Quantos anos tem Luanda?

(Foto: D.R.)

O Portal de Angola oferece aos seus leitores este interessante trabalho de pesquisa sobre a capital do nosso país, considerando-o um valioso contributo à história da cidade mais populosa do país e um tema para debate.

Para já felicitamos o autor por esta iniciativa corajosa inserida na edição nº 105 do quinzenário Cultura, o único espaço aberto à divulgação do espectro cultural do país, dirigido pelo conceituado escritor e jornalista, José Luís Mendonça.

Para o Bantu, a palavra – para ele, produto do espírito – é o elemento unificador do mundo. Ela, a palavra, está presente em tudo, tal como o espírito que a cria e segrega. Ela está presente na história, na geografia, no tempo, no espaço e no próprio espírito que a cria. Sem a palavra, o mundo – objectivo e subjectivo – não é descritível. Palavra é “mbimbi”, com a mesma sílaba “mbi” de” nzumbi” que significa espírito, na minha língua, para indicar, na língua, de onde procede a palavra.

Luanda colonial (Foto: D.R.)
Luanda colonial
(Foto: D.R.)

Diz a Bíblia que Deus criou o mundo pela palavra. Ele disse haja luz e a luz passou a existir. O homem, nomeando, pela palavra recriou o mundo, criando um outro mundo – o mundo das palavras, com as quais expressa também a História com as datas e o nome dos lugares. Usemos, pois, a Linguística, ciência da língua, ciência da palavra,para compreender a História, que é feita, basicamente, pelo homem, e desmistificar.

Quando se diz que Luanda tem quatrocentos e quarenta anos – estas são as palavras -, a que Luanda nos estamos a referir? Ou, perguntaria: o que é Luanda? Que territorial, histórica, cultural e política é Luanda?

Luanda doutros tempos. População autóctene. (Foto: D.R.)
Luanda doutros tempos. População autóctene.
(Foto: D.R.)

Luanda não foi fundada por Paulo Dias de Novais. Luanda é uma cidade antiga, de modelo bantu, enquanto cidade, que deve ter cerca de mil anos. Por cima da Luanda milenar bantu, cujo nome foi dado pelos Bantu, Paulo Dias de Novais fundou a cidade de S. Paulo da Assunção de Luanda – a Luanda colonial.

Ao nome preexistente, de uma Luanda já existente, Novais acrescentou, digamos, um epíteto – de teor cristão. A alusão ao nome de santos era recorrente, tendo em conta o alegado propósito da expansão da fé, quando não era o nome dos seus heróis – Afonso Henriques, Silva Porto, Sá da Bandeira, Maria da Fonte, etc.

No Brasil fundaram a cidade de S. Paulo; no reino do Kongo, a preexistente Mbanza Kongo foi renomeada S. Salvador; uma das ilhas do arquipélago situado perto da costa do reino do Kongo tomou o nome de S. Tomé. São esses, entre outros, os nomes que os portugueses introduziram nos lugares por onde passaram.

Luanda antiga (Foto: D.R.)
Luanda antiga
(Foto: D.R.)

Porém, Luanda e Mbanza Kongo, entre muitos outros, são nomes locais que referem lugares preexistentes. Num acto de política linguística muito louvável, São Salvador – São Salvador do Congo – voltou a ser Mbanza Kongo. Que palavra é Luanda? Muita gente acredita que Luanda é uma palavra criada pelos portugueses – e não só a palavra. Penso que isso se deve, também, ao facto de se dizer que Paulo Dias de Novais fundou a cidade de S. Paulo da Assunção de Luanda ou, simplesmente, que fundou a cidade de Luanda, o que é mais grave.

Vamos, pois, fazer uma análise linguística para situarmos linguisticamente a palavra Luanda ou seja conhecer o seu exacto contexto linguístico e cultural. Do ponto de vista lexical, o topónimo Luanda, na sua sílaba final, “nda”, tem afinidade fonética e semântica com Uganda, Rwanda, Kambinda (Cabinda), Lunda, Ndala (Ndala Tandu), Kapanda e muitos outros topónimos do mundo bantu.

