A paz é um ideal que se deve construir todos os dias- arcebispo Dom José Imbamba

Dom José Manuel Imbamba - Arcebispo de Saurimo (Foto: Lucas Neto/Arq)

O arcebispo da arquidiocese da Lunda Sul, Dom José Imbamba, afirma, em entrevista à Angop, que a paz é um ideal que se deve construir todos os dias, através das escolhas valorativas, das obras da tolerância do espírito, do diálogo permanente, da informação plural e da igualdade de oportunidades.

Siga a entrevista na íntegra:

Angop – Angola comemora, no dia 4 de Abril, 14 anos de paz. Qual foi o contributo da Igreja Católica para a pacificação do país?

Dom José Manuel Imbamba (JI): Antes de mais nada, é preciso termos em conta que a paz é um desejo de toda a pessoa humana e de qualquer Nação que se prezem. Pela nossa história e pelas vicissitudes pelas quais passamos, todas as instituições de bem tiveram que se bater para a concretização deste grande desejo, e a Igreja Católica sempre esteve na vanguarda deste processo, em que, através dos seus pronunciamentos oficiais, foi sempre dando pistas e soluções para a chegada de algum entendimento entre as partes desavindas.

A igreja sempre se predispôs em mediar o conflito armado, apelando à reconciliação, à democratização do país, ao diálogo aberto entre irmãos, procurou aproximar as partes, dando força à palavra, à razão e ajudando a que todos pudessem ter em conta o bem maior, que é a paz. A igreja está sempre ao serviço das pessoas e ela nunca vai se calar onde houver injustiça, marginalização, pobreza, assimetrias ou qualquer espécie de mal que afecte as comunidades. Estaremos sempre dispostos e disponíveis para continuar a apelar as consciências para a cultura da paz.

Angop – Que avaliação faz desses 14 anos, em termos de conquistas e ganhos?

JI: A avaliação é mais do que positiva, porque o país reencontrou-se consigo mesmo, os angolanos finalmente conseguiram compreender que a grande riqueza somos nós mesmos, e somos nós que temos que construir o nosso país sobre estas bases sólidas da justiça, democracia, do valor da pessoa, do diálogo e do respeito mútuo. São valores que devem nortear toda e qualquer conduta. A reconstrução física do país que vamos assistindo um pouco por todo lado, a recuperação das infra-estruturas fundamentais, entre outros, lançaram as bases para o desenvolvimento harmonioso do país.

Embora possamos também fazer um juízo de valores sobre a qualidade dessas obras, a sua consistência ou não, do ponto de vista do pensamento estratégico político, podemos afirmar que é muito o que foi feito e o caminho tinha que ser mesmo este. A estes ganhos todos se deve somar também a nossa vontade de crescimento. É preciso que cada angolano tenha consciência de que é uma pedra indispensável para o desenvolvimento harmonioso do país. Outro ganho é a própria democratização do país que vem ganhando corpo a cada dia que passa. O multiplicar de escolas pelas aldeias, sobretudo a escola de base e, depois, o ensino superior, são outros avanços inegáveis.

Tudo isso está a dar alguma qualidade ao nosso poder científico, a nossa capacidade crítica e a tudo aquilo que é necessário fazer para o bem das pessoas. Aliado a isto estão também os serviços virados à saúde e à valorização do próprio homem, factores que passam pela formação de quadros.

Angop – Tocou num aspecto importante que tem a ver com a formação do homem. Como é que caracteriza este quadro em Angola?

