A pior crise que Angola viveu foi a guerra – General Kamorteiro

General Abreu Muengo "Kamorteiro" - Vice Chefe do Estado Maior General das Forças Aradas Angolanas para a Logistica (Foto: Lino Guimaraes)

No quadro da comemoração dos 14 anos de paz em Angola, o general Geraldo Abreu Muengo Ukwachitembo “Kamorteiro”, vice-chefe de Estado Maior General para Logística e Infra-estruturas das Forças Armadas Angolanas, concedeu uma entrevista à Angop, na qual aborda os ganhos resultantes da assinatura, em 4 de Abril de 2002, daquele documento e o seu significado.

O general Kamorteiro é um dos subescritores do Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, com o general Armando da Cruz Neto, na altura chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA),

Angop – O que significou para si a conquista da paz em Angola?

General Kamorteiro (GK): Catorze anos depois, considero a paz um processo e não um acto. É mais uma conquista e, portanto, eu sinto que os angolanos, de facto, conseguiram consolidar este processo de paz e devemos nos congratular por isso.

Angop – Sentia o peso da responsabilidade ao assinar o acordo?

GK: Sentia, sentia. Não é fácil, porque sabíamos que estávamos a tocar numa questão sensível, num país que tinha vivido uma guerra quase de três decénios. O acto de assinatura era delicado, era de grande responsabilidade, porque nós acreditávamos que havia muitos cépticos também, conforme vocês poderiam testemunhar. Daí que, quando hoje temos já vividos 14 anos de paz, congratulamo-nos e é um orgulho para nós, em particular, e para todo o povo angolano.

Angop – No momento em que assinava o acordo, sentiu que havia milhares de pessoas que acreditavam em si, militares armados nas matas e também populações que estavam nas matas ansiosas de paz. Como descreve aquele momento?

GK: A esses homens, mulheres e jovens, eu tenho o dever de agradecer-lhes, porque não era fácil naquela fase que vocês acompanharam, mas eles foram unânimes em cumprir as ordens que tinham sido baixadas. Primeiro, a partir do chefe da comissão de gestão da UNITA, na altura o general Paulo Lucamba Gato, e, depois, nós tínhamos em mãos os nossos militares, embora não fosse fácil. Através das comunicações, os homens cumpriram, acataram e acreditaram, embora com algum receio. Hoje, 14 anos depois, acredito que não há mais ninguém que duvida do processo de paz.

Angop – Mas houve quem tivesse duvidado da lisura do processo, com destaque para alguns membros da Comissão Externa da UNITA…

GK: Era normal, porque Angola tinha passado por vários acordos, desde os acordos de Nova Iorque, em 1988, depois Bicesse, seguiu-se Lusaka. Enfim, tinha havido outras tentativas. Umas limitaram-se ao verbo. Numa altura tão tenebrosa, em que o líder da UNITA tinha sucumbido, era normal que quem estivesse fora do país duvidasse. Isso até é natural, mas deixe-me sublinhar que foi um processo conduzido com muita responsabilidade, seriedade e patriotismo.

Angop – Depois de tudo isso, que análise faz da situação?

GK: A guerra, li num texto, é um monstro. Vou dar um exemplo. Hoje fala-se da crise e é real. A crise que se vive, resultante da baixa do preço do petróleo é real, é nacional, é internacional e é dura. Mas a pior crise que Angola já experimentou, na sua vida política, é a guerra. Eu acho que não há crise igual àquela da guerra, pois ela foi particularmente mortífera, destruiu todos os valores. Até estou lembrado de uma máxima do bispo dom Mata Mourisca. Acho que foi o ano passado que ele dizia: “Com a guerra perde-se tudo. Com a paz ganha-se tudo”. E isto diz profundamente muita coisa. Portanto, os 14 anos de paz representam aquilo que muitos não conseguem colocar na balança para avaliar o peso, mas na verdade, diga-se, o país mudou em todas as vertentes, quer do ponto de vista cultural, moral, económico e infra-estrutural. Enfim, em tudo, o país mudou. Até um dos elementos sociais que a mim impressiona bastante é que, do ponto de vista académico, hoje um indivíduo que viu a juventude em 2002 e olha para a juventude de hoje verá que, de facto, o país nesta área do ensino conseguiu uma grande conquista. Até, em particular, nós, nas Forças Armadas Angolanas, conseguimos baixar o analfabetismo, para ser honesto, o que não foi fácil.

Angop – É mestre em história, formado numa universidade angolana. Tem alguma dúvida em relação à qualidade de ensino angolano em situação de paz?

GK: Não tenho dúvida, embora seja necessário melhorar a qualidade. Como sabe, licenciei-me em história pela Faculdade de Letras e Ciências Sociais, na altura, na Universidade Agostinho Neto. Fiz o mestrado pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) e em convênio com a Universidade de Évora. Estou a fazer o doutoramento nesta instituição (Évora). Não, não duvido. Também quero dizer que os que estudam têm de se empenhar, porque a palavra universidade encerra mesmo o próprio conceito. É universalidade, é universal. Portanto, quem vai para universidade tem que se dedicar e conhecer a cultura geral.

