“Não é chamando Isabel dos Santos que resolvemos o problema da espanholização”

Mariana Mortagua (ONBSERVADOR)

Mariana Mortágua acredita que António Costa tem “o dever” de intervir na economia, mas também acha que chamar Angola para resolver presença excessiva de Espanha na banca, agrava o problema principal.

A “deputada estrela” do Bloco de Esquerda chega à redação do Observador de capacete de mota debaixo do braço, acelerada para uma entrevista onde fala da atualidade, ultimamente tão dominada pela área onde mais se destacou nos últimos anos no Parlamento: a banca e a sua fiscalização. Foi aí que se fez notar, na comissão de inquérito ao BES, tinha 28 anos. Tornou-se na voz mais autorizada no BE para falar nestes temas e não critica o primeiro-ministro por chamar uma empresária para falar de um negócio privado (a troca da posição no BPI pela entrada no BCP), mas tem dúvidas que a empresária em causa possa resolver um problema que diz ser maior: “O país está a perder o controlo do sistema bancário”. Mariana Mortágua ataca a venda do Banif, clama pela nacionalização do Novo Banco – mas admite que não é uma linha vermelha -, quer o Estado a intervir e faz frente às instituições europeias cheias de “técnicos que nunca saíram do seu gabinete em Bruxelas e nunca foram a eleições”.

Fala das negociações do Orçamento, e mostra até onde o BE é capaz de ir para manter o Governo do PS em funções. Nega que exista um plano B, com mais cortes e austeridade, havendo apenas um plano A que “pode ser aprofundado”. Isto desde que o Governo não ultrapasse as condições de princípio: não baixar salários nem pensões, e não aumentar impostos sobre o rendimento e bens essenciais. A máxima vai continuar a valer para o OE 2017. Sobre a dívida, Mariana Mortágua diz que “há outras formas de reestruturar sem que haja um haircut” e sobre a oposição à Europa fala com mais cautelas. “É preciso ver como essa oposição é feita”. Mas nega que o partido se esteja a tornar suave à medida das necessidades atuais e da proximidade ao Governo. Elogia q.b. António Costa e conta como é diariamente reconhecida na rua.
“Portugal está a perder o controlo do seu sistema bancário e é preciso arranjar uma forma de resolver isto”

O primeiro-ministro deve receber uma empresária a propósito de um negócio privado da banca?

Um primeiro-ministro tem o dever de intervir na economia quando é necessário. Veja-se o caso da PT, o anterior Governo poderia ter evitado a venda à Altice que se veio verificar ser o fim da PT que hoje está a despedir e a perder todo o seu potencial estratégico. Essa venda, que era claramente prejudicial, poderia ter sido travada pelo Governo, da mesma forma que em todos os Estados da Europa os governos intervêm quando há risco de se perder empresas que são estratégicas, à custa de um mau negócio privado. Por isso acho que sim: os governos devem intervir em momentos-chave na economia. Só que as intervenções que temos visto não têm sido para defender setores estratégicos, mas para distribuir poder ou favorecer determinados grupos económicos e empresas.

E onde coloca esta intervenção específica, em que António Costa recebe em São Bento Isabel dos Santos?

Acho que foi feita para tentar encontrar um equilíbrio entre a espanholização e o poder angolano na economia portuguesa. Mas eu acho que ambos são o mesmo problema e não é chamando Isabel dos Santos para a economia e para a banca portuguesa, que vamos resolver o problema da espanholização. O problema de fundo é que Portugal está a perder o controlo do seu sistema bancário e é preciso arranjar uma forma de resolver isto. (OBSERVADOR)

por Rita Tavares / Rita Dinis

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