Do ponto de vista das sílabas iniciais, lua (lwa), Luanda (Lwanda) tem o mesmo tipo de afinidades com Rwanda ( uma vez mais) e o “r” naquela região do mundo bantu parece corresponder ao “l” na nossa região. Assim, Rwanda e Luanda seriam o mesmo nome. O nome Luanda tem afinidade, na nossa região, com Luaximu e Luau, entre outros.

Localização geográfica de Luanda (Foto: D.R.)
Localização geográfica de Luanda
(Foto: D.R.)

Como veremos mais adiante, essas sílabas têm significado e cada uma delas refere e representa uma característica do lugar ou dos habitantes a que o topónimo diz respeito, ao tempo que o topónimo foi criado. Porquê esse lugar e quando assentaram aí? Luanda, enquanto lugar habitado pelos Bantu, é, em primeiro lugar, a consequência da grande migração e expansão dos povos bantu, iniciada, segundo alguns historiadores, entre há 2.000 e 1.500 anos.

Vamos estimar que os Bantu chegaram ao lugar que hoje é Luanda há mil anos. Porquê que os Bantu assentariam num lugar que não tem água, não tem rio? É que há mil anos havia um rio e essa é a segunda razão. Esse rio foi secando progressivamente até se transformar naquilo que hoje é o Rio Seco. Foi a existência desse rio que tornou possível a existência de Luanda.

A zona era riquíssima e atractiva. Tinha água, muito peixe, muita caça – incluindo animais de grande porte, como pacaças e até o leão – antílopes em quantidade incalculável, incluindo a cabra e era uma zona paisagística, como ainda hoje se vê, defensável e estratégica do ponto de vista militar, que o digam os Portugueses nos seus confrontos com Ngola Kilwanji.

O que significa Luanda?

Aspecto rústico de Luanda (Foto: D.R.)
Aspecto rústico de Luanda
(Foto: D.R.)

Os Bantu tinham um método próprio para dar nome aos lugares. Eles usaram pouco mais de trinta sílabas, codificadas com relação às características morfológicas do lugar (montes, morros, rios, rios com afluentes, planícies, etc.) e às características psicológicas e ocupacionais dos habitantes – principalmente as características do lugar – e, pela junção de duas ou mais dessas sílabas, que indicavam duas ou mais características do lugar – as mais distintivas – davam nome ao lugar.

Há dois grupos de sílabas recorrentes. O primeiro significa apenas território e serve, meramente, para indicar que a palavra em causa é um topónimo. Essas sílabas são, por ordem decrescente da extensão do lugar: nza, ndu, xi, la. “Nza” e “ndu” podem, por vezes, desnasalizar-se e aparecer sob a forma de “za” e “du”, respectivamente, bem como todas as outras sílabas que iniciam com pré-nasal (nda, mba, mbu, etc.).

O segundo grupo é: la (novamente) e nda, podendo, por vezes aparecer juntos, como em Ndala (Ndala Tandu) e Lândana. Estas duas sílabas ou códigos são icónicos na medida em que “la” representa lugar e “ nda” representa passagem. “La” e “nda” têm oposição, na medida em que um representa um lugar onde se permanece e outro significa um lugar de onde se passa para outro.

Mas um lugar pode representar as duas situações e os dois códigos aparecerem no mesmo topónimo, como vimos atrás, em Ndala Tandu e Lândana. Ora, todo o lugar onde nos encontramos é, por definição e código, um ” la” (lugar).

Encontramos o código “la” em topónimos como: Nduala (Camarões), Kampala (Uganda), Nampula (Moçambique), Ndola (Zâmbia), Lândana, Maquela (do Zombo), Kibala, Mbangela (Benguela), etc. De notar que os topónimos referentes a Angola, são aqui, geralmente, apresentados na sua versão em língua kimbundu e na ortografia convencionada.

Porto de Luanda no século XVIII (Foto: D.R.)
Porto de Luanda no século XVIII
(Foto: D.R.)

Quanto ao código “nda”(passagem), para um povo migrante, como o Bantu, quase todos os lugares são” nda”(passagem), pois deles se transita para o lugarseguinte, a menos que não haja transitabilidade. Inserem o código “nda” os seguintes topónimos: Uganda, Rwanda Kambinda (Cabinda) Lândana, Lunda, Ndala Tandu, Luanda, etc..

