“The Lure”, o pesadelo de Andersen (vídeo)

(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)

“Nós matámos a “Pequena Sereia” e criámos uma sereia moderna.

Dos contos de fadas para o terror, Agnieszka Smoczyńska levou as sereias até onde nunca ninguém as tinha levado e conta com “The Lure” (título original: Córki dancingu) uma história que não é, segundo a autora, mais que uma metáfora sobre os desejos e expectativas de qualquer rapariga à chegada à idade adulta. Além desta transformação arrojada (e provavelmente traumática para quem sonha com sereias), o arrojo da realizadora polaca não ficou por aqui e mostra-se num filme que mistura os conceitos de filme de terror e de filme musical. A aposta no formato revelou-se vencedora. Depois de ter já sido premiado no Sundance, o filme foi o grande triunfador da última edição do Fantasporto, com os galardões de melhor filme, melhor realização e melhores efeitos especiais. Foi nessa ocasião que a realizadora falou em exclusivo com a euronews.

Ricardo Figueira, euronews: Com este filme protagonizado por sereias, acha que estas criaturas se podem tornar num novo arquétipo do terror, tal como os lobisomens, vampiros ou zombies?

Agnieszka Smoczyńska, realizadora: Para mim, a sereia simboliza a chegada à idade adulta de uma jovem rapariga. No início, quando começámos a idealizar o filme, queríamos contar a história de duas adolescentes que cresceram num restaurante “dancing”. Eu cresci num ambiente desses, na Polónia. A uma determinada altura, os meus amigos que estavam a escrever a música para o filme disseram-me que também cresceram num clube semelhante e não queriam que o filme fosse tão pessoal. Então, o argumentista Robert Bolesto teve a ideia das sereias. Eu achei uma excelente ideia, porque podemos usar este arquétipo, este mito, com um “embrulho” moderno, algo de que as pessoas gostam. Podemos assim contar uma história que é universal e, ao mesmo tempo, moderna.

De alguma forma, as sereias da “Odisseia” de Homero inspiraram-na, já que estas também atraem os homens para os matar?

(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)
(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)

AS: Com certeza. Ao pensar nas sereias, pensei em Homero, mas também na “Pequena Sereia” de Hans Christian Andersen. A nossa história é uma transformação da “Pequena Sereia” de Andersen, mas vai buscar personagens a Homero. As nossas sereias não são apenas simpáticas e bonitas, também devoram pessoas. São uma espécie de “femme fatale” para os marinheiros e homens em geral.

A história do filme poderia ser um pesadelo de H.C. Andersen?

AS: (Risos) Nós matámos a “Pequena Sereia” e criámos uma sereia moderna. Era o que queríamos fazer. Por isso, as nossas sereias são lindas da cintura para cima, mas as caudas de peixe são enormes e muito feias. Ao ler Andersen, ou ao ver o filme da Disney, vemos uma sereia com um corpo lindo, com a parte de cima do biquíni a tapar os seios e uma cauda de peixe muito sexy. A nossa sereia é metade rapariga linda, metade monstro. Um lindo monstro.

(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)
(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)

Algo que reparei no filme e achei muito curioso é que estas sereias, quando saem da água e se transformam em mulheres, não têm órgãos genitais…

AS: Porque são como anjos. Queríamos que não fossem mulheres verdadeiras e o desejo de uma das personagens é exatamente esse, ser uma mulher verdadeira, poder ter sexo com o namorado e sentir-se bem com isso. Se reparar bem, elas são como as Barbies. O desejo dessa personagem é ter uma vagina, para que possa, enfim, considerar-se uma mulher. Toda a história do filme anda à volta do desejo de uma rapariga em tornar-se mulher madura. No conto de Andersen encontramos a mesma história. A protagonista quer tornar-se mulher, poder amar.

Quais foram os maiores desafios na rodagem deste filme?

AS: O desafio foi criar um novo mundo, novos protagonistas, um novo mito. Porque quis criar uma sereia moderna, como metáfora da mulher. Tudo foi um desafio e eu gostei muito, porque era tudo novo, tanto para mim como para o resto da equipa. Todos os efeitos especiais e a criação dos cenários, já que o filme se passa nos anos 80. O filme mistura os conceitos de musical e de filme de terror. É uma mistura de vários géneros cinematográficos e foi ótimo fazer isso. Foi um grande desafio.

(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)
(Foto: Josep María Contel / Fantasporto)

Ganhou com este filme um prémio no festival de Sundance (nota: a entrevista foi realizada antes da atribuição de prémios no Fantas). Como foram as reações ao filme?

AS: O filme estreou num festival na Polónia, onde foi premiado. A estreia internacional foi no Sundance. As reações foram excelentes. Tanto o público como os programadores e o júri disseram-nos que estavam há anos à espera de um filme assim, porque é único, é original e é, ao mesmo tempo, muito verdadeiro. Sentiram a energia que pusemos neste filme. Ganhámos um “prémio especial pela visão e design únicos”. Estar num festival como Sundance é já um sucesso para qualquer filme, devido ao contacto que o festival nos proporciona com pessoas de todo o mundo.

A história

Se as sereias, para nós, habitam um mundo de fantasia repleto de beleza e feminilidade, as de Agnieszka Smoczyńska foram buscar às de Homero o lado brutal e assassino. Não vivem num lago encantado, mas num clube noturno da Varsóvia dos anos 80. Devoradoras de homens por natureza, Gold e Silver são descobertas por uma família que decide fazer delas a maior atração desta “boîte” decadente. Mas uma delas tem sentimentos demasiado humanos e quer ser mulher…

Em “The Lure” há amor, esperança, ódio e traição. Há também ritmo, assassínios ao som de uma “pop” carregada de glamour e lantejoulas, uma narrativa cativante e uma fotografia sem falhas, à qual a cinematografia do leste europeu tanto nos habituou. Se, em termos comerciais, ainda só estreou na Polónia, o percurso no circuito de festivais está a ser auspicioso e esperam-se para breve contratos de distribuição em vários países… (EURONEWS)

 

 

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