Angop – General, passados 14 anos, continuamos a formar o exército nacional. Hoje, como sente a reconciliação dentro das Forças Armadas Angolanas?

GK: Nós temos um exército absolutamente republicano. Quem for visitar o comando de qualquer um dos ramos (Exército, Força Aérea e Marinha de Guerra) ou o Estado Maior General, só dirá que este veio das extintas FALA (ex-forças militares da UNITA), porque me conhece. Quem olha para mim, se por acaso numa loja ou outro local souber que sou proveniente das ex-FALA é porque me conhece, não posso me esconder. Sou uma figura pública. Fora disto, é difícil distinguir quem veio das FALA (da UNITA) ou das ex-FAPLA (do Governo). Até eu próprio, tenho dificuldade de distinguir quem foi das ex-FAPLA e das ex-FALA. Só mesmo se alguém me disser o nome, porque, fora disso, é difícil. Só para lhe dizer que Angola e os angolanos devem orgulhar-se por isso, porque conseguiram criar um exército praticamente republicano, em que não se fala mais da reconciliação. Até, às vezes, eu pessoalmente fico um pouco perplexo, quando sinto dos políticos alguma nostalgia de certos ódios do passado e com isso não se vai a lado nenhum. Hoje, o recurso aos ódios do passado não levará ninguém a nada, é perder tempo.

Angop – As Forças Armadas Angolanas são um pilar fundamental desta unidade entre os angolanos?

GK: Com certeza. A coisa talvez tenha começado mesmo por aí, porque, em qualquer sociedade ou Estado, quando as Forças Armadas têm fissuras, o Estado imediatamente degrada-se. Portanto, no meu ponto de vista, a reconciliação em Angola parte um pouco daquilo que aconteceu (entendimento) nas Forças de Defesa e Segurança.

Angop – General, como projecta a República de Angola para os próximos tempos?

GK: Já falei um pouco sobre a actual crise. Eu nunca fui pessimista na minha vida, pois não acredito que essa crise seja o fim do mundo. Não acredito nisso. Por mim, é mais uma fase. Portanto, é da crise onde nascem grandes estratégias e ideias e transformações. Acredito muito que, a julgar pelas políticas económicas que nós temos vindo a acompanhar, pela imprensa, acho que aqui não há e não haverá problemas estruturais. Acho que, no quadro da política de diversificação da economia, será o presságio de que pode vir a ser uma combina de um crescimento extensivo e intensivo, capaz de alavancar o verdadeiro desenvolvimento económico de Angola.

Angola tem potenciais recursos naturais fora de série e, se calhar, quando um dia estes recursos combinarem com o que o petróleo for a dar, pouco ou muito, a República de Angola poderá vir a ocupar um lugar cimeiro no que concerne à economia na região.

Angop – Estamos a comemorar essa data histórica para o país. Que conselhos dá à sociedade para preservar a paz?

GK: Apenas duas ou três palavras. O primeiro pressuposto é o patriotismo. É na pátria que cabem todos os angolanos, mas sem nenhum interesse individual e parcelar, como partidos políticos, organizações não-governamentais, etc. Vai caber o interesse de todos os angolanos. É a pátria que nos ampara e pode congregar todos e não ao contrário. É daí que os angolanos devem pensar em coisas muito mais prolíficas, para que realmente tenhamos um país absolutamente forte, capaz de influenciar positivamente os acontecimentos nas regiões a que pertencemos e não só porque também temos de ter cuidado com a instabilidade política em África, começar a descer um pouco do Norte para a área do paralelo principal, que é o Equador, aqui tão próximo. Se eu falo em patriotismo, estou a falar também em coesão nacional. A situação internacional vigente e porque o mundo está absolutamente interconectado pelas economias, internet e política internacional, precisamos de coesão nacional. Há que, por vezes, sacrificar alguns interesses particulares e exaltar aquilo que nos une, porque tudo o que nos une fortalece-nos e fortalece também o nosso Estado.

Perfil do General Geraldo Abreu Muengo Ukwachitembo “Kamorteiro”

Kamorteiro (pequeno morteiro, em língua nacional umbundo), nome de guerra atribuído a si por ser um dos melhores especialistas de artilharia terrestre nas extintas FALA. Desempenhou o cargo de responsável máximo do alto comando das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), então militares da UNITA; chefe de Estado Maior destas forças até à assinatura dos acordos de paz.

Após a assinatura do Memorando de Entendimento Complementar ao Protocolo de Lusaka, em Luanda, já enquadrado nas Forças Armadas Angolanas, com cargo de chefia, dedicou-se a terminar os seus estudos, tendo efectuado uma licenciatura em História. Fez posteriormente o mestrado em História de Angola no ISCED.

Abreu Muengo Ukwachitembo “Kamorteiro”, actualmente vice-chefe de Estado Maior General para Logística e Infra-estruturas das Forças Armadas Angolanas, foi um dos co-signatários dos acordos de paz para Angola, rubricados a 4 de Abril de 2002 entre o Governo e a UNITA, ao lado do general Armando da Cruz Neto, então chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Angolanas (FAA). (ANGOP)

por Falcão de Lucas

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