É evidente que nem todas a características de um lugar estão inseridas no topónimo que o designa, sob pena de o topónimo ter uma dimensão exagerada.

Apenas se inserem no topónimo os códigos – sílabas- que representam as características mais representativas e distintivas. Falamos primeiramente das quatro sílabas genéricas usadas para representar lugar (nza, ndu, xi, la).

Os lugares com” Nza” ou” za”incluem entre outros, rios:Nzambeze (rio), Kwanza (rio), Nzaidi (Zaire, o rio – rio Kongo); categorias administrativas, como mbanza (kikongo), sanza e sanzala, etc.. Incluamos nesta lista, pelo menos, Zâmbia e Zanzibar. Encontramos “ndu/ du” em: Nduala (Camarões), Mbandundu (RDC), Ndundu (Dundo), Mbalundu(Planalto central angolano), Rundu (Namí- bia), etc.

Não temos qualquer informação sobre o nome e ortografia vernáculos da capital dos Camarões, que corre o mundo sob a grafia francesa de “Douala” e lido “dualá”, mas acredito que se passa com esse topónimo o mesmo que os Portugueses fizeram com Ndala Tandu, que desnasalisaram a mesma sílaba, “nda”, e grafaram “Dala Tando”, o que, até hoje, se mantém.

Se “desafrancesarmos” o referido topónimo e o reinserirmos no contexto fonético e ortográfico das línguas bantu “Douala” (dualá) é “Nduala” e pronunciado (nduála). Encontramos” xi” em: Muxiku, Xibya, Xikala,Xingwali (Chinguar), Kinaxixi etc. O código “la” foi sobejamente exemplificado acima.

“La”, como código mais pequeno para designar lugar, pospõe-se ou antepõe-se, frequentemente, aos códigos maiores, nza e ndu, para lhes limitar a extensão, pois nza, por exemplo, pode representar até universo, como quando aparece na palavra Nzambi (Deus), etimologicamente: o espírito do universo.

Então, surge “la” depois de “nza” em sanzala (aldeia), tal como “a”, com a mesma função em Nduala e Kwanza. A vogal “a”, enquanto código, serve, entre outras coisas, para limitar a extensão dos conceitos. Apresento apenas mais dois códigos: lu e lwa. “Lu” é para sinalizar lugares altos, aqueles situados em montanhas ou planaltos ou que têm montes ouospróprios montes.

Note-se que monte, em algumas línguas, como o kimbundu, se diz “mulundu”. Note não só así- laba “lu”, mas também “ndu” inseridas na palavra que não é, entretanto, um topónimo.Lugares altos:Ngulungu, Lubangu, Lunda.

Chamo atenção para o facto de que, dentro das vogais, ser a vogal “u” que representa “o alto, em cima”. Podemos ver esse facto representado na Toponímia. A esse respeito vejamos o nome do país que é, talvez, o mais alto de África – Uganda.

Em Angola, vejamos Uambu (Huambo), situado no Planalto central. Céu, por ser o lugar mais alto que existe leva os dois códigos (u, lu) e diz-se, em kimbundu, “dyulu. Na mesma língua, em cima, diz-se, esclarecedoramente, “bulu” (bu-lu) (em-cima) (no-alto).

Chamo também atenção para o facto de os Portugueses não entenderem essas coisas, tal como nós, hoje, e ao nome Golungo (Ngulungu) terem acrescentado a palavra Alto, porque o lugar é alto, de facto. Não seria necessário, porque o Bantu já havia cuidado disso ao inserir a sílaba “lu” (alto) no topónimo que criou.

Sobre a sílaba “lu”, chamo, ainda, a atenção para o nome do monte Kilimanjaru, ponto mais alto de África, o qual nome, nas línguas da nossa região, seria “Kidimanzalu”. Note-se a sílaba “lu” (ru), que o identifica como lugar alto e a sílaba “nza” (nja) que o identifica como topónimo, porque, na Linguística bantu, os nomes de cidades, rios e relevos pertencem a uma só e mesma categoria, como se pode ver.

