Rússia convida 15.000 jovens estrangeiros a estudarem gratuitamente

( Sputnik/ Vladimir Vyatkin)

A Rossotrudnichestvo (Agência Federal para Assuntos da Comunidade dos Estados Independentes, Compatriotas Residentes no Estrangeiro e Cooperação Humanitária Internacional) acaba de anunciar um concurso para jovens estrangeiros estudarem em universidades russas.

Em uma entrevista à agência de notícias RIA Novosti, a chefe da pasta, Liubov Glebova, contou em pormenor como, para quê e quais os jovens que poderão viajar à Rússia para obter o seu diploma.

A chefe da Rossotrudnichestvo, Liubov Glebova, contou à correspondente da RIA Novosti Yulia Osipova sobre como a Rússia planeia aumentar o número de estudantes estrangeiros.

Sputnik: quantos estrangeiros vêm à Rússia anualmente para obter educação superior gratuita?

Liubov Glebova: nos últimos três anos, a Federação da Rússia convida anualmente 15.000 cidadãos estrangeiros a estudarem, de maneira completamente gratuita, nas nossas universidades. Mais de 400 universidades russas estão envolvidas neste processo.

Em 2016, nós lançamos, pela primeira vez, um concurso completamente aberto. Ao analisarmos como os nossos colegas no estrangeiro organizam este processo, nós lançamos, neste ano, o procedimento de apresentação aberta de pedidos por via electrónica. Não há nenhuma mudança global no processo de apresentação, mas o mesmo se tornou muito mais simples e transparente (janela única de digitação dos dados, procedimento rápido de escolha). O portal digital permite evitar a participação de um grande número de mediadores que antes “giravam” em torno deste processo.

Cidadãos de 198 países do mundo podem encaminhar os seus pedidos para estudar em universidades russas nas especializações mais diversas (das médicas às técnicas, inclusive física nuclear). Uma linha especial é destinada aos estudos russos, linguistas e filólogos. Tudo o que é relacionado com a língua russa tem agora muita procura no estrangeiro.

S.: O que um cidadão estrangeiro deve fazer para se candidatar à quota estatal russa?

L.B.: Ele ou ela deve se cadastrar no portal russia.study. O procedimento leva cerca de 20 minutos e é feito em dois passos muito simples: o cidadão estrangeiro se identifica e depois cria um endereço electrónico. A confirmação chega quase no mesmo momento. O e-mail é necessário para depois manter uma comunicação rápida e segura com o potencial candidato; contudo, depende de ele reagir rapidamente a esta comunicação, do interesse que ele tem na educação futura.

Depois da verificação, o candidato obtém acesso a um questionário que ele preenche com os seus dados, informações sobre a sua educação e êxitos pessoais, indica a linha de estudos desejada; também ele deve escrever uma carta de apresentação. O questionário passa a fazer parte da lista geral de questionários correspondentes ao seu país. Depois, o gerente de cada país (cada país tem o seu próprio gerente) realiza a selecção preliminar dos candidatos.

S.: pode acontecer que determinados cidadãos estrangeiros menos preparados ocupem lugares que poderiam ser ocupados por candidatos russos com maiores perspectivas? Existe um concurso?

L.B.: A maioria dos países tem representações da Rossotrudnichestvo, como os Centros Russos de Ciência e Cultura, cujos representantes, baseando-se em vários critérios (avaliação escolar, participação de olimpíadas e outros méritos do candidato) garantem a avaliação preliminar dos questionários. Os jovens mais talentosos serão convidados para uma entrevista presencial ou à distância. No caso da Síria, por exemplo, agora só é possível o formato à distância. No entanto, nós não deixamos de esperar estudantes da Síria, gostaremos muito de os ver nas universidades russas.

A selecção final é feita por uma comissão constituída por representantes dos Centros Russos de Ciência e Cultura, embaixadas, ministérios locais da Educação e organizações sociais. Agora, nós estamos mantendo negociações com as universidades para que os seus representantes também façam parte da comissão.

Este ano é o ano “piloto”, e o procedimento da selecção será realizado em formato de entrevista ou prova de teste. Porém, já no ano que vem nós planeamos passar a uma forma muito mais sofisticada de selecção, com base no sistema de olimpíadas e testes. Será elaborado um rating especial para cada país. As olimpíadas organizadas pelas universidades russas em países estrangeiros serão outro critério de escolha. No momento, a Rossotrudnichestvo está trabalhando para torná-las adequadas e comparáveis entre si.

S.: O que resta fazer aos candidatos que não passarem na selecção?

L.B.: mesmo se um cidadão estrangeiro ficar sem lugar entre os 15.000 candidatos, ele receberá a proposta de estudar com base em um contracto (ou seja, no ensino privado). Tendo em conta que as nossas universidades mantêm o preço de estudos relativamente baixo (cerca de 1.000-1.500 euros, equivalente a 4.000-6.000 reais, por ano em uma parte considerável das universidades), muitos estarão interessados também nesta modalidade.

S.: em que etapa começa a interacção com as universidades? Como um candidato com recomendação ingressa em uma universidade concreta?