JI: O sector da educação é chave e importante para o desenvolvimento de qualquer país. O nosso país nunca poderá vencer a pobreza e a miséria rescindindo a educação. É por isso que louvamos o esforço feito para distribuir estes instrumentos de promoção humana, social e cultural das pessoas por todas as zonas do país. Os equipamentos existem, mas estamos a trabalhar apesar de ainda não termos atingido o nível de excelência que todos desejamos, porque há lacunas de base, há falta de professores qualificados, por vocação. Infelizmente, a maior parte dos professores que temos é por salários e não por vocação e isto está a beliscar a própria qualidade de ensino oferecido aos estudantes.
Encorajo a multiplicação dos magistérios da educação, para que os professores tenham por vocação a formação que é desejada, permitindo que uma criança, ao chegar ao ensino primário, tenha o domínio do ABC. Escolarizar não é só instruir, é educar a consciência para a cultura de valores cívicos e morais, indispensáveis e que um jovem deve ter para poder viver responsavelmente a sua cidadania. Infelizmente, ainda não é o que acontece em muitas das nossas escolas.

Angop – Que avaliação faz do desempenho da Igreja Católica do ponto de vista religioso e social nesses 14 anos?

JI: A Igreja Católica sempre esteve ao serviço do bem das pessoas, da justiça social, da paz, promoção, do desenvolvimento integral da pessoa humana e, ao longo desses 14 anos, não se afastou da sua função de educadora, acolhedora, conselheira, porque está presente na educação, saúde e na cultura.

Angop – A paz veio para ficar definitivamente?

JI: A paz nunca é uma aquisição definitiva, a paz é um ideal que devemos construir todos os dias, porque ela é fruto de uma renúncia muito grande, cada um de nós tem que fazer uma renúncia para poder estar bem com os outros. A paz é algo que devemos construir todos os dias através das escolhas valorativas, das obras que nós apresentamos, tolerância do espírito, diálogo permanente, informação plural, através das oportunidades que oferecemos para todos. É preciso que todos nos sintamos iguais, tenhamos as mesmas oportunidades, ocasiões para nos realizarmos como cidadãos, porque quando há disparidades, assimetrias a vários níveis, a paz pode entrar em alguns riscos.

Quando temos parte da comunidade insatisfeita, começam os conflitos sociais, fricções sociais, razão pela qual devemos dinamizar o diálogo com respostas rápidas, para colmatar estas situações e evitar os índices de injustiça social. A paz é um edifício que nunca terá fim, porque é um ir construindo, fazendo, vivendo e concertando, que todos nos empenhemos no bem e nos frutos que colhemos para que todos possamos saborear de igual para igual.

Angop – Enquanto líder religioso, que diagnóstico faz da sociedade angolana?

JI: A sociedade angolana é uma sociedade que procura afirmar-se à sua maneira. Ainda temos um percurso para fazer, porque as bases valorativas sobre as quais estamos a erguer o nosso perfil de país nem sempre foram bases culturais boas. Temos uma falsa imagem, projectamos um país cujas pernas não são nossas e isto está a criar alguma inverdade em nós, a imagem que temos lá fora é que Angola é um país super-rico, com muito dinheiro, caro (…). A sociedade angolana é um mosaico de culturas que ainda tem que se ajustar em muitos aspectos para podermos crescer no bem como sociedade.

Angop – No campo social, o que deve mudar em Angola?

JI: No campo social, deve mudar primeiro a mentalidade. Temos que aprender a ser cidadãos, a viver com os outros, a termos uma postura mais nobre. Devemos saber respeitar os espaços privados e públicos, salvaguardar o património público, ter consciência do serviço da higiene social, pública, pessoal, do espaço em que nos encontramos. Por outro lado, e falando dos partidos políticos, capítulo em que, infelizmente, hoje por hoje parece que ser militante do partido é mais importante do que ser cidadão, um factor mau para a sociedade, pois o cidadão não deve trabalhar em função do partido, os interesses partidários não devem estar acima dos interesses da Nação. Esta é uma tendência que os nossos partidos estão, infelizmente, a querer impor nas pessoas.

A tendência do lucro fácil, a tendência da gasosa no nosso país também é um mal que temos que combater e isto passa pela correcção da disciplina laboral, para que os funcionários públicos tenham consciência das responsabilidades e assim puderem oferecer os serviços por amor, tendo consciência que está a trabalhar para o bem da sua pátria.