O último código toponímico a assinalar neste trabalho é “lwa”, um código com duas sílabas e, com isso, estaremo-nos a aproximar do topónimo Lwanda. A vogal “a”tem como uma das suas funções, para além dos seus significados, diminuir a extensão do significado ou a extensão e o significado da sílaba anterior ou da seguinte, como dissemos atrás. Assim, se “lu” representa montes, “lwa” representa morros.

Concluimos, então, que Luanda (Lwanda) significa “a passagem dos morros”. Na verdade, Luanda é, por um lado, a única passagem junto à costa que, do norte, dá acesso ao sul e vice-versa.

Por outro lado, uma das características morfológicas distintivas de Luanda é a existência de morros: Morro da Fortaleza, Morro da Samba, Morro da Luz, Morro da Corimba, Morro Bento e Morro dos Veados.

Note-se que estamos falando da Luanda tradicional, não estamos falando do Marçal nem do Rangel. Devem ter , já, reparado que estamos usando o termo código em dois sentidos, ora designando sílaba codificada, ora designando o conjunto das sílabas codificadas.

Lugares de Luanda: a Maianga

Com a progressiva diminuição do caudal do rio chegamos a um ponto em que já não havia água no leito do rio. O rio secou. Esta era a situação prevalecente há cerca de quinhentos anos, pouco tempo antes da chegada dos Portugueses. Nesse tempo, já não havia água sobre o leito do rio, porém havia-a ainda debaixo do leito.

Depois que o rio de Luanda secou,na procura da água, o povo cavava poços no leito do rio, de onde a extraía. Poço de água diz-se em kimbundu, língua de Luanda, manyanga (manhanga). É nesta azáfama, da procura de água, que os Portugueses encontraram a população de Luanda e, deturpadamente, manhanga pronunciavam maianga.

Temos aqui a génese do nome do bairrro da Maianga, hoje nome de distrito – o distrito urbano da Maianga. A Samba Luanda Devo dizer que fico triste quando ouço dizerem Mbanza Luanda. Na verdade, mbanza é uma palavra da língua kikongo para designar cidade.

Cada língua tem as suas palavras próprias e cidade, em kimbundu, é ”samba” tal como aparece antes de certos topónimos: Samba Caju, Samba Lukala, etc. em paralelo com Mbanza Kongo, Mbanza Kitele, etc.. Com relação a Luanda, diz-se apenas Samba ou a Samba de Luanda como se a Samba fosse um bairro, uma sanzala. As sanzala(s) (bairros) de Luanda são a Kinanga, a Kamuxiba e outras sanzalas.

O conjunto dessas sanzalas constitui uma unidade administrativa maior que se designa como” samba” que, em português, se deve traduzir por cidade. Não há, pois, uma Samba, uma Kinanga, uma Kamuxiba, etc. Há, sim, uma Kinanga, uma Kamuxiba e outras pequenas unidades administrativas (sanzalas) as quais, no seu todo, constituem uma unidade administrativa de ordem superior que é uma samba, entendida, na nomenclatura portuguesa e ocidental, como cidade.

Não se trata, pois, da Samba de Luanda, mas da Samba Luanda, tal como as já aludidas Samba Caju, Samba Lukala, etc.

A Luanda pré-colonial. Sua dimensão política, económica, comercial e social

Um lugar não atinge a dimensão administrativa de cidade, mbanza ou samba do dia para a noite.

Ele tem que atingir um crescimento urbano, económico e social considerável e elevado a um certo nível de reconhecimento político ou simbólico, para tal. Luanda, antes da chegada dos Portugueses, era um burgo relativamente extenso, homogéneo do ponto de vista cultural, que até determinada altura incluía o território da Azanga – Ilha de Luanda.

Do ponto de vista económico e social, a margem esquerda do rio distingue-se dos lugares que se situam na margem direita, como o Kinaxixi, por força da posição dos lugares da margem esquerda, junto ao mar e dele dependentes e que os transforma num centro económico e comercial que só poderia ser comparada, mas num nível económico superior, com a ilha grande – Ilha de Luanda (Azanga) – se fosse uma área comercial, que não era, pela sua condição de banco central do reino do Kongo, a partir de uma data ainda desconhecida, talvez por acordo político e comercial de conveniência entre os Ngola, do Ndongo, e os reis Kongo, possivelmente devido à necessidade, sentida pelos Ngola, de circularem livremente nos mares dominados pelo reino do Kongo, na costa africana, ou como qualquer outro tipo de tributo do Ndongo à potência marítima regional que era o reino do Kongo, como a palavra kimbundu “dikongo” (dívida) parece revelar.

