Congresso do PSD: partido com líder “isolado” e vozes ansiosas

Passos Coelho. (Lusa)

O 36º congresso do PPD/PSD realiza-se este fim de semana, em Espinho, numa altura em que muito se fala do futuro de Pedro Passos Coelho à frente do partido.Apesar de ter sido reeleito presidente há poucas semanas e com 95% dos votos, há já quem, dentro do partido, antecipe caminhos alternativos e lance nomes possíveis para a sucessão.

O 36º congresso do PPD/PSD realiza-se este fim de semana, em Espinho, numa altura em que muito se fala do futuro de Pedro Passos Coelho à frente do partido. Apesar de ter sido reeleito presidente há poucas semanas, a 5 de março, e com 95% dos votos, nos corredores sociais-democratas já se antecipam caminhos alternativos e nomes possíveis para a sucessão. Há quem, inclusive, tenha manifestado intenção de expressar as suas divergências neste congresso, que arranca esta sexta-feira.

Quando em novembro a reunião magna dos sociais-democratas foi agendada para abril (tudo apontava para que se realizasse em fevereiro), a alteração de datas sugeriu que o partido já tinha em vista a hipótese de haver eleições antecipadas. É precisamente a partir do dia seguinte ao congresso, 4 de abril, que o parlamento poderá ser dissolvido, uma vez que se cumprirão seis meses desde a sua eleição.

Mas em novembro, o Governo inédito, de iniciativa socialista e apoiado pela esquerda BE, PCP, PEV, tomava posse enquanto muito se questionava o prazo de validade dos acordos de incidência parlamentar que sustentavam o Executivo.

Volvidos cerca de quatro meses, um calendário com novas eleições é hipótese cada vez mais remota e o PSD terá agora em mente, não só uma nova estratégia, como também um horizonte mais longínquo para poder regressar ao leme do país.

À esquerda, os sinais mostram coesão e não rutura iminente. As forças políticas que constituem a maioria parlamentar conseguiram os entendimentos necessários para a elaboração do Orçamento do Estado para 2016, mesmo quando Bruxelas mostrou reservas e mandou o documento para trás. Fez-se História: pela primeira vez um orçamento foi aprovado por toda a esquerda.

Ainda que os desafios que tem pela frente não se adivinhem fáceis – a apresentação do Programa de Estabilidade e Crescimento, a avaliação da execução orçamental, a preparação do novo orçamento – o Executivo de António Costa reitera que o compromisso com o país estende-se até ao fim da legislatura.

Depois, há uma nova peça no xadrez político: Marcelo Rebelo de Sousa. A relação institucional do novo Presidente da República com o Governo, apesar de muito recente, mostra sinais de confiança. Embora vistam cores partidárias diferentes, o chefe de Estado e o chefe de Governo mostram-se alinhados num discurso em que “consensos” é a palavra-chave.

A boa relação não se fica pela fotografia. Exemplo disso foi o tom da comunicação ao país feita por Marcelo para anunciar a promulgação do Orçamento. O Presidente pediu rigor, é certo, mas sublinhou que este é um documento de “compromisso”, diferente dos anteriores e com uma vincada “preocupação social”.

Caso ainda mais evidente é o da polémica em torno das interferências do primeiro-ministro na banca, depois de ter sido noticiado que António Costa deu o “okay” para Isabel dos Santos entrar no capital BCP. Passos Coelho depressa exigiu esclarecimentos ao primeiro-ministro, mas Marcelo não só se afastou da oposição como foi mais longe e deu o seu aval a Costa. Na opinião dos comentadores, o Presidente deixou o líder social-democrata “completamente isolado”.

De resto, Marcelo já disse que sente que “há menos crispação” no plano político e que “isso é bom”. E até já teve a oportunidade de tecer elogios a ministros. De novo, a importância dos consensos.

Consensos que o PSD parece ter descartado. Os sociais-democratas não apresentaram qualquer proposta de alteração ao Orçamento, numa atitude política que deixa uma margem muito curta para o diálogo com o Executivo. Ao contrário do que fez, por exemplo, o CDS que, desfeita a coligação e agora com Assunção Cristas na liderança, fez chegar propostas ao debate na especialidade.
As críticas a um líder “isolado” e “solitário”

Perante o “isolamento” de Passos no quadro político, as vozes mais críticas ao presidente do PSD já se fazem ouvir.

José Eduardo Martins destaca-se entre os que não escondem o descontentamento. Numa entrevista à Rádio Renascença, o antigo secretário de Estado de Durão Barroso acusou Passos de olhar para a política como um “exercício isolado e solitário”, com o qual não se revê.

Assumiu as suas divergências com o atual líder e, apesar de sublinhar que há pouca gente a pensar como ele para construir uma alternativa, disse que tencionava expressar estas diferenças no congresso.

Quem não estará em Espinho é Rui Rio, considerado por muitos um dos nomes mais fortes para suceder a Passos. Foi o próprio que o confirmou, numa entrevista à rádio TSF, justificando a sua decisão com o argumento de que não quer ser um “elemento central” nesta reunião magna.

Mais, o antigo presidente da Câmara do Porto não se limitou a dizer que não vai marcar presença no encontro. Aproveitou a entrevista para se demarcar da atitude “liberal” de Passos. E elogiou as posições de António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa quanto à banca. “o poder político, podendo, deve interferir e influenciar as grandes questões estratégicas para o país”.

Mais cauteloso nas palavras é Nuno Morais Sarmento. O antigo número dois de Barroso, afirmou, em entrevista à Antena 1, que “o atual líder do PSD é o líder certo agora”. A longo prazo, porém, a questão muda de figura: “com enorme dificuldade poderá ser candidato a primeiro-ministro daqui por três anos”. E não exclui a hipótese de no futuro vir a candidatar-se à liderança do partido.

Pedro Passos Coelho é presidente do PSD desde 2010, tendo sido primeiro-ministro entre 2011 e 2015, à frente de um Governo de coligação PSD-CDS.

Numa tentativa de se descolar do rótulo de “liberal”, Passos resgatou a “social-democracia” para o slogan que levou para a sua recandidatura à presidência do partido. O mote, porém, não terá convencido muitas das figuras de peso do PSD.

Um partido com um líder “isolado” e algumas vozes ansiosas. É desta forma que o PSD aparenta chegar ao congresso em Espinho, que decorre até domingo. Passos prometeu um combate “sem tréguas” ao Governo de António Costa, mas manter a união dentro de portas também deverá ser um dos desafios do presidente social-democrata. (TVI24)

por Sofia Santana

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