Um ano depois das cheias no Lobito, 400 famílias continuam sem casa

(Nelson)

Um ano depois da tragédia do 11 de Março no Lobito, regressamos à zona dos Cabrais, onde foi criado um projecto urbanístico para os desalojados.

Há um ano, as fortes chuvas que se abateram sobre o município do Lobito, na província de Benguela, em Angola, destruíram centenas de casas, escolas, hospitais e igrejas. Mais de 400 famílias ficaram desalojadas e mais de 70 pessoas perderam a vida – entre as vítimas mortais, registaram-se 35 crianças.

Depois da tragédia, o Governo angolano criou um projecto urbanístico na zona dos Cabrais, a cerca de 20 km do centro da cidade do Lobito, com 390 residências para fixar as vítimas das enxurradas.

Luís Cândido é um dos sobreviventes destas cheias. Perdeu três filhos naquele dia e a data ficará para sempre na sua memória. “Estou aqui a pensar que vai já fazer um ano que os meus filhos… pronto, perdi três filhos, dois rapazes e uma menina. Estamos aqui [a ver] se amanhã ou depois a situação melhora, mas agora [estamos] numa situação difícil”, afirma o sobevivente.

Quando Luís Cândido e a mulher foram socorridos e transferidos para o acampamento dos Cabrais, esperavam recomeçar a vida num local seguro e recompor-se da tragédia. Um ano depois, e com um filho recém-nascido, o casal continua a viver numa tenda, sujeitos a várias doenças e não só. “Não há água, transportes é difícil, mesmo. Estamos a passar uma situação muito difícil”, explica Luís. “Se eu entrar na minha tenda, está cheia de água, o chão está todo molhado”.

No acampamento dos Cabrais, é possível ver que algumas das 400 famílias que ficaram desalojadas depois das enxurradas ainda continuam a viver em tendas; outras vivem em casas de chapa.

Vários cidadãos falam sobre as dificuldades que têm atravessado e de como coisas como a água potável são um luxo. “É muito difícil. A chuva deixa tudo molhado, não temos comida. Estamos a passar mal”, admite uma das sobreviventes.

As crianças que aqui vivem têm uma escola do 1.º ciclo, mas devido à presença constante de cobras e lacraus muitos professores são obrigados a terminar as aulas ainda antes de começarem. “Na escola entram bichos. Cobras, lacraus, há muito capim ao lado. Não temos cadernos, livros, lápis ou borrachas”, diz Augusta, uma menina de 11 anos.

Governo continua sem agir

Quando se abateram as chuvas no Lobito, o Governo angolano tinha rejeitado a possibilidade de construir habitações para os desalojados mas, devido à pressão dos meios de comunicação social e de alguns sectores da sociedade, acabou por recuar na sua decisão.

Na altura, Isaac Maria dos Anjos, governador da província de Benguela, afirmou que o Governo não tinha a obrigação de acudir às populações. “Onde é que você encontra coisa de graça? Não existe coisa de graça. O que é que querem mais do que isto?”, afirmava o governador. “Isto é assim, em função das chuvas perderam tudo. Existe algum mecanismo nacional que preveja que, em caso de calamidade, o cidadão beneficie a zero, free, sem nada?”, completando que “o ideal é no Céu, aqui na terra tudo se faz com recursos, paga-se, e não podemos estar a prometer às pessoas aquilo que não se pode dar”.

As cheias no Lobito reacenderam o debate em torno das construções anárquicas em Angola e a falta de um Plano Director Municipal na área da habitação e urbanismo.

Para vários especialistas, o facto de dezenas de famílias terem sido vítimas destas fortes chuvas prova que as autoridades não conseguiram cumprir as promessas feitas ao longo dos anos, de garantirem uma habitação condigna a todos os angolanos.

Entretanto, um ano depois da tragédia no município do Lobito, não há quaisquer indicações de que o Governo esteja a prevenir a construção de habitações em zonas de risco. Também não se sabe que medidas estarão a ser tomadas para a evacuação das famílias que ainda vivem nestas zonas. (DW)

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