O primeiro sinal da importância e grandeza de Luanda reside no facto de as suas embarcações –militares e de pesca – os “ulungu” (canoa) serem fabricadas de um só tronco, o que requer grandes árvores, e Luanda não tinha, não tem, florestas que lhes dêem tais árvores.

Os barcos dos pescadores e marinheiros “kalwanda”, assim se chamam os naturais da Luanda continental (os da Luanda insular – Azanga, Ilha de Luada – são chamados Axiluanda e não cabe aqui explicá-lo) eram fabricados, por contrato, nos estaleiros navais do Ngulungu (Golungo) e desciam até a costa, no Mbengu (Bengo), de onde eram trazidos para Luanda por uma segunda tripulação que vinha num barco do – ou fretado pelo – contratador kalwanda.

Em Luanda só os Kalwanda, por essas e outras razões, podiam ser detentores de barcos e ser pescadores. Gente de outras proveniências tinham que contentar-se com ser mabangueiros, se quisessem – apanhavam mabangas à mão, como ainda hoje se faz. O gênio comercial dos Kalwanda, detentores de indústrias de peixe seco e peixe fumado, é tal que, para o prato principal da sua culinária – o “muzóngué” (caldo de peixe) eles só dão o peixe, sendo tudo o mais produto do comércio regional: o óleo de palma (maji ma ndende) (óleo de dendém) tem a sua origem no então Protectorado dos Ndembu (Dembos).

Note-se a sílaba “nde” do seu produto repetida no início do topónimo (ndende-ndembu). O sal (múngwa) provém das minas de sal da Kissama, provavelmente. E, depois da introdu- ção da mandioca pelos Portugueses, como reza a História, a mandioca entra no “muzónguè”, juntamente com a batata doce (mbónzò) e, ainda coma mandioca fabrica-se a farinha de mandioca com a qual se confecciona o pirão (não confundir com o pirão sulano), acompanhamento do “muzónguè”, servido a parte.

Todos esses produtos vinham de fora de Luanda através do comércio – até mesmo a farinha, derivado da mandioca, produto novo. Estamos falando da Luanda pré-colonial – a Samba Luanda, criada e fundada pelos Bantu, que não tem quatrocentos anos.

Desmistificar e redefinir a identidade Esta samba, a Samba Luanda, não tem quatrocentos e tal anos. Vamos nos arriscar a dizer que tem cerca de mil anos. É uma cidade antiga fundada pelos Bantu no período Africano.

Luanda é uma cidade africana tradicional milenar. A cidade que tem quatrocentos e tal anos é a Luanda colonial, que começou por crescer, mais ou menos na direcção oposta à da Luanda tradicional, onde está a sua característica mais distintiva – os morros .

Hoje, que Luanda retomou o seu crescimento na direcção inicial e em todo o perímetro “das duas Luandas”, em que Luanda nos encontramos, na Luanda de quatrocentos e quarenta anos ou na Luanda de cerca de mil anos? Algum subsídio linguístico

O código toponímico bantu

O nosso tema está esgotado, em certa medida, e a nossa intenção concretizada. Quero, porém, presentear os leitores que se dignaram ler o nosso trabalho até o fim com a informação das aludidas trinta e tais sílabas que integram o código toponímico bantu. Não os brindarei, entretanto, com o seu significado porque não cabe no âmbito deste trabalho.

A intenção é, apenas, que, com elas, e mais algumas sílabas comuns, não pertencentes ao código toponímico, mas que entram na formação de alguns topónimos, procureis reconhecer o código nos topónimos do mundo bantu. Senão dos Camarões à África do Sul, pelo menos os lugares de Angola – províncias e municípios.

