Acordo UE-Turquia faz refugiados repensarem viagem

(REUTERS)

Migrantes continuar a chegar à Grécia, apesar da implementação do tratado entre Ancara e Bruxelas. Mas novas medidas levam alguns a reavaliar risco da travessia, enquanto atravessadores aumentam seus preços.

O sol nasce lentamente sobre a praia de Denizköy, na Turquia, lançando um brilho rosa cintilante sobre as águas cristalinas do Mar Egeu. Ao longe, a silhueta das montanhas da ilha grega de Lesbos se destaca ao longo do horizonte, a apenas 30 quilômetros de distância. Normalmente deserta, a praia turca é ponto de partida comum para os refugiados que buscam chegar à Grécia por barco.

Embora não haja barcos no horizonte nesta manhã, coisas de migrantes que partiram recentemente estão por toda parte. Roupas de bebé, fraldas e outros pertences pessoais estão espalhados pela areia da praia, provavelmente descartados rapidamente em uma tentativa de aliviar o máximo possível um barco inevitavelmente superlotado. Um colete salva-vidas vermelho balança, pendurado em uma árvore nas proximidades, como um lembrete da tragédia que continua a ocorrer neste idílico pedaço de praia.

Mais de 700 pessoas morreram afogadas neste ano ao longo deste trecho da orla, em naufrágios ocorridos quando tentavam chegar à União Europeia, que pode ser vista no horizonte. Agora, aqueles que sobrevivem à viagem enfrentam a ameaça potencial de deportação, uma das medidas acertadas no acordo recente firmado entre UE e Turquia. Ele determina que, para cada refugiado sírio a entrar legalmente no bloco, um sírio ilegal seja deportado de volta à Turquia.

Embora os números mostrem que o caminho marítimo para a Grécia não tenha sido abandonado, a ansiedade provocada pelo acordo fez com que refugiados passem a pensar duas vezes antes de viajar para a Grécia, enquanto os traficantes de pessoas já cobram mais pela viagem.

Uma semana atrás, Abir, uma mãe de 26 anos da cidade síria de Deir ez-Zor, era uma das dezenas de refugiados prestes a entrar em um barco em uma praia próxima à cidade de Izmir, conhecida base dos contrabandistas. No entanto, enquanto o contrabandista ia colocando cada vez mais pessoas no barco, incluindo o marido dela e seus três filhos pequenos, ela começou a entrar em pânico.

“Eu olhei para a água e fiquei com medo”, relata, apertando a mão de seu filho mais velho, fora da mesquita no bairro de Basmane, em Izmir, agora apelidada de “Little Síria”, devido ao número de refugiados à espera de embarcar para as ilhas gregas na praça central da cidade.

Embora seu marido tenha ido para a Grécia, ela voltou com seus três filhos para Izmir, para reconsiderar como eles poderiam encontrar uma maneira mais segura de se juntar a ele: “Eu queria mais tempo para pensar e decidir se realmente vale a pena o risco de viajar de barco para mim e para os meus filhos.”

No entanto, durante o tempo em que ela planeava ganhar coragem para ir se juntar ao marido, foi firmado o acordo entre UE e Turquia, fazendo com que a viagem se tornasse significativamente mais arriscada e mais difícil de encontrar um contrabandista a preço acessível, já que muitos usaram o acordo político como uma oportunidade para aumentar seus preços.

“Parece impossível agora”, diz ela. “O preço costumava ser mil euros, e agora os contrabandistas querem 3 mil.”

Abir olha para o celular, esperando uma mensagem de Whatsapp do marido, que actualmente está no porto de Lesbos. Ele relata que a maioria dos sírios está desistindo, depois que as autoridades separaram os sírios dos afegãos dentro do campo de refugiados. “Não sei como eu vou chegar até ele ou como eu vou conseguir esse dinheiro.”

“Eu trabalho no mar”, afirma Hossam, de 33 anos, dando uma piscadela – ele é da cidade de Aleppo, que não tem praia.

Embora o acordo tenha sido criado para dar um baque na indústria de contrabando humano, ele causou apenas um pânico temporário. Nos primeiros dias, os contrabandistas tentaram reativar antigas rotas da Turquia para a Europa, como a que utilizava navios de carga a partir da costa sul da Turquia em direcção à Itália – percurso que logo se tornou menos popular após o descobrimento da rota pela Grécia, mais curta, segura e barata.

“Essa é a única maneira de sobreviver como um sírio aqui”, diz Mohammed, um amigo de Hossam, sentado ao lado dele nos degraus da mesquita. “Ser um contrabandista.” (DW)

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