L.B.: Depois de passar a selecção no âmbito da quota, ele escolhe seis universidades em que ele gostaria de estudar e faz uma lista de preferências dos cursos. Depois, se utiliza um mecanismo interessante: cada universidade abre um “gabinete electrónico” e faz uma escolha a favor de um candidato ou outro. Se o candidato não for aceite pela primeira universidade preferida, os seus dados passam para a a segunda… Desta maneira, um candidato pode ir até a sexta universidade. Se nenhuma das seis universidades o escolher, o Ministério da Educação e Ciência da Federação da Rússia oferecerá uma opção alternativa de fazer estudos em uma outra universidade. Acredite, ninguém será esquecido nesta cadeia.

S.: A senhora acredita que a Rússia continua sendo valorizada no mundo como um país com uma forte educação superior? Que motivos levam as pessoas que vão à Rússia a fazer estudos superiores?

L.B.: Primeiro, a Rússia dá uma educação de qualidade nos cursos de engenharia, ciências exactas, matemáticas, filologia e estudos russos. A educação na área da medicina, muito popular no exterior, ocupa um lugar especial. Há uma situação muito parecida com os estudos culturais: a música, o teatro, o cinema russo continua gerando grande interesse nos estrangeiros. E, apesar de a educação russa ter tido tempos difíceis, ela continua sendo valorizada no mundo como permitindo uma boa preparação fundamental e interdisciplinar.

Segundo, a educação e a vida na Rússia são mais baratas do que na Europa, por exemplo. Terceiro, a Rússia segue sendo, para toda uma série de países, um país líder. Muitas pessoas que agora ocupam os cargos mais altos em vários países, obtiveram o seu diploma na Rússia. Agora, quando os seus filhos cresceram até a idade de candidatos, eles olham com grande interesse para a educação russa, sabendo perfeitamente que a educação na Federação da Rússia oferece amplos conhecimentos, amizades úteis e orientações correctas. Isso é correcto não só para os países da CEI [Comunidade dos Estados Independentes, que abrange 11 países que pertenciam à antiga União Soviética. — Redacção], senão também para os países emergentes da Ásia e África, vários países da Europa e também para os países da América Latina.
S.: Qual será, segundo a senhora, a utilidade que este projecto trará à parte russa?

L.B.: Primeiro, ele permite às universidades e à Rússia investir no seu futuro, fazer investimentos correctos. Os estudantes estrangeiros que tenham feito os seus estudos na Rússia ficam leais à Federação da Rússia ao voltar ao seu país. Se eles se especializam nas ciências, eles constroem relações estreitas com as entidades educativas e científicas russas. Os estudantes mais motivados e requeridos permanecem na Rússia, continuando a estudar e a trabalhar aqui. De modo que, essencialmente, estamos atraindo à Rússia os recursos humanos necessários à nossa economia e ao nosso sistema educativo.
Além disso, as quotas de educação gratuita nas universidades russas não se destinam só a licenciados, mas também para mestrandos e aspirantes [o grau de aspirantura é o nome russo de mestrado, mas um pouco diferente, formalmente, da variante europeia e brasileira de mestrado; ambas as formas de continuação dos estudos superiores existem na Rússia. – Redacção], o que é um sinal directo de mobilidade académica, um elemento de intercâmbio de estudantes. As universidades fomentam os contactos ao nível internacional. Ao falarmos dos estudantes estrangeiros que entram nas universidades com base em um contracto, as universidades já terão um ingresso significativo.

S.: para estudar na Rússia, é preciso saber a língua russa, que está longe de ser a língua mais fácil do mundo. Os estudantes estrangeiros terão algum apoio linguístico?

L.B.: muitas universidades da Federação da Rússia têm faculdades preparatórias. Aqueles estudantes estrangeiros que não conhecem bem a língua russa (são cerca de 4 mil pessoas por ano), têm cursos de língua que duram um ano. Mas cada estudante desses custa até 100 mil rublos (cerca de 1.100 euros ou 5 mil reais) por ano. O Estado perde o seu dinheiro e as pessoas perdem o seu tempo.

Por isso, a Rossotrudnichestvo propõe, no futuro, criar faculdades preparatórias “externas”, conjuntamente com as universidades russas, em vários países do mundo, abrindo lá centros de estudo da língua russa e centros de provas.

S.: há muitas pessoas interessadas na proposta russa de estudar gratuitamente nas suas universidades?

L.B.: sim, está sendo observada uma maior actividade entre os jovens que gostariam de estudar na Rússia: as pessoas telefonam-nos, fazem perguntas através das redes sociais, se cadastram no portal. Até agora, o maior interesse vem de cidadãos dos países da CEI, o que é bastante esperado, porque a informação sobre a proposta se espalhou rapidamente nos países russófonos.

A aceitação de cidadãos estrangeiros para estudos gratuitos nas universidades russas é um projecto anual e de longo prazo. Entendendo que ele é um instrumento eficiente da política exterior do Estado, nós gostaríamos de aumentar, no futuro, o número de estudantes. (SPUTNIK)

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