São as seguintes as sílabas que constituem o código toponímico bantu: nza, ndu, xi,la; nda; ku, nji, nza (para lugares e rios); u, lu, lwa (lua), lo, i; ko; ndi; mba; mbu; ngu, vu, mbo; e; sa, mbe, mbi, ngo; nga; na/ne; nze; ndo; a; prefixos – do plural: ma; locativo: mu; de categoria administrativa: ki, ka. Obs: na/ne significa que “na” pode ser substituído por “ne”, como se pode ver em Kunene (rio grande) que seria “Kunana” (uma espécie de nosso Rio Grande do Sul) talvez para evitar homonímia com o verbo “ku nana” (kunana) que significa crescer, aumentar de volume.

“Na” aparece na sua forma original, por exemplo, em Nambwangongo. Quando falamos do significado das sílabas, temos que ter em conta que cada uma delas pode ter até quatro significados, se não mais. Não pensemos, pois, que “la”, por exemplo, aparece sempre com o significado de lugar e o mesmo acontece com todas as outras sílabas não só da Toponímia como de outras disciplinas e do léxico comum.

Tenham em conta as alterações fonéticas introduzidas pela língua portuguesa que fazem com que “ndu, ngu mbu,etc” no fim de palavra passe a “ndo, ngo, mbo,etc” e, em princípio de palavra passe a “du, gu, bu, etc.”, por desnazalização das pré-nasais, bem como com outras sílabas pré-nasaladas.

Ter em conta também as alterações introduzidas pelas outras línguas coloniais,nos topónimos dos territórios dos outros países ex-coloniais, o que deturpa a verdade linguística e até histórica.

De notar que, essas trinta e tal sílabas podem aparecer em diferentes regiões do mundo bantu sob outros valores fonéticos dentro das próprias línguas bantu: “b” por “p” originando que “mba” passe a “mpa” (Kampala) e que “mbu” passe a “mpu” (Nampula); “l” por “r” originando que “lu” passe “ru” (Burundi) e que “lwa” passe a “rwa” (Rwanda); “d” por “l”, “z” por “j”, “l” por “r” originando que Kilimanjaru seria na nossa região “Kidimanzalu”.

Tal com em Burundi (Mbulundi), note-se que ru/lu designa “monte, lugar alto”. Se atentarmos igualmente que “nja” se converte em “nza” e que “nza” é o código maior para representar lugar, isso dá-nos a informação codificada de que Kilimanjaru não é só um ponto alto, mas o ponto mais alto do mundo bantu, tal como estamos informados pelos Européus.

Isso mostra ainda que, antes que os Europeus viessem a África e que com as suas técnicas no-lo “revelassem”, nós, os Bantu, já o sabíamos e tínhamo-lo documentado na língua. Desejo bom trabalho àqueles leitores que aceitarem o desafio.

Eu deixo o meu contributo, lançando a primeira palavra e ela é…Sambizanga. Contém quatro das sílabas assinaladas no código toponímico e não tem sílabas do léxico comum. Identifique você, agora, as suas – mais que uma, evidentemente.

Luanda, 18 de Janeiro de 2016

Adérito Miranda é Investigador de Linguística bantu e Professor universitário

Nota bibliográfica

Os dados contidos no presente trabalho, com excepção daqueles aprendidos no ensino liceal e outros do domínio público, foram obtidos ao longo dos anos, desde 1982, a partir de pesquisa de campo, excepção feita, também, aos referentes ao Rio Seco e Maianga, que encontrei em 1982, na Biblioteca do Arquivo Histórico, em obra cujo título me não lembro, de autor português.

Os dados sobre Linguística bantu constituem investigação original do autor, iniciada em 1985 e constitui uma linha de investigação que não tem relação com a linha seguida pelos linguistas europeus e americanos, apesar dos pontos de contacto que possam ter.

Os trabalhos do autor são orientados, também para a estrutura morfológica das palavras das línguas bantu, mas constituem principalmente uma pesquisa sobre a produção do significado nessas mesmas línguas, o que permite recolher informações valiosas contidas nas palavras sob forma codificada.

Minha investigação consiste, em suma, em estudar o código linguístico das sílabas e dos fonemas das línguas bantu, elementos constituintes das palavras, maioritariamente a partir da língua kimbundu. (cultura)

Por: ADÉRITO MIRANDA 

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