Após queda da ciclovia, Rio promete checar todas suas obras

Ciclovia Tim Maia, no Rio, desabou na quinta-feira após ser atingida por uma onda. (Mario Tama Getty Images)

O prefeito Eduardo Paes assume responsabilidade da Prefeitura na tragédia e mostra-se preocupado com a reputação.

O prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes assumiu nesta sexta-feira “todas as responsabilidades” da Prefeitura no desabamento da ciclovia que matou pelo menos duas pessoas na quinta-feira e prometeu procurar os culpados entre os responsáveis pela obra. “Acidente não acontece por acaso, e sim por equívocos cometidos” disse Paes. “Foi uma obra que demorou seis meses além do previsto. Não é fruto de pressa ou falta de planejamento. Certamente houve uma falha. A última culpada aqui vai ser a força do mar, Iemanjá, tragédias da natureza. Jamais vou me esconder”, completou o prefeito, que voltou às pressas ao Brasil. Paes soube da tragédia em Genebra, onde se reuniria com o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, para transmitir “como é difícil fazer uma Olímpiada no momento atual brasileiro”, onde as principais empresas de engenharia responsáveis pelas obras da Olímpiada estão envolvidas na Operação Lava Jato.

As equipes de resgate ainda procuram uma terceira vítima que, segundo testemunhas, teria caído ao mar no momento em que o trecho da ciclovia Tim Maia, que une as praias do Leblon e São Conrado, desabou. A hipótese é que o trecho foi atingido na base por uma forte onda e a ciclovia não aguentou e desmoronou. Vários engenheiros têm criticado o projeto, inaugurado apenas três meses atrás, porque não teria contemplado o impacto das ondas na estrutura.

Questionado por que a Prefeitura não interditou a via em um dia de fortes ondas que chegaram a atingir os veículos que circulavam pela paralela Avenida Niemeyer, Paes reconheceu que faltou um “plano de funcionamento da ciclovia” que previsse esse tipo de circunstância. “Nunca houve uma recomendação por parte da Geo-Rio para fechar a ciclovia quando há ressaca. Então, você provavelmente tem um problema estrutural, além de um não encaminhamento de uma operação de uma ciclovia naquelas condições. Em caso de ressaca, de mar alto, devia-se botar um aviso indicando que a ciclovia não deveria ter sido utilizada. A prefeitura que deveria ter feito isso. Me sinto totalmente responsável.” O incidente causou a demissão de Márcio Machado, o presidente da Geo-Rio, órgão municipal responsável pela implantação da ciclovia.

Preocupado com a reputação da sua gestão e a segurança em um momento em que a cidade parece um enorme canteiro de obras e com a Olímpiada próxima, o prefeito anunciou que contratará “alguma universidade” para checar um por um todos os projetos. “É obvio que o descrédito aumenta”, reconheceu. Entre as obras, Paes destaca a duplicação do Elevado do Joá, que promete desentupir o trânsito da zona sul a Barra de Tijuca antes dos Jogos, e cujo gerenciamento está nas mãos da Concremat, empresa responsável pela construção desse trecho da ciclovia. Outros projetos importantes que formam parte do pacote de obras da Olímpiada também são gerenciadas pela empresa de engenharia como a ligação entre os BRTs (Transolímpica/ Transoeste/Transbrasil) ou as obras do Parque Olímpico da Barra e do entorno do Engenhão. A Prefeitura tem, nesse momento, segundo Paes, seis bilhões de reais em obras em andamento.

A Concremat pertence à família do secretario Especial de Turismo Antônio Pedro Figueira de Mello e, segundo dados levantados pela Folha de S. Paulo, o valor dos contratos da companhia desde que Paes é prefeito multiplicou por 18. Entre 200 e 2008 somavam 24,8 milhões de reais, em valores corrigidos pela inflação, quantia que aumentou até os 451,6 milhões após a chegada de Paes. O prefeito afirmou não ver nenhum tipo de conflito ético na relação do secretario com uma “empresa reconhecida no mercado” e minimizou a multiplicação de contratos da empresa em um momento em que a cidade disparou sua inversão em obras. A empresa também foi citada nas delações da Operação Lava Jato como tendo pago uma das companhias de fachada controlada pelo doleiro Alberto Youssef e por possíveis desvios nas obras da transposição do rio São Francisco.

O projeto da ciclovia Tim Maia foi inicialmente contratado por cerca de 35,8 milhões e deveria ter ficado pronto em um ano. Após vários aditivos, o valor chegou a 44,7 milhões. Após a tragédia, a Prefeitura encomendou também uma perícia independente para investigar as causas da queda e a Polícia Civil do Rio abriu inquérito por homicídio culposo (sem intenção de matar) para apurar o incidente. (EL PAIS)

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