Angop – E como é que caracteriza a influência do cristianismo na sociedade angolana actualmente?

JI: A influência do cristianismo na sociedade angolana é forte, a presença do cristianismo na nossa cultura é marcante e positiva, porquanto o evangelho nos ajuda a purificar a nossa mentalidade e cultura, para podermos cultivar aquela imagem e semelhança de Deus que em nós vive enquanto pessoa. Esta influência está a ajudar a termos estes sentimentos de nobreza, faz diminuir em nós este ímpeto de ódio, intolerância, ignorância, rejeição, porque o cristianismo coloca-nos no pé de igualdade.

Angop – Fala-se muito da perda de valores morais e cívicos. O que acha que falta à sociedade?

JI: Falta a humildade de aceitar que também erramos, não sabemos reconhecer os nossos erros, levando-nos a protegemos os nossos erros, as nossas mentiras e aquilo que sabemos que faz mal. Quando não aceitamos, então não há vontade de mudar, de transformar-se e é aí também que o evangelho é importante.

Angop – Como vê a gravidez precoce?

JI: A gravidez precoce é fruto de desmando comportamental, da desorientação sexual, porque, hoje por hoje, a sexualidade humana ficou reduzida à genitalidade, porque não é vivida como forma de realização da pessoa. O nível de pessoa ficou reduzido ao sexo que essa pessoa exibe e as atracções físicas que manifesta, levando-as a promiscuidade e desordem sexual.

Nas comunidades rurais, os nossos adolescentes e jovens não são bem informados sobre a sexualidade e não têm espaços de lazer para ocupação do seu tempo livre e a única diversão que encontram é o sexo. E é muito triste, a todos os níveis, porque ver crianças com crianças é paradoxo que preocupa qualquer pessoa.

Angop – A exploração e o abandono de menores nas ruas e muitas delas usadas para vários fins não o preocupa?

JI: Preocupa-me, porque este é um dos males da nossa sociedade. A Igreja Católica fez um trabalho de recolha de meninos de rua e descobrimos que todas elas têm famílias e fogem porque são maltratadas, mandadas para executarem trabalhos que não condizem com a sua idade. O problema não está na criança, mas sim na família que não consegue gerir o processo de educação dessas crianças.

E, por outro, muitas dessas crianças já são viciadas e são bandidas em potência. São crianças sem perspectivas e que já foram forçadas a serem adultas antes do seu tempo. O índice de malícia que está naquela criança já é mais perigoso do que o de um adulto, porque ela ainda não tem domínio total da razão e os actos que pode praticar são mais perigosos que a de um adulto que já tem domínio de si. Devemos trabalhar e concertar ideias para vermos como realmente sair desta situação social.

Angop -E a justiça social em Angola?

JI: O tema da justiça social é melindroso e muito importante, porque a justiça social tem a ver com a justa distribuição do rendimento público entre todos enquanto cidadãos e filhos desta terra. Todos devemos sentir os benefícios das riquezas que o país produz e essa riqueza seja distribuída de uma maneira justa por todos. Para isto, é importante que se ofereçam iguais oportunidades e que o desenvolvimento seja distribuído a todos, que os serviços principais estejam presentes na vida de todos. É preciso que esta consciência cresça a cada dia que passa para que todos sintamos que pertencemos ao mesmo país, usufruímos dos mesmos bens e serviços. Por outro lado, devemos ter em conta que o desenvolvimento tem que dialogar com a cultura, não podemos desenvolver o país sem ter em conta o nosso mosaico cultural. A riqueza é um bem para todos e tem que ser bem rentabilizada. A justiça social é um desiderato e é bom que todos ganhemos consciência disto.

Angop – Há uma crescente proliferação de seitas religiosas no país. Como a Igreja Católica encara este fenómeno?

JI: Este fenómeno é preocupante por causa das razões que estão na base destas seitas, porque é um fenómeno que periga a segurança nacional, a estabilidade cultural, social e moral. Começaram a surgir falsas teologias, falsas promessas, sobressaiu o aspecto comercial. A proliferação de seitas deve ser estancada, pois está a criar embaraços na sociedade angolana. Para isso, é preciso maior vigilância, porque além dos males que provoca, também estrangula a própria unidade nacional, uma religião instrumentalizada, politizada, ao serviço do poder político pode causar problemas sociais.

Angop – Que opinião tem sobre a actual situação económica e financeira do país?

JI: A nossa crise não é de fora só. É verdade que Angola, no contexto de globalização, está a viver as consequências da crise resultante da queda do preço do petróleo bruto no mercado internacional. Além desta macro-causa, que é a queda do petróleo, falhamos também na nossa ética e deontologia, falhamos na nossa mentalidade, falhamos na gestão pública, na disciplina orçamental, na realização e acompanhamento das nossas obras, na fiscalização. Por isso, este é o momento propício para cairmos em nós e reconhecermos estas falhas, porque o reconhecimento destas falhas é o caminho para disciplinar e mudar de mentalidade.

A crise, além das dificuldades que estamos a enfrentar agora que tem a ver com a subida dos preços, a gestão cambial, dá-nos a oportunidade de aprender, inovar, empreender, criar, racionalizar os nossos gastos. Acredito que com tudo isso, daqui em diante, a nossa gestão já será diferente, a disciplina orçamental já será diferente, a consciência ética dos nossos gestores públicos já será diferente, a responsabilidade no trabalho já será diferente.

Angop – O desafio de diversificar a economia nacional será a verdadeira “arma” para combater este mau momento económico e financeiro do país?

JI: Este desafio é bem-vindo. Tardio, mas necessário, pois adormecemos sobre um produto e esquecemo-nos das outras áreas económicas potenciais e boas que Angola tem. Graças a esta contenção económica, estamos a descobrir que afinal temos terrenos aráveis, bom turismo para explorar. Temos o nosso mar muito rico. O despertar da diversificação da economia vai rentabilizar melhor os recursos que temos, mas que saibamos aproveitar da melhor maneira possível.

Angop – Qual seu desejo para as comemorações deste 14º aniversário de paz em Angola?

JI: O meu único desejo é que, no quadro da celebração dos 14 anos de paz e da reconciliação nacional, continuemos a nos sentir sempre como angolanos, irmãos, úteis e necessários para a construção desta grande Nação. Ninguém deve excluir ninguém. Que ninguém se sinta dono das soluções, dono da verdade e de Angola.

Angop – Da vida pessoal do senhor bispo quase nada se sabe. O que pode partilhar com seus seguidores?

JI: Bom, é difícil falar de mim próprio. Mas sou filho desta terra. Nasci na cidade do Luena (Moxico), tenho 50 anos de idade. Estou a viver o meu ano jubilar. Sou de uma família profundamente Católica. O meu pai é oriundo de Cacolo (Lunda Sul), a minha mãe é do Moxico. Sou o terceiro filho entre cinco irmãos. Com 14 anos, entrei no seminário de Malanje. Prossegui os meus estudos nos seminários do Uíge e Luanda. Fui ordenado sacerdote em 1991. Em 1995, fui enviado para Itália, onde me doutorei em Filosofia. Voltei em finais de 1999. Trabalhei na Universidade Católica, de 2001 até 2008, quando fui nomeado bispo do Dundo e, em 2011, fui nomeado arcebispo de Saurimo, onde trabalho até ao momento. Sou de um temperamento muito pacífico e tímido. Sou o magno chanceler da Universidade Católica de Angola e porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe. Sou o presidente da comissão episcopal da Cultura. (ANGOP)

por Hélder Dias e Silvina Lembeno

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