falhas da Dilma presidenta, porém, ofuscaram a presidenta honesta. A partir de agora, seu processo vai ao Senado, que montará uma Comissão Especial para analisar o parecer de acusação. Por volta do meio de maio, o documento deve ir ao plenário da Casa. Se derrotada ali, Dilma é afastada por 180 dias enquanto os senadores se lançam em um julgamento para conceder o veredito definitivo. A euforia nas ruas dos que defendiam a sua queda mostra que boa parte da opinião pública não está a seu lado. E o Brasil pode mandar para casa mais cedo uma presidenta que, como lembram seus apoiadores, uma minoria importante e organizada, nunca roubou nada de ninguém. De todo modo, encabeça agora um projeto de poder que perdeu o rumo antes de seu segundo mandato terminar.

“Ela vai renunciar? Ela vai, de alguma forma, fraquejar? Não. Para escrever na história que ela não se acovardou”, esbravejou Cardozo, numa imagem que contrastava com a foto de um satisfeito Temer que acompanhava a votação com seus aliados. O Brasil começa uma semana sui generis, com dois meio-presidentes e um mar de incertezas adiante. (EL PAIS)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA