“A música me invadiu e eu não quis lutar contra isso” (vídeo)

Tiganá Santana e o percussionista cubano Inor Sotolongo, em concerto no Cully Jazz Festival 2016. (Lauren Pasche)

O mais africano dos músicos brasileiros, Tiganá Santana, apresentou-se pela primeira vez na Suíça, semana passada, no Cully Jazz Festival. Acompanhado pelo percussionista cubano Inor Sotolongo, Tiganá cantou canções em português, francês, inglês e nas línguas africanas que domina. Foi muito aplaudido. Tudo em perfeito acústico, no Templo de Cully, uma cidadezinha de viticultores às margens do Lago Leman, que há 30 anos organiza o Cully Jazz Festival.

A vida de Tiganá Santana começou difícil. O cartório não queria registrá-lo com o nome africano que seus pais escolheram. Em plena Salvador, em 1982, não havia uma única pessoa registrada com um nome africano. Foi preciso insistir. Talvez hoje haja outros.

Garoto, ele queria ser escritor e começou a fazer poesia. Aos 11 anos, ganhou um prêmio literário com um poema intitulado “Perverso Sistema”. A mãe queria que ele fosse diplomata e Tiganá começou a estudar línguas ocidentais e africanas. O avô, hoje com 91 anos, ainda toca saxofone e clarineta e levava o neto para rodas de choro, mas ele ainda era muito pequeno para ouvir e entender.

O tio arquiteto também gostava de música e tocava discos para ele e seus primos ouvirem. Aos 14 anos, depois de ficar três anos olhando para o violão presenteado pela mãe, Tiganá começou a estudar clássico e, aos 16 anos, já compunha em línguas africanas. Um pouco mais tarde, formou-se em Filosofia na Universidade da Bahia.

Na semana passada, Tiganá Santana se apresentou pela primeira vez na Suíça, no Cully Jazz Festival. Na entrevista a seguir, feita depois do concerto em Cully, você vai saber mais da música e das ideias do mais africano dos artistas brasileiros.

swissinfo.ch: de onde vem esse nome Tiganá?

Tiganá Santana: Há controvérsias quanto ao nome Tiganá. Primeiro porque foi muito difícil para os meus pais registrarem na época em que eu nasci – que não faz tanto tempo assim – porque não havia ninguém com nome africano, mesmo em Salvador, que é grande cidade negra da diáspora. Foi uma saga para poder registrar meu nome. Tem uma pesquisa que talvez seja um nome do Mali, creditado a uma linhagem de pensadores da civilização malinke. Mas tem uma pessoa bantuísta que se encontrou com minha mãe e que disse que Tiganá pode ser uma corruptela de kingana, do kikongo, que vem a designar filosofia. Então de um lado e de outro está a filosofia. Mas kingana também pode significar provérbio. Ainda falando da civilização Bakungo, que me é muito cara e importante, filosofia e arte são a mesma coisa. Então, a manifestação filosófica tem de ser necessariamente artística e a manifestação artística não existe sem um amparo de reflexão.

swissinfo.ch: Pela sua educação e formação, você certamente poderia ter outra profissão. Como é que a música lhe invadiu, tomou conta de você?

T.S.: Foi justamente assim, tomando conta e invadiu e quis lutar contra isso. Porque era um lugar muito especial que me tocava, que nenhuma outra coisa tocava. Então, sem questionar, eu decidi seguir. Não tinha a menor perspectiva material ou profissional, apenas segui o som. Tinha sobretudo a possibilidade de criar, porque essa é a minha relação com a música, a possibilidade inventiva. Se não fosse isso eu não estaria na música. Se você somente para tocar um instrumento e cantar por prazer, eu não estaria na música.

swissinfo.ch: E a poesia?

T.S.: Eu comecei pela poesia. Quando eu era criança, queria ser escritor, era essa a minha vontade. Eu fazia uns livros com colagens e com 11 anos ganhei um concurso literário, com um poema chamado “Perverso Sistema”. Meu avô, que vai fazer 91 anos e ainda toca saxofone e clarineta e gosta de choro. Mas ainda era muito pequeno e não parava para ouvir. Com 11 anos comecei a parar para ouvir na comecei a parar para ouvir música na casa de um tio arquiteto. Ele punha música pra mim e para os filhos dele e aí eu não ficava mais brincando com os meus primos pra ficar parado ouvindo música.

Olha, seguir música foi uma surpresa para mim e para os meus familiares, porque não era uma coisa prévia, que tinha que ser etc.

Então eu segui e estou aqui por causa desse mistério.

swissinfo.ch: Você é muito respeitoso das tradições, dos antepassados, da religião. Esse seu terceiro disco “Tempo e Magma”, gravado no Senegal, é o que melhor exprime até agora esse respeito?

T.S.: Eu acho que os três discos, que são portais físicos, fotografias, pois a paisagem é a vida. E eu acho que os três expressam. O primeiro foi feito na Bahia (“Maçalê) e reúne algumas pessoas do meu afeto. Depois me disseram que esse foi o primeiro disco gravado no Brasil em que se apresenta canções em línguas africanas como compositor.

O segundo disco, “The invention of color”, gravado na Suécia, onde eu tive a oportunidade de apresentar este violão (violão-tambor). A pesquisa antecede mas queria ter a sensação de poder gravá-lo. Esse disco também é importante por ser minimalista, apresentando as canções de maneira muito desnuda e isso é uma coisa em que eu acredito fortemente. Esse terceiro disco é um mergulho coletivo e individual ao mesmo tempo, numa parte do continente africano, num pedaço desse pedaço.

swissinfo.ch: Como foi essa experiência?

T.S.: Essa experiência me diz que a relação com os antepassados existe para que a gente chegue a esse lugar desconhecido que não está nem mesmo numa cultura ou numa linguagem específica. Os bakungos sempre me orientam. Na civilização bakungo se diz que nós temos antepassados que são pai, mãe, avós. Só que antes de as pessoas existirem, existiam as manifestações da natureza, que também são antepassados. As manifestações da natureza existem através das primeiras formações ontológicas, bióticas, da Terra. A Terra existe porque pertence ao sistema solar e por aí vai. Tudo isso são antepassados. Então os antepassados não ficam circunscritos ao universo humano. Antepassado é tudo aquilo que é originário e originário não é pretérito, é central. É por isso que a espiral é um dos símbolos principais entre os Banto e não só os Bakungo. Na espiral você tem uma origem de centro em torno da qual as coisas todas se desenvolvem e acontecem. Esse núcleo central está sempre presente, não acaba nunca. Essa força central só tem sentido se nós a reavivamos. A espiritualidade, os deuses, os antepassados ou qualquer coisa em que se crê, só existem se nós damos a eles uma existência, senão não existe.

swissinfo.ch: Você já disse que suas composições não lhe pertencem. Como assim?

T.S.: Nada pertence a ninguém. Nunca pertenceram. As canções passam pelas pessoas e, dependendo do que cada um é, vai colocando as características delas. Vai modelando as canções. Eu continuo dizendo que, porque acredito mesmo nisso, há três pilares importantes para tudo que são a vida, a morte e o tempo. A relação com a música, pra mim encarna muito bem isso. Primeiro que música é tempo né? Tempo são os fatos, as coisas acontecendo. Segundo, essa pulsão de morte que vem da possibilidade de criar, de alguma coisa nascer, vem com a mesma força. Quer dizer, você concebe alguma coisa, mas algo morre ali ao mesmo tempo em nasce que nasce. É como um parto, você tem um prazer absoluto e ao mesmo tempo uma dor absurda.

swissinfo.ch: Compor é a mesma coisa?

T.S.: A composição é a mesma coisa! Criar alguma coisa é o prazer maior que se pode ter. São alguns instantes infinitos, eternos. E depois daquilo você tem a sensação de estar cheio e vazio! Eu tendo a acreditar que a possibilidade da composição deve ser estendida às coisas da vida: você olhar alguma coisa, vivenciar algo com alguém: amores, realizações, viagens, diálogos, escutas, falas e identificar nessas coisas a possibilidade da composição. Porque se nós restringirmos o ato criativo ao que se conhece como resultado artístico, uma tela, uma peça de teatro, um poema, uma canção, eu acho que a gente perde uma grande oportunidade do que o pensador Michel Onfray chama de escultura de si. Você perde a grande oportunidade de aprender com a arte.

swissinfo.ch: Você sente a mesma receptividade se apresentando no Brasil e no exterior? Você foi muito aplaudido aqui em Cully. É a honestidade que faz isso?

T.S.: Não sei. Não tenho realmente como saber, mas o que eu faço, faço porque sinto assim. E quero de fato que seja assim. Agora eu não sei se é por isso que eu sinto a mesma receptividade quer no Brasil ou em outros países. Eu me sinto em diálogo com as pessoas quando está se passando alguma coisa dessa natureza.

swissinfo.ch: Como você chegou ao violão-tambor e aos resultados que você tem hoje?

T.S.: Foi uma investigação de frequências que tocava certas regiões de sentimentos, de reflexão, de pensamento, de alquimia. Eu não estava satisfeito com o timbre do violão de seis cordas. E este instrumento representa mais aquilo que eu quero dizer. Porque texto também está na textura, né? Eu pensava no texto da voz, das palavras, o texto da melodia. Então eu fui entrando nisso até chegar a esse resultado. Há uma corda a menos porque, dedilhando, eu sou obrigado a impingir um ritmo no instrumento. Portanto, o instrumento é percussivo porque eu sou compelido a repetir cordas e isso é que dá o ritmo.

swissinfo.ch: Ao mesmo tempo dá melodias mais próximas de você?

T.S.: Eu acho que sim, eu tenho essa impressão. Eu confirmei isso justamente quando estava mixando o “The invention of color”, tive uma surpresa quando a gente confirmou no estúdio que precisamente a mesma região da minha voz é a do violão, em hertz!
swissinfo.ch: Você é jovem e provavelmente já é o artista mais africano do Brasil. Você concorda?

T.S.: Nossa! Eu não sei. Eu sinceramente acredito em muitas possibilidades de africanidade, mas, com te disse, a busca por determinadas raízes é para que a gente chegue a uma não-forma. A gente passa pelas culturas, pelas vestes, para atingir o corpo né? Então numa não-forma, não-tempo, não-cronologia, é isso que eu busco. Sei que não vou alcançar conscientemente. Porque com consciência a gente não chega na não-forma. Mas, como em filosofia, a busca pela verdade que é interessante, pois a verdade seria muito redutora. Agora caminhar em direção a alguma coisa em que a cada vez que você se aproxima mais se afasta é que faz com que você viva de maneira pulsante, talvez mais de acordo com a própria vida, que é essa coisa que não se define, mas que acontece. Eu também tenho grande simpatia pelas civilizações ameríndias, que para mim representam a maior falha do Estado brasileiro. Não há nenhuma questão que chegue ao mesmo tempo de injustiça e crueldade como a questão indígena. Eu gosto de entrar nessas manifestações e depois sair porque, quando a gente acha que é o Norte, sabe que é uma ilusão.
swissinfo.ch: Cantar as origens é importante num país tão intolerante como o Brasil?

T.S.: Sem qualquer dúvida. Cantar as origens, trazer essas frequências, dizer que essas origens que nos constituem, todas elas, mas aqui eu quero trazer aquelas que estiveram em uma situação hierárquica de inferioridade, de subjugação. Dizer que essas origens têm vários pensamentos, tem profundidade, tem importância, tem ontologias possíveis e reais. Quando cantamos (não se faz nada só, muito menos cantar) essas origens é pra dizer isso à nossa gente e às gentes de fora, do Brasil. Esse lugar, que não o Brasil oficial como dizia Mario de Andrade. Esse Brasil real tem essa complexidade toda porque tem origens complexas, todas. Mas as circunstâncias sócio-históricas em que as partes constitutivas desse Brasil real se configuraram é que são desiguais. Eurocentradas, como todo mundo sabe, mas depois de 516 anos, é tempo de se pensar e de se agir, né?

Cantor. Compositor. Instrumentista. Poeta.

Tiganá Santana Neves Santos

29/12/1982 Salvador, BA

Foi iniciado no candomblé de origem congo-angolana, ocupando o cargo de Tata Kambondo no Terreiro Tumbenci, em Salvador (BA).
Iniciou seus estudos de violão clássico aos 14 anos de idade. Aos 16, já compunha em várias línguas africanas e europeias.
Concebeu seu próprio violão, que chamou de “violão-tambor”, com afinação, textura e disposição cordofônica próprias.
Graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Estudou a fundo as estruturas linguísticas dos idiomas Kimbundo e Kikongo, naturais da Angola e do Congo.
Em 2010 mudou-se para São Paulo. (Swissinfo)
Discografia

(2015) Tempo & Magma • Ajabu! • CD
(2012) The invention of color • Ajabu! • CD
(2010) Maçalê • Independente • CD

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

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